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26 de novembro de 2014
A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA  NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO

A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO





  1. Com quantos anos você começou a fazer poesia?

A poesia começou a me fazer não sei quando. Costumo convencionar comigo que foram os meus doze anos os responsáveis pelas primeiras experiências intencionalmente poéticas. Digo “intencionalmente” porque para as experiências inadvertidamente poéticas não haverá idade certa a indicar: daí o “não sei quando”. Penso que não é dos livros o aprendizado inicial do que chamamos poesia, mas do mundo de vida, daquilo em que nem suspeitamos estar — e está —, daquilo que nem imaginamos conter — e contém —, daquilo que nem cogitamos ser — e é —a poesia. Vivências de beleza, aprendizagens de dor, ocorrências, Léo: o livro de ocorrências da existência de cada dia — esse o primeiro livro, indatado, imprevisto, de poemas. Quando a poesia começou a me fazer? Não sei. Antes de mim, até; na série de eventos que resultariam neste que me-sou, e’ventos que podem remontar ao incabível, ao mais preciso tempo que posso lhe apontar: o do não-sei-quando. Como disse, convenciono os doze anos (3 x 4 ) como o tempo do começo, mas

Até onde é preciso avançar
Se se quer às origens chegar?
Se necessário ao início recuar
A fim de alfim o começo alcançar —
Onde começa e onde tem fim o começar?

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)
  1. Guarda algo dessa época inicial?

Mantenho a lembrança de alguns textos, sua intenção, sua informidade (em mim moram), porém nenhum papel, nenhum rabisco daquele período. Os manuscritos mais antigos preservados datam dos meus vinte anos e isso de preservar os rascunhos é algo que empreendo na desmedida do possível. Raramente me vem um poema cuja elaboração não se tenha dado com a mediação de minhas mãos, de um lápis, uma caneta. Se a intuição do poema se apresenta a princípio como uma centelha não-verbal e ágrafa, depois — ao se transliterar, ao se consubstanciar, pede a caligrafia, o trabalho — não direi “braçal” mas “manual” — do registro pela escrita em que os três dedos mais à esquerda de minha mão direita se veem diretamente envolvidos. Eduardo Galeano cita, a propósito, um conselho que lhe deu Juan Carlos Onetti: não datilografasse (hoje diríamos, não teclasse), mas escrevesse à mão, se não quisesse abdicar de um dos maiores prazeres da escrita. Sigo esse conselho mesmo no que concerne a textos longos: apor a letra no papel é minha forma de capinar a palavra

Escolhesse por que meneios gestos
ou sinais à minh'alma expressaria
e apenas haveria de almagestos
escreversejar: manulivros. Se
  a
mão se move em prol de outra porfia
além do fazimento de seus textos
desperdiça-se: torne-se grafia
mesmo que em papéis vãos idos aos cestos.


(Trecho do soneto “Profissão de Fé”, do inédito Miravilha: liriai o campo dos olhos)

  1. Ser professor universitário de filosofia influi no trabalho poético?

Não vou lhe dizer que “ser professor universitário” influa no trabalho poético diretamente, se por “trabalho poético” entendemos estritamente a escrita; “ser professor”, universitário ou não, influencia no processo de melhoria do sórumbático (assim, com dois agudos) que fui e venho aos poucos deixando de ser. “Ser professor” ensina, antes de mais tudo. E esse ensino diz respeito à minha inteireza como pessoa, ao procurar me fazer (e espero que conseguindo) um tanto melhor, agindo mais paciententemente, sendo mais atencioso para com os demais e comigo. No meu modo de pensentir, esse aprimoramento me torna alguém menos intratável, menos intragável e, assim, me poetiza. Tem algum tempo, Léo, que eu venho concebendo a poesia como algo além de um gênero literário: por isso, não concebo uma estética que não seja ética e, à inversa, uma ética que não seja estética. Vivo portanto conforme uma est(ética. Agora, o contato com a filosofia, e desde a juventude (o que quer dizer já uns bons vinte e poucos anos de convivência entre mim e Diotima), — o contato com a filosofia sem dúvidas incide diretamente na minha po(ética: seja como sugestionadora temática (você sabe que além de uma Ciranda dostoievskiana há uma Ciranda espinosana?), seja como expressão do próprio teor de meus poemas, via de regra tão interrogativos. Sintetizo da seguinte maneira: vivo uma poesophia

