O mar sempre tem razão, de Munique Duarte
por Munique Duarte
Visto de cima o mar é uma grande placa
azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as
certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de
corte duro, pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre
chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da
pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao
redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois
de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe.
Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era
sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do
fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e
acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres
e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam
um idioma estranho, como muito requebrar de língua, mas compreendia e rejeitava
as hospitalidades, até acordar no frio da madrugada sobre um fino colchão sujo.
Mulheres para um lado, homens para o outro. Mas o dia era de todos tomando sol
sobre o casco do navio. Lagartos enjaulados na esperança de rotinas melhores.
Sozinha, não tinha mais passado. O
sangue em suas veias não se repetia em mais ninguém. Viuvinha de olhos secos. A
vinte seis dias de seu destino. Apenas uma lembrança a assaltava. Uma casa
enorme, muito antiga, com portas enormes onde passaria um gigante. As janelas
com os vidros meio quebrados. As escadas com degraus de castelo. Todas as camas
pareciam de livros encantados, com lençóis muito brancos. Havia um homem que
sempre dizia que ela era o seu tesouro. Imaginava um baú com moedas faiscantes
e colares de pérolas. Todas as pérolas do mundo. O homem a tirara da rua. Ela adorava
comer batatas no fim da noite. Seu quarto era pequeno, com perfume de amora.
Era um mistério de onde vinha o perfume. Assim como a visita de tantas pessoas
que acontecia nos fins de semana. Ficava a maior parte do tempo no quarto,
brincando com uma boneca vestida de rosa. Às vezes, passeava no jardim com o
homem que resolveu criá-la. Ele era calado, já bem velho. Sempre dizia que um
dia ela estaria pronta. E que seria a mais linda de todas. Não entendia nada já
pensando nas batatas do jantar.
Um dia um homem calvo entrou seu
quarto. Ela nunca o havia visto pela casa. Vestia-se bem. Fechou a porta e
começou a conversar assuntos simples. De olhos vivos ela o observava. Os olhos
deles pareciam duas bolotas de ferro frio. Naquela noite enjeitara as batatas
do jantar. Uma dor lhe subia do umbigo e fazia seus olhos se encherem de
lágrimas. Lembrava-se das mãos geladas do homem com olhos de ferro. Tantos
outros homens com olhares de metal ainda entraram em seu quarto depois daquele
dia. Por tantos outros dias, por tantos outros anos.
O mar enorme se acinzentava com o fim
do dia. Olhos ao seu redor a espetavam, mas não a sangravam. Era um coágulo
vestido de preto. Viuvinha debaixo de gaivotas. Seus olhos secos de amora não
se importavam mais. O destino incerto ainda aguardava dias balançando sobre a
água. O mar é uma placa azul enorme que se desfaz toda a noite. O mar é uma
cidade enorme cheia de flores com vagas para se hospedar.
Munique Duarte nasceu e vive em Santos
Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em
sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de
Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de
contos Espelho Oxidado, pela Editora Multifoco. Bloga em textosimperdoaveis.blogspot.com. Em
2015, lançará seu primeiro romance.

