O encontro
por Claudia Marczak
Tomou um café preto, de coador, com pouco açúcar e relembrou sua decisão: seria feliz. Como um mantra, repetia essa frase todas as manhãs na banqueta da padaria, enquanto tomava seu café com um pão na chapa. Repetia a frase em cada pedaço do dia, para ter certeza que cumpriria a promessa que fizera a si próprio: seria feliz.
Do casamento, morno
e monótono de muitos anos abortado há pouco tempo, restaram os filhos e uma
amizade até quase saudável com a ex-mulher. Mais leve, sem o peso de uma vida
que não lhe cabia mais, tornara-se um pai mais verdadeiro e companheiro dos
filhos adolescentes.
A casa era nova,
o emprego também. Abandonara velhos vícios, adquirira novos e mais saudáveis.
Livrara-se da cara limpa e passou a cultivar um cavanhaque que lhe agradava o
olhar. Era isso, tinha gosto em olhar para si mesmo.
Já passara da
fase das baladas e dos delírios retomados logo após a separação. Aquele dia
seria diferente. Um divisor de água, se as palavras de seu pai coubessem
naquele momento. Um encontro depois de meses de solidão voluntária. O primeiro
encontro da sua vida nova.
Conheceram-se na
academia. Um grande passo para um sedentário convicto, a atividade física
passou a ser um momento de novos conhecimentos. Trocaram olhares, telefone,
conversaram. Caminharam no calçadão. Pegaram um cinema. Tinham tanto em comum. Tanta
coisa que até assustava. O convite foi feito para um jantar. Aprendera algumas
receitinhas charmosas para impressionar. Era a hora de colocar em prática tudo
o que guardara em si por anos.
O anjo bom dos
separados atuou naquele dia, quando conseguiu uma faxineira para dar uma ordem
no pequeno apartamento. Agora sim estava com ares de casa. Cheiro bom de limpeza,
roupas passadas e guardadas, louça lavada. Chegou mais cedo do trabalho,
ingredientes comprados pra um risoto especial. Tudo seria especial.
Cozinhou com
rigor científico e leveza de alma. Preparou a mesa, simples, mas honesta. Tomou
um banho, aparou o cavanhaque. Penteou-se observando os cabelos que começavam a
grisalhar. A distância da felicidade é
grande. Trocou de camisa várias vezes, até achar a que se encaixava no seu
desejo. Olhou-se já pronto e gostou do que viu. A campainha tocou antes da
espera.
– Atrasei?
– Nada. Chegou
na hora.
– Trouxe um
vinho. Achei que você gostaria mais do tinto seco.
– É o meu
preferido. – disse pegando a garrafa entendida a ele, enrolada em um papel
pardo e fino – Entra, eu estou terminando de ajeitar o jantar.
O vinho
combinava perfeitamente com o prato escolhido. Estava tudo indo tão bem a ponto
de dar medo.
– Se quiser,
pode colocar uma música.
Logo alguns
acordes encheram a casa.
– Não sei se
você gosta. É um grupo novo, alternativo que conheci outro dia. Eles tocam uma
nova versão pros clássicos. Eu adorei.
Músicas antigas,
novas leituras. Que outro som caberia melhor? Abriu o vinho e serviu. A
conversa começou tímida, mas logo pareciam que se conheciam há anos. Serviu o
jantar, que foi elogiado com entusiasmo. Um pouco mais de vinho e mais conversa
no sofá.
– Que bom que
você gostou do jantar. Sou iniciante na cozinha.
– Nem pareceu.
Estava maravilhoso.
Olharam-se.
– Tudo está
maravilhoso.
As palavras
certas foram ditas. Sabia que a hora estava chegando e sentia seu coração bater
como o de um menino.
– Foi muito bom
conhecer você. Muito bom mesmo, eu nem sei como falar...
– Não fala...
Aproximaram-se.
Próximos demais a ponto de sentir o calor e a boca do moço encostarem na sua. Uniram-se.
Um beijo, um abraço, um laço. Tinha certeza: seria feliz.