Quem sou? Onde estou? Aonde
Vou e pra quê? Que sentido
Em ser estar ir? Duvido
De tudo e o Nada responde:



  1. Como surgiu a ideia do Memorial Bárbara de Alencar, seu primeiro livro?

Posso preguiçar? Vou transcrever um trecho do texto que encerra o livro Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas: “O Memorial dormia em seu autor, ainda em estágio embrionário, até ser desperto numa tarde de 30 de julho de 2007, quando da realização do Cortejo de Fortaleza. Em comemoração ao Dia do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará, o Cortejo relembrara [sob a direção de Oswald Barroso] a execução dos revoltosos republicanos cearenses, partícipes do movimento denominado Confederação do Equador. Num trajeto iniciado na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e finalizado no Passeio Público, fora simulado o percurso percorrido pelos cinco presos “arcabuzados” em 1825 (embora em realidade Padre Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Azevedo Bolão e Carapinima tenham sido executados em dias diferentes). Assistir àquela representação repercutiu como o acordar para a escrita de texto há muito premeditado, mas ainda apenas idealizado. Afinal, desde algum tempo já se insurgia o projeto de feitura de um poema dramático acerca de Bárbara de Alencar”. Sou Alencar por parte dos avós maternos: ela, Maria Tenório de Alencar, ele, Manoel Luís de Alencar, ambos de Potengi, cidade do cariri cearense. Atenção para a sincronicidade: depois de decidir pela escrita do poema, descobri ser minha data de nascimento, 28 de agosto, a data de morte de Bárbara de Alencar. Os poemas que compõem o livro Memorial são todos do 2º. Movimento do Concerto

Alguém há cuja origem e viver
Representam o acordo entre os estados
Do Ceará Pernambuco rebelados:
Da vetusta família de Alenquer
Ela Bárbara bárbara mulher
Na cidade de Exu nascida, vinda
Para cá pequenina ainda, linda
Fez-se forte e vistosa mas austera
Respeitada por ser Senhora à vera
Até ser posta à prova na berlinda.

A seguir versaremos sobre o pathos
Do calvário por que passara estoica
Essa mãe essa mártir essa heroica
Prisioneira política do Crato.
Eis que somos chegados ao Relato

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)

  1. Qual a proposta do Concerto Nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra?

Amigo Prudêncio, preguiçarei de novo. Com ligeiras alterações, eis algumas das palavras de encerramento da edição do 1º. Movimento do Concerto: “A composição quaternária organiza o Concerto inteiro: cada ¼ constituído de Quatro Livros, cada qual integrado por Quatro Seções, cada Seção preenchida por quatro poemas. É certo que com a partição de algumas Seções ou poemas noutras tantas subdivisões (por exemplo, o poema de número 4 — o de abertura — da Seção “Quatro Minguantes”), temos uma multiplicidade aplicada à ordenação aparentemente fixa, de modo que ganha dinamismo a tessitura, escapando ao risco do automatismo e das limitações ditadas por sua contextura. A Obra Inteira constrói-se, pois, com vistas à estruturação previamente assumida, como à inovação e improviso dentro da instrutura quadrilítera”. É isso: o Concerto é quadrúplice e procura submeter o tempo à reordenação temática — poemas de hoje podem ir ao início do livro e poemas de antes serem alocados no Movimento final: a visão geral é que o orienta. Os fragmentos são ordenados segundo percepção sinótica — e o completório dos meus dias transformados em instantes poéticos que se acumulam conforme prévia integração jamais esgotada definitivamente. O Concerto é minha Santa María. Como em Onetti, a cronologia deve submeter-se à construção — ao alicerçamento e soerguer-se — da obra. Que Juntacadaveres tenha sido escrito depois, mas conte um acontecimento anterior a El Astillero, demonstra que para Onetti-Brausen o delineamento está feito, e tudo mais é cumprimento no tempo, porém consoante plano para além da temporalidade estrita. Que poemas de hoje se agreguem ao 1º. Movimento e poemas de ontem se aloquem no 3º. ou 4º., é transgressão da retilineidade do cronos, em função da confecção e acabamento do todo, extemporâneo, embora temporal

