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14 de agosto de 2013
Os escritores que matei

Os escritores que matei


Não sei precisar exatamente quando comecei a matar, mas foi ainda jovem. Na metade da adolescência, mais ou menos. 
Como isso já faz bastante tempo, não me lembro quem foi a primeira vítima. Mas sei relatar várias delas, por nome e sobrenome, e é isso que tenciono fazer, numa ordem aleatória, mas completamente real.

Por volta de 1997, li um livro de um escritor chamado Morris West. Era um dos clássicos dele naquela época, As Sandálias do Pescador. E pensei comigo: Ele já tem uma certa idade, eu vou escrever, porque vai que ele morre e eu não digo a ele o que gostaria...

Eu escrevi uma carta pra ele, e mandei pela editora dele no Brasil, que certamente mandou pra editora dele nos Estados Unidos, que deve ter colocado num pacote endereçado a ele... enfim, a carta chegou até o Morris West. Muito solícito, ele me respondeu. Nunca esqueci. Era uma carta curta, tinha uns três parágrafos de umas quatro linhas cada, mas ele dizia cada coisa linda, que até hoje eu reproduzo por aí. 

Mas eu estava certo: Morris West morreu dois anos depois.

Mandei também uma carta para outro autor que li na época: Arthur Hailey. Arthur era famoso por escrever livros a respeito de temas que estivessem bombando no noticiário por algum motivo, o que fatalmente faria sua exposição ser alavancada à estratosfera e o livro venderia como água. (É, esse era o tipo de coisa que eu lia naquele tempo) Assim, ele escreveu sobre a indústria automobilística, aeroportos, bancos, a indústria farmacêutica etc etc. 

Escrevi pra ele em 2003. A esposa dele me respondeu no mesmo ano. Muito solícita e simpática, afirmou que o marido continuava a escrever, mas, por estar velhinho, escrevia num ritmo cada vez mais lento, e me mandou uma foto dele, atrás da qual ele havia escrito uma singela mensagem de agradecimento pra mim, e autografou. Morreu dormindo, no ano seguinte.

Mandei também uma carta para Marion Zimmer Bradley, famosa autora de As Brumas de Avalon, livro que eu comecei a ler umas trezentas vezes mas nunca terminei, pedindo um autógrafo dela para uma pessoa que a adorava mas, se ela recebeu, não pôde responder, porque morreu uns dois meses depois que eu enviei a carta.

Uns nunca responderam, mas como morreram pouco tempo depois, sei que receberam minhas cartas. 

Sidney Sheldon, outro autor que eu lia na adolescência, também foi assassinado por mim. Eu pensei: vou escrever pra ele. O bichinho está tão velhinho, eu preciso dizer a ele o quanto fui influenciado por seus livros no tangente ao gosto pela leitura e por descobrir coisas outras (e melhores que ele, claro, mas isso seguramente ficaria de fora da carta). Ele me mandou uma foto autografada quase do tamanho de um pôster de filme, e morreu no mesmo ano.

(Aliás, que pessoal vaidoso! Eu peço autógrafo, recebo fotos autografadas. Tsc, tsc...)

Mas eu não matei apenas escritores estrangeiros!

Escrevi larga e fartamente para o Marcos Rey, entre 1995 e 1999. Escrevi uma carta pra ele em dezembro de 1998, na qual eu dizia que ele se cuidasse mais (na carta anterior, ele reclamara da saúde), porque eu não gostara do tom da carta anterior, meio deprimido. Ele me respondeu em fevereiro de 1999, e morreu no dia 1º de abril daquele mesmo ano.

Fernando Sabino morreu depois de responder minha terceira carta, de um ano para o outro.

Moacyr Scliar, quatro meses após minha carta. Fechei luto durante a maior parte de 2011.

E o que dizer da Lúcia Machado de Almeida, célebre autora de O escaravelho do diabo, um dos livros mais famosos da série Vaga-lume de todos os tempos? Quando eu soube de sua morte, passei uns dois dias em que mal comi e bebi. Principalmente por um fato: eu havia escrito, na noite anterior, uma carta para ela, que ainda estava guardadinha, dentro de um envelope, e que seria enviada no dia em que ela morreu. 

