Entrevista com Mailson Furtado
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Mailson Furtado mora em Varjota, sertão do Ceará, é
dramaturgo, poeta, contista, cronista e acadêmico do curso de Odontologia da
Universidade Federal do Ceará – UFC. Até o momento, publicou dois livros Sortimento, livro de poemas, e Conto a conto. O multi-artista vem
revolucionando a cultura local com seus projetos de incentivo às artes cênicas
e literárias. Conversei com ele via e-mail sobre arte, vida pessoal e projetos
futuros.
Léo
Prudêncio – Como surgiu a Companhia de Teatro Criando Arte?
Mailson Furtado – Em
2005, fui convidado a participar de penetra em um grupo de teatro em Varjota,
que em minha opinião foi quando ingressei na vida pública. O grupo montou um
espetáculo durante 3 meses e apresentou este em 2 oportunidades, findando logo
depois. Não tinha noção do quanto aquela arte tinha me
conquistado, e assim senti necessidade de continuar a praticar teatro. Na época,
era membro do Grêmio Estudantil da escola e nossa plataforma abordava fortemente
a Arte. Assim eu e Ronaldo Araújo, grande amigo e gremista também, tivemos a
ideia de criarmos um festival de teatro na escola, para assim montarmos um novo
grupo. A escola funcionava em 3 turnos e decidimos que o festival seria
interturnos. Fiquei responsável por um turno, Ronaldo por outro e Magnel
Carvalho por outro, no entanto, o turno que Ronaldo organizava não rendeu e
tivemos que nos unir para montar um grupo só. Daí ficava desinteressante um
festival com apenas 2 grupos, entra em ação uma figura importantíssima dentro
de minha carreira, enquanto artista, o ator e poeta Demis Santana, hoje
residente em Maceió, tendo a ideia de transformar o evento não em uma mostra de
teatro mas numa Mostra Cultural, surgindo a Mostra de Cultura, Diversão e
Arte de Varjota, o maior evento cultural da cidade até hoje, que reúne
todos os grupos locais em um só evento. E a partir daí, o espetáculo Loteria
2 2 2 foi um sucesso, que foi meu primeiro texto, e não conseguimos
parar mais.
L.
P. – Quais os dramaturgos que mais lhe influenciam?
M. F. – Em minha trajetória como dramaturgo, tive poucas
influências, afinal, digo com sinceridade que comecei a escrever dramaturgias e
a fazer teatro, fazendo e não estudando, assim minha primeira bagagem teatral
veio principalmente da prática. Com o passar do tempo, a exigência de teoria e
conhecimentos técnicos é exigido e não dá mais para continuar leigo no assunto,
caso queira crescer na área, ainda assim, grande parte do meu conhecimento
teatral, veio de leituras individuais. No entanto, neste momento [2006-2008],
eu já havia produzido algumas obras que versavam sempre sobre uma crítica
social ao capitalismo, com uma comédia excessivamente irônica, partindo meio ao
surreal, fantasioso e infantil, tais características vieram da influência que
sofri da obra de Chaplin e do mexicano Roberto Bolaños.
Com os estudos, vim a mudar ou experimentar outras características, como o
teatro épico de Bertold Brecht e principalmente o teatro do
Oprimido de Augusto Boal, que hoje, sem dúvida, é minha maior
influência. O teatro de rua e teatro regional do Nordeste, principalmente a
influência Armorial, movimento criado por Ariano Suassuna, é a
minha marca atual, embora permaneça com minha característica inicial, a crítica
social.
L.
P. – Há limites entre o teatro e outros gêneros literários?
M. F.
– Com certeza não. A beleza do teatro está justamente nessa
possibilidade de experimentação que o mesmo oferece, não apenas com gêneros
literários, mas com gêneros artísticos. Assim poemas, prosa, músicas, quadros
podem ser dramatizados, coisa que outras artes não conseguem fazer de uma
maneira tão explícita e completa.
L.
P. – Quais as conquistas que a CIA de teatro de vocês já ganharam?
M. F. –
A principal conquista, digo sempre, é a possibilidade de eu estar aqui 8 anos
depois de sua criação contando a sua história de uma forma ativa e não apenas
como memória, enfim, a principal conquista, sem dúvidas, é a nossa resistência
a esse mercado, curtíssimo, principalmente aqui no sertão cearense há quase uma
década. A possibilidade de termos nos apresentado nos grandes centros cênicos
do estado e em grandes festivais, como visitar inúmeras cidades, são outras
conquistas, onde levamos sempre o nome de nosso lugar. Quanto a títulos, ano
passado, 2013, tivemos a felicidade de receber uma comenda de Moção de
Congratulação pelas atividades que já realizamos na cidade, ofertada pela
Câmara Municipal de Varjota e este ano já recebemos com grande alegria o título
de Destaques do Ano de 2013, com o troféu Carlos Câmara, na categoria Interior,
prêmio este que é o Oscar do teatro cearense e com grande orgulho recebemos.