  1. Pretende publicá-lo todo um dia, ou em partes?

Em partes, já o faço. Seja nos poemas esparsos do blog (http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/), seja nos livros publicados e/ou por publicar. Preciso dizer, Léo, que esses livros não passam de uma espécie de prévia do Concerto. Digamos assim: o Todo que o Concerto aos poucos se torna, é composição para — o título o diz — orquestra inteira; e os livros provisórios (o Memorial, já editado; o Girândola, o Miravilha, A fada e o poeta, por virem brevemente) que a partir do todo organizo, são música de câmara, são adaptações “em mim menor”, a fim de que eu possa me dar a ler antes de ver ao menos aproximada a conclusão (não haverá tal) do 1nico (úmnico) livro que realmente escrevo, o Concerto

Era uma vez um poeta
E sua melancolia
De escrever Obra Completa
Mas não ter companhia
De um leitor de um amor uma
Amizade uma alegria

(Trecho do inédito A Fada e o Poeta)

  1. Então o livro Concerto não está finalizado e sempre surgem poemas novos que você nele encaixa?

Sempre surgem. Pra que você ideie, a segunda seção do Livro 1 do Primeiro Movimento do Concerto, a seção “Os Prisioneiros”, era dividida em duas “levas” e integrada por vinte e quatro sonetos (quatro dos quais “incidentais” e um “estropiado” como “introito” às divisões da seção). Agora são quatro “levas” e um total de trinta e oito sonetos, ou seja, trata-se ainda do que assinalei em nota ao livro: o Concerto é word in progress (palavra em andamento)

O poema esse composto
De palavras e vazios —
Mas ocos que em seus estios
Muito dizem. Como um rosto

  1. Acredito que muitos que leem seus livros ficam se perguntando o motivo de assinar com o nome Poeta de Meia-Tigela. Poderia nos explicar?

A outra metade da tigela é O Leitor

Tigelimerick

Era um Poeta só de Meia-
Tigela: bem se lhe nomeia
Talvez até nem
Tivesse também
Essa metade — meio-Meia

  1. Quais são suas referências/influências literárias?

Não direi “influências”, mas — “fruências”. Fruo muito muitos autores e não apenas “literários”. A bem da verdade leio quase compulsivamente (esse “quase” é pra minorar a gravidade da compulsão), e sem me ater a gênero, número ou grau: CAMILO PESSOA OU FERNANDO PESSANHA — HENRY O. MILLER — JORGE AMADO DE LIMA BARRETO — MARIO DRUMMOND DE OSWALD MELO FRANCO DE ANDRADE — OSMAN LINS DO REGO — SINCLAIR LEWIS CARROL — TOLSTOIÉVSKI — WILLIAM BLAKESPEARE — TAGORE VIDAL. Porém, se me pego gostando de um autor em particular, começa a perseguição: o primeiro a quem “persegui” foi Dostoiévski. Foi a partir de Dostoiévski que escrevi meu trabalho de graduação em filosofia, uma monografia que hoje reconheço pretensiosa e imatura, embora sincera e esforçada: chamou-se Os demônios de Dostoiévski. Aliás, demorei muito tempo pra convalescer de Dostoiévski e aceitar que não sou Raskholnikov, tampouco Svidrigailov: ai, ai. Tempos depois veio Julio Cortázar e o cronopismo, acredito que não casualmente: em Cortázar vejo a associação para mim ainda muito grata entre o existencialismo, o surrealismo (vide Teoría del túnel) e o marxismo, contudo na medida incerta, a saber: com um distanciamento que só a leveza de quem no fundo desconfia dos ismos pode apresentar. Tive também a fase Onetti e recentemente a fase Lobo Antunes, benzadeus já transcorridas. Da literatura brasileira, sobretudo Lima Barreto, Guimarães, Clarice, Osman Lins. Dos poetas lusitanos (admito crassa ignorância da poesia que se faz noutros países de língua portuguesa), Camões e Pessoa, claro, Almada e António Gedeão. Dos brasileiros, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Sosígenes Costa, Carlos Nóbrega.

