A sombra
por Mikaelly Andrade
O claro e o escuro se
confundiam na parede do quarto através de linhas desenhadas pela luz fosca da
lua, as venezianas da janela se faziam modelo. As roupas espalhadas pelo chão
de forma aleatória não explicavam tal acontecimento. Os corpos se moviam de
maneiras disformes, o dela na quietude desesperada da dor; o dele no desespero
cruel de se servir. O corpo dela sobre a cama estava em pose de defunto e os
cabelos desgrenhados lhe davam um aspecto selvagem. Suas lágrimas se faziam
chuva silenciosa que caia sobre o desconhecido. Percorrendo a marca seca que um
dia fora rio. Ele se levantou, apanhou suas roupas e as vestiu delicadamente,
olhou para trás tentando encarar a outra face enquanto andava a caminho da porta.
Chovia suavemente, e ele sem sensibilidade não pôde perceber. Ela queria
esquecer, se refazer. A melancolia de um piano tocava dentro da sua cabeça.
Porém, a invasão que sofrera destruiu qualquer resquício do seu ser.
Pela manhã, sua mãe deu
cascudos na porta do quarto, já passava do horário da escola e ela não havia
levantado para tomar banho e nem café da manhã. Deve estar pensando que vai faltar aula só por causa do aniversário já
passado! A mãe não sentira a dor, não teve pressentimentos, como dizem que
só as mães sentem quando o filho está sofrendo. Continuou a bater na porta.
Nada. Lá dentro, a outra sofria dores do mundo todo, havia sido invadida, não
aguentava o espelho, ele lhe tinha guardado tudo. Pois além do momento já
presenciado, assistiu cenas de sua própria tragédia. Não era mais ela, nunca
mais conseguiria ser. O dia corria, mas os ponteiros do relógio que flutuava
sobre a parede pareciam girar ao contrário: quanto tempo teria que esperar para
fechar a ferida que acabara de ser feita?
Quando com sete anos, uma
vez brincando de boneca, insinuou que beijava a boca dela, com a mesma fúria e
devoção que os atores faziam na novela, mas dentro dela o que a fazia imitar os
atores era sua inocência e não desejo sexual pela boneca – era uma criança, nem
sabia o era desejo. Do sofá, o tio assistia a brincadeira empolgado, mas não
deixou transparecer seu estado de espírito, seria condenado, tinha certeza.
Assim, seguiu observando a sobrinha. Mas o desejo lhe consumia a alma, e queria
possuir a sobrinha de qualquer jeito. Teria paciência. Essa pequena puta um dia será minha.
Aline desde novinha
mostrava-se com uma personalidade forte, difícil de modificar. Então tinha
opiniões formadas, de que, por exemplo, a mulher não é inferior ao homem. Não
compreendia por que a maioria das pessoas achava errado uma garota jogar uma
simples partida de futebol, já que seus pés sempre souberam chutar e driblar
muito bem. Ou o porquê de nos dias quentes, os meninos ficarem apenas de
bermuda, enquanto ela não poderia usar somente short. A mãe ficava nervosa com
o jeito “diferente” da menina e vivia sussurrando com os vizinhos: será que ela
vai ser sapatão? Um dia Aline escutou e na sua inocência infantil achou que seu
pé cresceria exacerbadamente.
Crescia rápido, seu corpo
tomava formas e recebia olhares gulosos. Mas não gostava, nunca gostara da
invasão desrespeitosa que as pessoas têm em olhar, como se fossem tirar-lhes a
pele ou nesse caso, suas roupas. Odiava o “fiu-fiu” obsessivo que os homens
insistem em assobiar, e acima de todos os atos machistas odiava e temia a
invasão do seu corpo. Era diferente ser elogiada por uma colega ou o
namoradinho, pois ao fazê-lo sentia uma suavidade nas palavras.
Iria completar quinze primaveras! Adorava dizer isso. Estava saltitante, realmente feliz. Havia
promessa de um emprego adorável na pequena livraria que o tio tinha em Quixadá
e iria se concentrar nos estudos para cursar Medicina. Já tinha o plano de sua
vida todo traçado. - 15 anos:
Começar os estudos para o vestibular/ arranjar um emprego/ começar
um curso de língua estrangeira/ gastar meu primeiro salário com livros / começar
a juntar dinheiro para a minha casa própria.
Tinha metas anotadas até os
trinta anos.
Finalmente chegou o grande
dia. A festa era em casa mesmo, mas queria que fosse grandiosa e inesquecível.
E foi. Os convidados começaram a chegar aos poucos, falando timidamente e cada
pessoa se acomodava com outras formando grupinhos pela sala. As crianças
corriam arrodeando a mesa com as lembrancinhas e às vezes faziam isso em torno
de alguns convidados. Alguns mosquitos também quiseram fazer parte, já que
algumas pessoas se queixavam de ferroadas enquanto passavam as mãos
nervosamente no local pinicado.
- Aline! Parabéns! – gritava
um de vez em quando.
- Você tá ficando velha
hein! – lembrava um pessimista.
Enquanto não chegava o
momento de cantar os parabéns e ver para quem a aniversariante iria dá seu
primeiro pedaço do bolo, os convidados se distraiam com o que podiam. Até
algumas fotografias penduradas na parede serviam e ajudou gratuitamente na
decoração.
Os menos tímidos buscavam um
desacompanhado para dançar ou se beijarem quando o diálogo já não era tão
interessante. Aline passeava pela festa cumprimentando todos, não queria levar
o nome de metida ou antipática. Até que encontrou o tio da livraria:
- Olá, querida! Meus
parabéns! – dizia ele com voz perfumada a álcool com uma felicidade toda
disfarçada.
Aline achou esquisito, mas
preferiu agradecer pela presença, antes que ele mudasse de ideia e quisesse lhe
tirar a vaga de empego. Nunca iria conseguir outro emprego assim, junto aos
livros, seu segundo amor. A medicina estava em primeiro.
Alguém gritou um pouco
esganiçado pelo nome da aniversariante, Aline virou rapidamente e reconheceu a
face. Minha mãe.
- Vamos querida! Vamos
cantar os parabéns. – gritava histericamente, mesmo depois do som desligado.
Todos se juntaram ao redor
do bolo como puderam. Queriam todos estar junto de Aline. Cantaram, vibraram
por mais um ano de vida, pediram discurso e depois de tudo se empanturraram.
Era tudo que mais queriam.
Aline saiu da sala onde
estava todo mundo para ir até seu quarto trocar a sandália. Seus pés se
tivessem boca, gritariam mais alto que sua mãe. Percebeu um vulto passando,
sentiu medo e se apressou a entrar no quarto, morria de medo de almas. Porém,
quando entrou no quarto, encontrou o tio totalmente despido.
- Agora vou lhe dar seu
presente de aniversário.

