Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno
Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. […]
Nas tardes de feira, sentado da banda de
fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as
belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crónica
perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta
bárbara e forte dum Portugal que morreu.
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O Malhadinhas é uma obra de referência da
literatura em língua portuguesa. E aconselha-se a todos os que gostam de ler, mesmo
aos que gostam de se vangloriar das suas leituras alternativas, conceito vago
aqui atribuído aos textos que acompanham bem um cabelo despenteado com cuidado,
umas calças rotas com desvelo ou a ligação a um coletivo (sim, coletivo) de
produções orgulhosamente pouco assistidas. O
Malhadinhas não é uma obra
alternativa. Faz parte das correntes principais do bem escrever, do bem ler e
do bem fazer literatura.
A narrativa acompanha a vida de um homem, António Malhadas,
desde os tempos em que quer casar até à sua morte. Valores como os do amor, da
lealdade e da fidelidade são abordados por António Malhadas,
narrador-protagonista, que conduz o leitor pelos caminhos difíceis de montes,
vales e conceitos que dão sal e sabor à vida humana. Para o leitor, no entanto,
fica a parte da análise mais difícil e profunda. Afinal, é sempre o leitor que
coloca o sal, a malagueta, a canela e o açúcar na confeção artística do
escritor. Também por isto se pode medir a qualidade da escrita e da obra
literária. Diga o leitor, por gentileza, que o que foi acabado de ser escrito
não é verdade. Coloque todo o sal e toda a malagueta, alguma canela, um
pouquinho de açúcar. Se, para este artigo, houver sal e malagueta, açúcar e
canela, o que não é certo. Certo é que para esta obra de Aquilino Ribeiro tão
conhecidos ingredientes existem e deverão ser usados. Com toda a certeza.
Aquilino Ribeiro não foge de expressões regionais para
elevar a língua portuguesa a um nível de qualidade apenas ao alcance dos que
escrevem muito bem. António Malhadas, «provido de lábia muito pitoresca»,
inicia a narração com um exemplar parágrafo do que acaba de ser constatado:
Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus
fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de
guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não
andaria Nosso Senhor de terra em terra ─
eu cá nunca me avistei com ele ─
mas a verdade é que a neve vinha, com os Santos e as cerejas quando largam do
ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem
mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.
Depois da difícil tarefa de se casar, que envolveu fugas e
ameaças de violência, António Malhadas viaja pelo norte de Portugal
desenvolvendo a sua atividade de almocreve, enquanto se vai envolvendo em
brigas e disputas, consequência do seu espírito conflituoso e do seu sentido de
justiça.
O leitor de O Malhadinhas que conhece o obra de um
outro Ribeiro, João Ubaldo, não deixará de se lembrar de Sargento Getúlio, do
seu monólogo e de um comportamento que, podendo ser criticável, se guia por um
código de honra e por um sentido de justiça próprio de quem tem a lealdade como
princípio norteador da vida. A ação de António Malhadas e de Getúlio dos Santos
Bezerra pode ser criticada? Pode e deve. Coloque nelas o leitor o sal e a
malagueta que achar conveniente. Alguma canela. Talvez algum açúcar. Qualquer
um dos autores deixou obra para ser saboreada. Com diferenças, com parecenças,
com qualidade e com armas.
António Malhadas, entre muitas referências a armas de fogo e
armas brancas, ensaia comparação com a espada mitológica que Rolando recebeu de
Carlos Magno:
Que a minha faca era afiada e leveira … Se
afiada a trazia muitas vezes tive pena de não ter à mão a catana de Durandarte.
Há encontros na vida e pendências que um homem honrado não provoca nem espera,
e que só se resolvem de pulso rijo e botando as unhas a uma arma. A faca, mesmo
assim, nunca a saquei para homem cordo de génio e liso nas contas, nem para
jagodes pobre do juízo ou com água chilra nas veias.
Esta viagem pela vida do «ti Malhadinhas», com a sua
linguagem de cariz popular, é bem real. Tão real que chegou ao fim. A morte já
a sentia António Malhadas quando, doente na cama, lamentou a recusa da mulher,
Brízida, em lhe chegar a arma: «Nem da espingardinha me deixas despedir. Olha
que a não levo para a tumba, alma de Barbazu!»
Se não foi desta que morreu, foi passado algum tempo. Não
muito, mas o suficiente para se enfurecer com quem já o dava por morto e ele a sentir-se
ainda «para lavar e durar». Mas uma tarde …
Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho
e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho do marmeleiro. Andava há dias
a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados.
Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão
incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara,
codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António
Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago,
farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que
arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num
recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os
dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E ─ o justo juiz lhe perdoe
as facadas que as não deu em nenhum santo ─ nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem
para a outra do negro rio.