PARA SOSÍGENES COSTA, AS GARÇAS

Para André Ricardo, de quebra

Tanto mais desgarçado desgraçado mundo
Tanto mais menos garças menos mais beleza
neste mundo em que grassa o mal imundo
Que são as garças? Graça e real realeza

Amá-las é de graça não se paga ao Fundo
Vê-las é levitar tamanha a graça delas
As garças são a graça deste feio mundo
tamanha a graça delas levita-se ao vê-las

Garça-azul garça-branca garça-cinza tudo
é modo de ser garça ser além das penas
Garça-vaqueira garça-da-cabeça-preta

mais que forma ser garça é graça é conteudo
Garça-socoí garça-morena ou vermelha
ser garça é dar lição de graça ao mundo imundo

  1. Você acompanha a produção dos novos escritores cearenses?

Não me esforço para isso porque não me esforço para estar na ordem do dia, sabedor das novidades, conhecedor de quem produz o que e onde. Venho conhecendo naturalmente os novos escritores à medida que me procuram (e raríssimos o fazem, e não há razão para ser diferente) ou me são apresentados por amigos; venho conhecendo os novos escritores à medida que me chegam à vista e os leio: mas não os leio muito, confesso, por falta de uma identidade mesmo, por certa distância de sensibilidade minha ante grande parte da mínima parte do que sei estar sendo feito. Às vezes acontece de eu gostar de um livro, de uma página na internet e tomar a iniciativa de contatar o autor/ autora, de solicitar correspondência, troca de material, iniciar uma amizade literária. Foi assim que vim a conhecer e namorar a Nataly [Pinho]. Foi assim que me fiz próximo (fraternalmente) de Hugo Pontes, Irineu Volpato, Nelson Hoffmann, Patrícia Tenório e, dentre os cearenses, de Webston Moura, Dércio Braúna, Jonas Torres, Bruno Paulino, nenhum dos quais conheço pessoalmente. Aqui e acolá escrevo posfácios para os corajosos que mos pedem, em geral jovens: Uirá dos Reis, por exemplo, com o An; Frederico Régis com Os países; Ângela Calou com Eu tenho medo de Górki; Alessandra Bessa com Arcanos maiores e a valsa leve. Ah, e Léo Prudêncio (você já deve ter ouvido falar dele) com o aquarelas, inédito de haicais.
versos e silêncio:
singelas-te. o aquarelas
lês, de léo prudêncio

  1. A literatura cearense perdeu neste ano dois nomes importantes: Nilto Maciel e Artur Eduardo Benevides. Cada um, obviamente, importante à sua maneira. Você tinha contato com esses dois escritores?

Falarei de Nilto Maciel, a quem visitei em três endereços (dois apertamentos e uma casa, a definitiva), algumas vezes indo sozinho ou (mais vezes) em companhia de escritores/artistas: Carlos Nóbrega, Carlos Vaz, Frederico Régis, Lúcio Cleto, Manuel Bulcão (amicíssimo também já ido), Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Silas Falcão. Fui e sou amigo do Nilto (ainda hoje, porque a amizade não se desfaz com a morte) e esse relacionamento resultou em parcerias: em 2009 publiquei uma entrevista feita (em almoço na casa de Mario Sawatani) com ele para o jornalzinho V.O.L.A.N.T.E, edição n. 3, e na edição 5 do mesmo periódico um soneto de que gosto bastante, do livro Navegador, o “Nem sei domar meus próprios cães”. Revisei o livro Luz Vermelha que se azula, de 2011, e o Nilto, por sua vez, foi o autor do posfácio ao Primeiro Movimento do Concerto (o prefácio é de Sânzio de Azevedo) e escreveu outro par de textos que me dizem respeito: um acerca do Memorial, o “Dona Bárbara de um poeta”; e “O Concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela”, este publicado depois em Como me tornei imortal, de 2013, um dos seus últimos livros. Eu o chamava por vezes “Nilto Asperel”: é que ele gostava muito de dizer coisas embaraçantes com a alma risonha porém a cara mais séria e com a intenção irônica de observar a reação desconcertada da vítima. Sabia ser amigo em muitas horas, mas com o Nilto o melhor era estar preparado para o que desse e viesse. Em homenagem a ele, e sob o abalo da morte, o soneto a seguir

PARA NILTO MACIEL

Escrever por quê? Para me saber
menos só. Menos só para quê? Para
me dizer mais jardim menos saara
(e no entanto o deserto em meu dizer)
Escrever por querer sair de mim:
para me saber comunicativo
(e no entanto me sei comum cativo
do deserto que sou: Não e não, sim)
Escrever para escrever escrever
(e no entanto esse não-dizer que paira
em mim em minha fala como espanto
em meu querer sair de mim: mais ser)
Escrever (e no entanto a fala-avara
em mim em meu dizer: esse no entanto

