Sempre podemos com outro dia de folia
Não foi a primeira vez que li, ao final de um livro,
comentários sobre o texto que ali se encontrava e, principalmente, sobre o
autor. Também não foi a primeira vez que desconfiei de todos e de tudo que se
inscrevia ali, naquelas páginas em que parecia não haver desfecho para o que
pode ser chamado de Outro dia de folia,
de Eduardo Lacerda. Contudo, os comentários estavam após os poemas que
me fizeram rir e pensar, até demais.
Constatar em poemas de outrem o que um dia já
pensamos é diferente para mim. Quando leio algum autor que gosto e percebo que
ele escreveu, não o que eu queria escrever, mas o que eu pensei um dia e de uma
maneira que muitos outros pudessem ler, eu rio de uma maneira que me emociono,
porque assim a poesia faz. Geralmente isso acontece quando já sou um leitor
assíduo de um determinado autor e que quase sempre me agrada. No final das
contas não passa de ser um gosto meu que contribui para que eu me emocione,
talvez, mais fácil. Porém, Eduardo Lacerda e suas poesias me fizeram perceber que o desconhecido também pode pensar como nós, leitores, pode nos fazer sorrir em nosso íntimo.
Outro dia de folia chegou até mim e eu
já sabia quem era o autor. Um homem louco por literatura e editor da Patuá. Isso
era o que eu sabia, apenas. E sempre olhei com maus olhos os editores ou
críticos que resolvem escrever, até certo tempo, quando constatei que ser
editor ou crítico não é sinônimo de ser mau escritor. E é isso que Lacerda não
é.
As mudanças que pude sentir no livro de estreia do
editor da Patuá foram mudanças que percebemos ao nosso redor. Tudo tão banal e
tão delicado que quase sempre deixamos de lado o pensar sobre esses momentos. É
como se não entendêssemos algo que acontece em todas as vidas de todos os
homens do mundo. Mas parece que o poeta conseguiu entender:
Há regras à mesa
como em um
brinquedo
de
quebra-cabeça.
/ E eu não
entendo
os dispostos à
esquerda
dos pais.
Restos do
pequeno
que sentavam ao
meio
da mesa (como
prato
que se enche
e procura lugar
entre
as pessoas). /
Já não me
encaixo
depois que
aprendi
a olhar de lado
e sair por
baixo. (a última ceia)
E por não pensar acreditamos que nos encaixamos, até
o momento em que algo nos desperta, nos desilude do que vivemos e podemos
começar a olhar por baixo das coisas e perceber que não nos encaixamos em quase
nada. Esperamos, muitas vezes, que a
nossa fuga caia dos céus enquanto ficamos sem querer aprender a buscar.
... o desejo
retorna ao estado
de espera.
E eu espero.
E eu estou de
parabéns. (embrulho)
Parece-me que Eduardo Lacerda quis ter em sua
escrita o seu reflexo, sua salvação. Fica claro, pelo menos para mim, que as
palavras que são esvaziadas de sentimentos carregam toda a sua busca por
sentir-se no mundo, por acreditar que nós somos vários em nós mesmos e que por
isso a espera não deve ser a primazia. Parece que ele resolveu,
definitivamente, olhar por baixo da mesa.
Lendo os poemas comecei a acreditar que somos
vários, talvez não trezentos e cinquenta, como diria Mário de Andrade, mas
somos muitos, e que devemos fazer dos nossos vários nossa festa, o nosso outro
dia de folia, para percebermos o mundo, os nossos medos e nos vermos como somos
internamente:
É
certo
que
não
há
nenhum
convite,
mas
chegamos
cedo,
para
onde
sempre
estivemos:
que insiste:
sim,
você
está
triste. /
E o convívio,
ele é
óbvio, e
quente.
(Inquietos,
seus dedos
contam
sozinhos
os anos
como quem conta passos de dança [e
tropeça]
por sobre
a pele)
Quanto há
de
penetra
no dono
de sua
própria
festa? (outro dia de folia, para
Flávio Rodrigo Penteado)
Aos
poucos, vou percebendo, sem saber se essa é a intenção do autor, que o buscar
sentir-se, não desviar do destino é o que importa neste livro. Não devemos
fingir que não vemos a vida, como muitas outras pessoas o fazem:
Ela esconde, de sua retina
que se arregala,
e brilha (como cortina
que uma festa encerra)
tudo aquilo
ao que se destina.(por um fio, para
Aline Rocha)
Também
tenho a impressão que os poemas de Eduardo Lacerda falam por si, como se no ato
da criação do poema, os poemas criassem outros poemas dentro de si, como se
eles fossem também vários, como no poema Desistência:
Como
à cama há pouco tempo
nos
olhávamos em silêncio
hoje,
nossos ossos, esqueletos
encaram-se,
em paralelos.
Comungados
da mesma hóstia
repartida
e azeda / dois exércitos
negros,
iguais, porém divididos
por
um mesmo tabuleiro
:
o ódio
,
encarnando-se por este alimento
toda
parte de um corpo
tanta
carne sobre
ossos
que
é a vida quem nos indaga:
–
Ainda haverá sangue?
/
a tristeza
é
que
na
vida não se
pode,
como
no jogo
o
roque /
Mas
tudo pode ser apenas uma ilusão e talvez a folia já esteja perpetrada em minha
interpretação. Talvez somos apenas uno e nascemos com todos os caminhos
trilhados, como se fossemos máquinas ou muros em construção, só há uma maneira
de existirmos, como se as nossas escolhas tivessem que ser resolvidas com um
“dar de ombros”. Mas o que não sabemos, ainda, é que tudo se esconde e
precisamos nos manter vivos, mesmo que tenhamos que nos enterrar nas entranhas
da terra para conseguirmos crer que somos “arcanos”
Todo homem
é arcano
em seu jogo
e destino. (o falso enforcado)
Para
crer que tudo não passa de uma brincadeira e que não devemos acreditar nela,
que podemos encontrar em nós, em nossa escrita ou reflexo o que a maré muitas
vezes tem a nos oferecer: “água na boca e tempo”.
É preciso
enterrar-se vivo
na areia.
É tudo só mais
uma
brincadeira.
É só mais um castelo – estes
meus castelos –
/ Coisa de rei
que vendo
estrelas cadentes,
e, dormindo ao relento,
ainda
faz pedidos
de maré cheia:
para que a vida lhe derrame
água na boca
e tempero. / (o que se esconde)
Entrevista com Eduardo Lacerda AQUI

