Noturno do Chile, de Roberto Bolaño
Fazia
certo tempo que eu não ficava a refletir sobre algum livro que eu acabara de
ler. Talvez tenha sido toda a névoa presente no livro, apesar da ‘claridade’
monologal com a que o narrador deixa evidente toda a história. Talvez eu esteja
sendo um pouco infeliz ao afirmar que há claridade na fala de Sebastián, que
sob um estado febril, quase em convalescença, tenta contar sua vida. Não sei se
ele estava a querer rever o que havia feito de bom na vida, ou se apenas quis
constatar os seus erros. O que sei é que pela primeira vez li Roberto Bolaño e
algo me inquietou.
“a vida é uma sucessão de
equívocos que nos conduzem à verdade final, a única verdade”
O
livro Noturno do Chile é o primeiro
livro a ser publicado no Brasil, de Roberto Bolanõ. O livro, que poderia ser
uma peça de teatro ou um pequeno romance, parece se tratar de memórias que Sebástian,
um padre que ensinou marxismo a Pinochet e seus generais, quer relembrar tudo o
que vivei antes de sua morte. O padre, que narra toda a história, é o
responsável por nos mostrar um pouco do Chile nas épocas em que Salvador
Allende esteve no poder e quando do Golpe de Estado de Pinochet.
Em
toda a narrativa só existem dois parágrafos, um enorme de 120 páginas e uma
única frase ao final, separada de todo o resto, onde fica nítido o estado
febril em que se encontra o narrador. As cinquenta primeiras páginas, que
trazem seu encontro com o crítico fictício Farewell nos dá um panorama da
literatura do Chile e de alguns outros países. Conhece, na casa do crítico os
poetas, que realmente existiram, Salvador Reyes e Pablo Neruda.
Essa
primeira parte do livro, modorrenta e com apenas alguns vislumbres literários como
na maneira de narrar , quanto à escrita, foram me deixando inquieto, sem saber
se deveria ou não continuar a leitura. Contudo, aos poucos, quando vamos
tomando conhecimento um pouco mais da personalidade de Sebástian, parece que estamos
ao seu lado, querendo ouvi-lo, desejando saber o que lhe ocorrera quando jovem.
A quantos enterros de poetas, como o de Neruda, haveria ele ido, ou de que
maneira ele passou pela Ditadura de Pinochet.
Até
que, de repente, nos damos conta de que estamos o observado através dos “Dois
espelhos, em molduras de madeira folheadas a ouro”, enquanto ele espera
inquieto e trêmulo a chegada de seus alunos. Os culpados dessa empreitada seria
os senhores Oidó e Oidem, que antes haviam sido responsáveis pela ida do padre
até a Europa para estudar a importância de se fazer a restauração das imagens
pintadas nas igrejas do Chile. Assim ele entra em mundo que não lhe pertencia,
uma vez que estava sempre ao lado de escritores e críticos literários, lendo e
escrevendo suas resenhas para publicação.
Com
certa apreensão, acaba se preparando, em uma semana, para encontrar o
Estado-Maior e lhe ensinar sobre Marx, Engels e Marta Harnecker, esta que acaba
sendo delatada pelo padre ao dar os seus ensinamentos sobre o marxismo. Para os
senhores Oidó e Oidem, Sebástian era a pessoal ideal para poder ministrar tais
aulas e fazer com que o General conhecesse os seus inimigos, que não eram
pessoas cultas e muito menos informadas sobre o mundo, como afirmou Pinochet.
Porém,
apesar de estar no centro do maior círculo político de sua época, a
participação de Sebástian parece ser ínfima com os ensinamentos que havia
passado e não nos parece que esse seja também o foco do delírio das memórias do
padre. Na realidade, não acredito que ele tenha alguma preocupação, uma vez que
delira e que apenas conta o que vai lembrando. Os anos se passam rapidamente, e
o estilo da escrita de Bolaño é positiva neste quesito, uma vez que não nos
damos conta e a narrativa flui de maneira agradável e sem mais dissabores, pois
estes estão apenas nas palavras de Sebástian.
Palavras
essas que futuramente vão se encontrar com María Canales, outra escritora que
recebia em sua casa diversos artistas e que em seu sótão escondia as vítimas
torturadas por seu marido que eram a favor da ditadura de Pinochet.
Este
último episódio passa, ao menos pra mim, como algo sem mais importância, porém
parece que algo ficara para Sebástian, pois o seu reencontro com María, tempos
depois, enquanto esta se encontrava na penúria e abandonada pelo marido, que
havia sido preso nos Estados Unidos, é algo que tenta mostrar algo mais
profundo da alma de Sebástian como padre, como ser humano. Mas diria que não
passa de uma sensação velada, como se Sebástian tivesse culpa dela ter
permanecido daquela maneira, como se ele houvesse contribuído, de alguma forma,
para que María Canales estivesse como está, e agora tenta aconselhá-la para que
siga sua vida e recomece do zero com seus filhos.
A
partir deste ponto, as frases começam a se embaralhar e o delírio de Sebástian
fica presente no final do livro, perguntando por seu amigo Farewell que morre,
e que estava antes se esquecendo das coisas e tornando-se um pouco delirante.
Assim como o crítico amigo, o padre vai chegando ao seu fim, perguntando-se ele
agora é o “jovem envelhecido”, como chamava ele a Farewell.
Assim
finda o livro, e a minha inquietação é sobre toda a história, sobre qual sua
importância, por quais razões Roberto teria escrito esse texto. O seu estilo
narrativo realmente é de surpreender o leitor, principalmente nos momentos em
que dá às vezes aos personagens para que falem em diálogo com Sebástian. Mas
ainda assim a história parece não me convencer. O padre parece não ser tão
profundo como deseja ser, parecendo um homem normal, com perguntas quase que
existencialistas. Uma personalidade no mínimo superficial ou perdida, não sei
bem. Mas talvez seja isso o que vem agradando aos críticos e aos leitores. Uma
amostra de até quem deveria saber um pouco mais da vida não sabe nada, que
também se perde entre os delírios sóbrios, enquanto dá aulas ou enquanto visita
igrejas europeias. Sebástian é todos os homens perdidos, todos aqueles que
acham ter encontrado um ideal para viver, um motivo, mas que na verdade estiveram
sempre a desvairar à luz do dia.