Esse poema faz parte do Miravilha: liriai o campo dos olhos (volume de sonetos por sair pela Confraria do Vento, se Deus e Karla Melo assim o quiserem) e vem ser, quando em livro, nova homenagem ao velho Nilto... MaciAsperel

Grato, poeta Léo Prudêncio


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18 de agosto de 2014
Sarau do Porto - 2ª Edição - Convidados

Sarau do Porto - 2ª Edição - Convidados

Nesta semana, dia 20 de agosto, quarta-feira, às 19h00m, ocorrerá a 2ª Edição do Sarau do Porto, em comemoração ao 1 ano de vida do Porto Iracema das Artes em Fortaleza. O sarau será mediado pelo poeta e produtor cultural Talles Azigon, responsável também pela página Poesia Brasileira no Facebook.
Nesta edição teremos mais 4 novos convidados: Ayla Andrade (que em breve terá seu primeiro livro de contos publicado pela Editora Substânsia), Ítalo Rovere (Um dos fundadores do Templo da Poesia), Amanda Luiz (poeta e musicista) e o Poeta de Meia-Tigela (poeta conhecido na cena literária cearense com vários livros publicados, como Concerto N. 1Nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra — Realidade de Combinações Puramente Imaginárias)



Ayla Andrade: Ayla Andrade, também conhecida nos bares do Benfica, em Fortaleza, como “Dama da Noite”, é uma das fundadoras o grupo “Parafernália”. Publica seus escritos, desenhos e colagens em “zines” e na revista “Gazua”, e também se apresenta fazendo leituras dos poemas e contos em rodas de poesia e projetos culturais. Diz ela: “Eu quero é botar a boca no mundo pra saber que gosto tem".





Ítalo Rovere: Um dos fundadores do Templo da Poesia, o Poeta Ítalo Rovere  percorreu o mundo na busca do humano através da palavra. Seu Livro Tato Amarelo, poema-imagem que constrói artesanalmente há mais de 20 anos, diz um verso que está gravado nos muros de Fortaleza: "O amor de todo mundo Para mudar o mundo".






Amanda Luiz: Poeta e musicista, a cacheada Amanda Luiz, mesmo pequeninha faz música nas alturas e de muitos modos, brinca com palavras e sons, “como se brinca com bola papagaio e pião”.  Vez ou outra faz parte do movimento musical 'Os cacheados”.








Poeta de Meia-Tigela: Nasceu na capital cearense e escreve desde sempre um só livro que ele mesmo intitulado Concerto nº 1nico em Mim Maior e Orquestra, exercício poético em Quatro Movimentos dos quais publicou o primeiro integralmente o Primeiro em 2010. Reza a lenda, quem souber seu nome verdadeiro Vive.










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26 de junho de 2014
“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

por O Poeta de Meia-Tigela  

Uma massa de gente
Se nega
Te nega
Nega a muitos
Nega o outro constantemente E o fraco diz “sim” a essa negação
E inferioriza-se em um “não”

(VIII — A Justiça)




(I) ARCANOS LEVES  


Os arcanos maiores destacam-se no conjunto das cartas do Tarô: cada um se constitui como súmula de uma vivênciaexperiência universal, cada um a condensação de um mundo mítico próprio, de alta simbologia e, como tal, inesgotável: pois sinalizaindica, não define nem explica.   

Disse-me Alessandra Bessa que não fora premeditado o encontro de seu livro com o Tarô; que somente após o aparecer dos poemas quedara claro o aceno para a correspondência entre os versos e as cartas. Melhor assim, porque mais forte a certeza de que não pretendera a autora apreender os arquétipos: estes que se revelaram (mantendo, no entanto, sempre algo do seu véu) à poeta.  Por isso seus poemas tangenciam sem que pretendam explicitar a relação com o baralho. E, no entanto, tal relação pode ser desvelada, tão logo nos ponhamos a pensar esse acordo oculto de sentidos: apresentarei apenas um exemplo, deixando a cargo do leitor a procura das pistas restantes. Tomemos o poema XIII, que começa assim: “Dormir para sempre, não se pode./ Afirmação que me tira o sono/ E dentro dessa insônia-sono/ Eu busco qualquer lugar que diga que eu possa/ Ao menos deixar de lado tudo isso”. O arcano correspondente ao número 13 no Tarô de Marselha e alguns outros (no Tarô Cigano temos O Esqueleto e a Gadanha e no egípcio A Imortalidade) — é A Morte. O tema é apenas aflorado pelos versos: digamos que chegamos a ele, mas não partimos dele. E assim no tocante aos demais. Eis, pois, o intento principal de Alessandra Bessa: antes aludir e mencionar que decodificar, dimensionar, dirimir o segredo, o mistério dos arquétipos.
  