Concluí, muito cedo na vida, que minhas cartas aos escritores estavam matando-os. E eu nem precisava de anthrax, aquele pózinho que andou metendo medo em metade do mundo lá pelo começo dos anos dois mil. Acho que a derrocada das cartas começou ali: ninguém mais tinha coragem de abrir envelope. 

Muitos e muitos outros casos poderiam ser narrados aqui. E não apenas com escritores, mas também com cantores. E se não aconteceu também com atrizes e atores, foi só porque eu não quis escrever pra seus estúdios mundo à fora, creio que por preguiça mesmo. 

Dois casos na música: eu conheci Amy Winehouse pelo seu álbum Back to Black. Gostei imensamente. E pensei: não vou ouvir seu álbum anterior, Frank. Quando ela morrer, quero ter algo inédito dela pra ouvir. E pimba!, não deu outra. No ano seguinte a este pensamento, ela morreu. A mesma coisa aconteceu com Whitney Houston. E até hoje tenho álbuns dela inéditos. Ao menos pra mim, que ainda estou vivo.

Alguns resistem bravamente - ainda bem! Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles, que me responderam, continuam aí, mesmo depois de já quase quinze anos da primeira carta. Esses são O Mistério. 

Em que pese todas essas tenebrosas coincidências (?), essa é uma constatação real através dos tempos. E eu sempre me questiono: que super sentimento é este que eu tenho, quesinto quando certos autores/artistas vão morrer? Nunca fui em terreiro de macumba nem centro espírita pra tentar me informar. Talvez um dia eu vá, não sei. 

O fato é que pensar sobre isso me fez também pensar nos escritores que acabamos por matar porque queremos, porque desejamos ou precisamos, para abrir espaço, ainda que à fórceps, para perscrutarmos outros caminhos na vida. 

O que torna um grande amor de outrora, num autor relegado ao esquecimento? Mudou o autor ou mudamos nós, leitores? 

Quero crer que, na maioria dos casos, mudam os leitores, que passam a ter outras necessidades, a vida vai trazendo outro tipo de vontades, leituras mais densas, personagens mais bem-escritos. E no final compreendemos que o ritmo do livro, algo que outrora tendíamos a supervalorizar tanto!, acaba nem sendo tão importante assim. Desta maneira, Dean Koontz, Robin Cook, Jeffery Deaver, e tantos outros autores que, ano após ano, costumam entregar o mesmo tipo de obra, vão paulatinamente sendo substituídos por outros, que têm mais chances de serem carregados pela vida inteira.

Parece-me que é chegado um tempo em que tendemos a compreender que a vida é mesmo um sopro, que ao longo do tempo o corpo vai sofrendo implacáveis mutações, e as limitações impostas vão sendo notadas, ainda que à contragosto. Com isso, a clara certeza de que não há tempo pra ler tudo, nem nunca haverá. Ávidos leitores perceberão que já houve tempo demais antes deles, o mundo já é mundo há muito tempo, para que possamos ter a ambição de ler todas as obras clássicas e contemporâneas de um (vários) universo que já se descortinou há milhares de anos, enquanto nossa própria cortina se fecha em algumas décadas. O retrato é sombrio? Nem um pouco. 

Primeiro porque, como para tudo numa existência, é preciso termos seletividade. E saber peneirar, aliás, descobrir como fazê-lo, é muito bom. Hoje, por exemplo, eu não me forço a levar até o fim um livro que eu ache ruim. Pra quê? (Lembra daquela história de que a vida é curta? Pois então!). Segundo, porque não sou masoquista.

E por último, mas não menos importante: a morte fascina. Por isso o sucesso dos thrillers, dos livros policiais e de suspense, até hoje. 

Ora, e quem não gosta de desatravancar o caminho, tirando de vista o que não presta? Um viva à morte daqueles autores que elegemos pra morrer! Seja por um desejo assassino reprimido, seja porque você enjoou, porque a vida te trouxe autores melhores, ou simplesmente porque você quer fazer novas descobertas literárias... Afinal, ainda que eu morra adorando Philip Roth, um dia chegará a minha hora de desembarcar.

Bom, a vida não é mesmo um ciclo?


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