A graça da sina
O
cheiro da feijoada de domingo acendia os olhares em direção à casa de Dona
Augusta...
A
roda de samba se formava em sua porta, a cerveja já se punha sob as mesas
postas, as pessoas se aproximavam cada vez mais em bandos e a dona da festa se
escondia no fogão em sua prazerosa servidão. Ela comemorava, mais uma vez, o
dia da sua viuvez. Dez anos se passaram, e as lembranças de um casamento doente
quase não a culpavam mais por aquele tempo. O capitão Lindomar, o dito marido
“inexemplar”, destinou toda a sua história na missão de transformar dona
Augusta em uma mulher forte, em uma militar sem presunções emocionais, em uma
alma triste e em perfeita retidão. Depois de tanto atormentar a sua esposa com
cuidados e deveres sociais, agora, a sua morte era celebrada como a abolição da
escravidão.
Ele era um homem cheio de objeções e tinha uma
maneira previsível de lidar com a vida. Não gostava de dias festivos, vivia
para o trabalho, era pouco sociável; tinha um jeito formal de tratar qualquer
coisa, andava sempre de uniforme e não percebia outra serventia para mulher
senão como um objeto doméstico e acessório. Nunca quis ter filhos, cachorro,
gato ou qualquer outro elemento a mais em seu vazio familiar. O capitão
Lindomar era o tipo de ser humano controlado por uma ideia errada de perfeição,
algo superficialmente conservador e sem alegrias.
No
começo do relacionamento, Dona Augusta percebeu a seriedade daquele homem como
um trejeito atraente e gostou da imagem curiosa que ele formava, do menino sonhador
que acreditava na justiça como uma referência divina! Ele, por sua vez, admirou
a mulher integralmente pela sua beleza. O desenho bem delineado do seu corpo, a
harmonia do seu rosto, os seus grandes olhos azuis que não precisavam de
retoque algum para serem perfeitos. Casaram-se com menos de quatro meses de namoro e, aos poucos, o capitão
Lindomar, antes um mero subordinado de uma baixa patente, se tornou um senhor
corrompido pelo poder que alcançara. Foram dez anos associada a um militar com
o nome de marido, a um personagem tão envaidecido acerca do seu papel, que o
exibia sem descanso e em repetidos atos...
A
morte encontrou na grandiosidade do Capitão Lindomar um perfeito pato e
enquanto o dito cujo subordinava novamente os pobres soldados do seu batalhão a
mais um dia de ordens grosseiras e superiores, ela encostou-se em seu peito
forte e o sucumbiu à fraqueza:
“Se eu pudesse, trataria cada
um desse bando com chicote e pedrada! Merecem o castigo dos céus por tamanha
falta de macheza”.
Depois
dessa declaração absurda e de uma rara gargalhada, o orgulho do senhor Lindomar
perdeu a batalha da vida e, finalmente, se abateu. O coração duro de um homem
que nunca se permitira sofrer, chorar, sorrir ou amar, foi tocado pela paz da
morte e parou. Talvez, um gracejo dos céus para a sua alma completamente
iludida, talvez um infortúnio para as suas certezas. Mas de um lado ou do outro, a sentença final
veio de uma ordem superior que não foi a dele.
Trágico.
E
digno de samba! Dona Augusta comemorou a notícia da sua viuvez com um alívio
reconfortante. O fim de sua infelicidade bateu à porta e encerrou um grave peso
nas costas. Agora, oficialmente, uma mulher livre, ela já se sentia mais leve e
pronta para a vida.
A
graça da sina...
Divina!