Esse mistério perpassa, porém, todo o livro (inclusive a segunda metade, a da Valsa Leve). Cede vigor à poética de Alessandra. Cirze, compõe seus versos. Versos densos, doloridos, muitas vezes ferinos, cortantes, nascidos contudo a partir da valsante leveza de quem não se quer guardada na terra, mas grito lançado no ar.  

E o grito de Alessandra Bessa, como de todo poeta, é de “sim” e de “não”.   
  
(II) A REVOLTA  
  
“Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento” (Albert Camus, O Homem Revoltado). A revolta é reativa. É um ato de voltar-se — não “para”; mais propriamente, “para-contra”. O revoltado volta-se para aquilo que o leva a mover-se, aquilo que o direciona, não a fim de que o encontro se dê como fusão, sim para que do encontro exploda a difusão do “não”. O revoltado vai ao encontro do objeto que repudia, vai em direção a este, razão de seu mover-se, de seu volverse; contudo, o faz em função de que que o atrator seja negado, o faz com vistas à dissolvição do que o move, o faz com o intento de destruição do motor-atrator: o revoltado quer ir em direção — não para ser absolvido por aquilo que o chama, sim para desfazer a causa do chamamento. A revolta é reação, é um contra e um ir paraem direção ao que a leva a ser o que é: “não”. 

O poeta, à medida que sua sensibilidade se vê afrontada por um estado de coisas que lhe é contrário, um estado de coisas que lhe diz “não”; o poeta revolta-se e diz “não” a esse “não”. O poeta diz “sim” a tudo que se volta para-contra esse estado de coisas: eis por que, se o que o poeta vê à volta é a negação da sensibilidade, sua reação é a de dizer “sim” a esta e “não” àquela negação. O “não” do poeta é um “sim” à poesia. Se o estado de coisas não é um estado de coisas de poesia, o estado do poeta é a revolta.  
            
A poesia de Alessandra Bessa é, em parte, esse “não”. Vemo-lo ao longo de Os Arcanos Maiores e A Valsa Leve. Um “não” que se diz enquanto recusa, enquanto fazer frente, enquanto confronto, enfrentamento: como nos poemas VIII, IX, XI, correspondentes às lâminas A Justiça, O Eremita e A Força. E ainda o poema XIV (A Temperança):  
  
Limpar é saber-se sujo limpar é saber-se pobre de tudo  
(...)  
quanto mais sujo e doloroso for o percurso tu estarás perto
da verdade já que não é o disfarce dos homens que mostra quem tu és  
  
Mas esse “não” nem sempre se mostra através do “embate”, do “instante bombástico” (Ímpeto, A Valsa Leve); também se evidencia (ou silencia) pelo voltar-se para-contra como recolhimento, sentimento de desamparo, de isolamento, despertencimento. A poeta que se revolta e diz “não”, oscila entre o duelo e a salvaguarda, entre o combate e a meia-volta-volver, o resguardo de si: “Tudo permanece tão dentro de mim/ Que não se manifesta/ Fica dando facadas/ Em meu espírito” (XX — O Juízo Final ou O Julgamento). Oscila entre a colisão e a oclusão, o ocultar-se ante o outro:   
  
Vocês não entendem  
Os meus sumiços  
(...)  
Vocês compreendem tudo errado  
Nada pode me fazer ser vista  
Inteiramente  
Ficar despida   
  
(Sumir, A Valsa Leve 
  
Talvez seja o ato de contração, de concentração, algo necessário a fim de que o “não” possa transformar-se na explicitude do “sim”; o “não” como desafio possa tornar-se o “sim” do lúdico, do bailarínico, do amoroso. Sim? Vejamos.  
  
