Eu amo o mundo, disse Quintana
Constatei, com a leitura deste livro, que realmente sou um apaixonado pelos poemas do velho alegretense (que até na origem traz uma sinonímia de alegria). Poderia usar as mesmas palavras que o poeta utiliza no poema Simultaneidade, tamanha a minha alegria ao ler o livro:
– Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!
Eu creio em Deus! Deus é um absurdo!
Eu vou me matar! Eu quero viver!
– Você é louco?
– Não, sou poeta. (p.169)
O poeta em A vaca e o hipogrifo se faz presente em vários dos textos (crônicas, poemas, aforismos, e até mesmo tudo isso misturado em um texto só), digamos, quintanescos.
Não muito diferente do Caderno H, o livro traz assuntos recorrentes da poesia de Quintana, como a morte, o silêncio, o cotidiano; porém, há novidades. Deus será um tema presente em várias das crônicas-poéticas do autor, e alguns textos em forma de diários surgem após alguns pequenos aforismos ou reflexões.
Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede lugar à idade das reflexões – terá sido a sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice. (p.189)
A cada página virada, de A vaca e o hipogrifo, o poeta sorridente nos faz parar para pensar ou para deixar que os nossos lábios se estiquem para um canto da boca, deixando-nos mostrar um sorriso malicioso ou displicente com o conteúdo que encontramos.
Deus criou o mundo “e viu que era bom”. Desde então, nunca faltou um poeta que igualmente criou algo e também viu que era bom. Mas trata-se de poetas medíocres... (p.119)
Esses poetas medíocres, que Deus criou, são presentes nos textos encontrados em A vaca e o hipogrifo e chamados pelo poeta à ação. Notei que Mario possui uma grande preocupação entre o poeta-poema-leitor. Em vários poemas põe a culpa no leitor, em outros diz que a poesia não há de ser entendida, mas sentida. Tenta também dar algumas das características do poema e da poesia, sempre mostrando as qualidades, e que o erro está em quem lê, que sempre quer achar algum sentido interpretando o poema, ao invés de sentir o poema. Como no poema Intérpretes:
Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação. (p.71)
Questiona também a “arte da leitura”, colocando-nos como seres decadentes pelo não-entendimento da poesia:
Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos... A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas. A poesia é irredutível. (p.79)
Mario, em 1977, traz como título desse poema 2005, a certeza do que vemos hoje no mercado editorial. Os grandes romances, como Guarani e Dom Casmurro, de José de Alencar e Machado de Assis respectivamente, são exemplos do que é dito no poema. E a poesia, poderá ser ela transposta para os quadrinhos? A resposta de Mario é contundente: A poesia é irredutível (!).
São muitos os poemas e não podemos tratar de todos, devido, obviamente, a extensão do livro, mas podemos terminar sobre essa questão, poeta-poema-leitor, relatando o Pequeno esclarecimento que o poeta nos traz sobre isso:
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês. (p.140)
E esse silêncio era importante para o autor já que é ele “que torna tão impressionante – tão de outro mundo – uma rua numa tela”.
Os textos que incorporam A vaca e o hipogrifo foram retirados da coluna intitulada Caderno H, que possuía no jornal Correio do Povo de Porto Alegre e refletiam, por vezes, o que autor pensava ou com o que se preocupava diariamente. A partir das suas crônicas-poemáticas, ficamos sabendo quais eram algumas de suas leituras, pois em seus textos ele trazia referências como Metamorfose de Kafka; os personagens Cecília e Peri de José de Alencar, assim como As Minas de Prata do autor cearense; os contos de Guy de Maupassant; os fantasmas de Hamlet e de Yorick.
Tudo isso sai de dentro da caixola do autor Mario Quintana, que sempre nos faz sorrir ou até mesmo temer a morte. A opinião ferrenha do autor em defesa do poema encontramos não só nesse livro como em outros nos parece ter sido uma postura defendida por ele até os seus últimos dias. A sua escrita não é como um martelo nas mãos de um ferreiro, mas como um machado nas mãos de um lenhador. Lapida de forma ágil e simples, numa velocidade inconstante, que com o tempo só tende a ficar mais certeira ainda, precisando de poucas palavras para exprimir o muito que, em alguns momentos, não compreendemos.
Assim se faz a escrita desse poeta alegre, desse poeta quisto pelos leitores que se iniciam na poesia, por ter nas palavras dele o “fácil”, enganador, sentimento de entendimento sobre o mundo e sobre o homem. Mario Quintana é feito um ser mitológico, mas, que ao invés de ser onívoro como o Hipogrifo, prefere a ruminação de prosas e poemas como a vaca.
Livro: A vaca e o hipogrifo. Mario Quintana. Editora Objetiva (Alfaguara). 2012. R$ 30,00. (Comprei por R$ 10,00 em promoção)