(III) O AMOR E A POESIA  
  
A solidão do poeta não será antes, anseio ferido de solidariedade? Não será seu desejo a ultrapassagem do estar-só, a soli(t)ariedade que se quer solidária? Não saberá o poeta que sua solitude é, pelo menos, solitude de poeta e, assim, de muitos? Dos muitos que também recusam aquela recusa à sensibilidade? Dos muitos que dizem “não” ao derredor e “sim” a si mesmos? É então que Alessandra Bessa inicia o reconhe(si)mento desse si em outrem, no si de todos que se reconhecem na poeSIa.  

O amor pode resultar “em ilusão e talvez mais nada” (XII — O Enforcado), pode ser divisão e “vazio rio abaixo do poema” (VI — O Enamorado ou Os Amantes), porém pode igualmente ser esse princípio de identidade pelo qual o insulamento do poeta abrese à palavra alheia, como o faz aos versos de Mario de Sá-Carneiro ou à sentença de Blanchot (“não podemos viver em um mundo fechado”). Se o amor-a-dois é tantas vezes insatisfatório, frustrante, dorido, o amor-a-tantos do verso, do poema, subverte o “não” e afirma aquele “sim”, o “sim” do Sumo Sacerdote, do Hierofante (V):  

E diz o Hierofante  
Que a fonte é uma  
Fome de tudo  
E principalmente de  
Amor  
  
(IV) A POESIA E O AMOR  
  
O próprio arcano-poeta e sua poesia aparecem como o “sim” maior deste livro. Contra o estado de coisas avesso à sensibilidade poética, que fazer? Dizer “não” a esse avesso, virar as dobras daquilo a que o “não” diz “não”, transmutá-las no “sim” que se quer dizer, no “sim” que se quer ser. Esse “sim” é o amor enquanto amordito, é o ser poeta, é a poesia. A poesia, esse lago  
  
tão imenso que se perde 
tardes de longas datas o céu tão azul
da insensatez da embriaguez  
do nada que se faz  
  
(Lago, A Valsa Leve)  
  
Se a poesia é um sentir-se avesso ao insensível estado de coisas, o é porque não pode materializar-se, tornar-se, ela mesma, coisa. Permanecerá no reino da inefabilidade, do intangível, do inapreensível de todo: “em um lugar a mais/ além... tão além que não tem toque/ nem forma e pertencer(dor)” (novamente, Sumir).                
Emerge, assim, certa angústia do impalpável; uma aflição perante a condição intátil da poesia, a reforçar a sensação de desarraigamento, desenraizamento da própria poetisa. Que retorna, por consequência, à insulação da qual pretendera (?) sair: “A poesia se torna o que ela é/ e eu, a poeta, fico só/ sempre ficarei só nesse imenso mundo” (A Poesia, A Valsa Leve).    
          
Logo, tudo o que da poesia de Alessandra Bessa aqui foi dito, deve igualmente ser percebido, sentido, como tentativa-mera de alcançar o que a poeta afinal reconhece como incapturável. Na verdade o “não” e o “sim” de Alessandra são mais dinâmicos e deslocados, mais difíceis de apreender porque justamente espontâneos em seu surg(ir) e desapare(ser). Entremesclam-se, continuamente.  
          
O “não” da poeta, sua revolta, é um “sim” àquilo que ela mesma é, seu verso, sua poesia, reverso de um mundo-coisa, mundo-cifra; o “não” de Alessandra Zelinda é uma volta àquilo que ela, Alessandra, é: amor em sim e não, amor em sinal, signo, sinalização. Arcano Leve.  
  
*  
  
(dá-me então um pouco do teu signo e misturaremos os nossos Arcanos Maiores também)








(PEQUENA NOTA: Esse texto é o posfacio da obra Arcanos Maiores e a Valsa Leve, de Alessandra Bessa, natural de Fortaleza e professora universitária. Sobre o posfaciador, O Poeta de Meia-tigela, compõe-se a seguinte biografia: Nasceu em Fortaleza no ano de 1974. Participou da Antologia Massanova - Poesia Contemporânea Brasileira e publicou os livros Memorial Bárbara de Alencar e Concerto Nº1unico em Mim Menor para Palavra e Orquestra. Poema)
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