L. P. – Você também transita entre outros gêneros
como a poesia e o conto, mas qual dos gêneros literários você costuma escrever
mais?
M. F. –
Com certeza, entre verso, conto e dramaturgia, o que mais me conquista é o
verso. Digo que sou bem mais poeta, que contista ou dramaturgo. Sem dúvidas, o
verso é a modalidade que mais me identifico.
L.
P. – Como surgiu a ideia do seu primeiro livro, o Sortimento?
M. F. –
O Sortimento surgiu em 2007, ano que mais produzi literariamente, sendo uma
fase que marca muito meu trabalho enquanto poeta. Dessa grande produção, veio a
necessidade e o sonho de publicar uma obra e assim o Sortimento nasceu. O nome do projeto nasceu por conta da minha
vertente eclética que adquiri enquanto poeta, onde ganhei influências desde a
escola arcádica até a moderna e pós-moderna, onde em sua grande parte minha
obra ainda hoje é, daí sortimento.
L. P. – O seu segundo livro, Conto a Conto, possui escritos recentes ou é uma mistura de
períodos?
M. F. –
A maioria é recente, e foram construídos justamente para o livro, alguns não, em
outros a construção é recente, porém a ideia não. Enfim, ele é mesclado.
L.
P. – Você participa do grupo literário Pescaria, pode nos falar um pouco sobre
ele?
M. F. – O
Pescaria é uma das mais novas experiências que estou podendo desfrutar e sem
dúvida, uma das melhores, enquanto autor. A ideia de criar um grupo literário
veio quando eu e meu amigo Erasmo Portavoz, também membro do grupo, fomos à
Bienal do Livro, em Fortaleza, e notamos a necessidade que nossa cidade possuía
de ter um movimento literário consolidado, como já existia no teatro, dança e
capoeira, assim surgiu a ideia. Dentro dela, veio
outra ideia, essa para editoração de um jornal literário, que carregaria o nome
do grupo. O jornal tomou forma e teve sua 1ª edição lançada em março de 2013,
embora o grupo, não. E assim a ideia foi esfriando, embora o jornal tivesse
sendo produzido e distribuído e já na sua quarta edição. A ideia inicial do
grupo era de reunirmos na praça da Matriz da cidade, coisa que não deu certo e
nenhum encontro aconteceu, até que em uma conversa informal com Felipe Ximenes,
grande amigo e também membro do grupo, marcamos certo dia, de debatermos
literatura, artes, filosofia na margem do Rio Acaraú e chamamos na oportunidade
outros amigos, ainda sem imaginar que o Pescaria surgiria. Foi um sucesso nossa
primeira pesca, como chamamos nossas reuniões e na outra semana o grupo estava
formado, onde construímos as ideias, objetivos. Assim somos um grupo não
somente de produção literária, mas de estudos também. E em apenas 4 meses de
grupo, o Pescaria já realizou 2 eventos literários em Varjota, participou de 2
exposições, já fora de Varjota, visitou já 3 cidades para eventos literários e
a cada dia recebe menções sobre o trabalho realizado. Além do jornal, onde
divulgamos nosso trabalho, há o blog Pescaria, ao qual os convido a conhecer
neste link http://opescaria.blogspot.com .
L.
P. – Quais são os projetos futuros que você tem pra realizar?
M. F. –
Tenho inúmeros projetos de gaveta, alguns até prontos. De início, estamos em
montagem de um novo espetáculo com a CIA Criando Arte, onde pretendemos
circular a região novamente, este que deve ter novamente elementos Armoriais e
ser um pouco metalinguístico, afinal, pretendemos falar de arte dentro da
montagem, abordando elementos circenses e de outras vertentes artísticas.
Planejamos iniciar a montagem em meados de abril e iniciar a circulação no segundo
semestre deste ano. Literariamente, estou com algumas obras prontas, uma delas
em Poesia Concreta e Neoconcreta intitulada Versos Pingados, que pretendo encaminhar a editoras o quanto
antes. Há também um trabalho de dramaturgia, que é uma antologia de três obras
minhas, chamada Criando Arte no
Teatro, a qual não tenho planos de lançar agora. Estou na produção de
um romance, que talvez termine este ano, embora pretendo estudá-lo ainda
bastante ainda de pensar numa publicação e estou com um trabalho histórico com
meu amigo Erasmo Portavoz sobre as manifestações artísticas dentro da história
da cidade de Varjota, projeto que está em andamento e pretendemos lançar em
2016. Claro, sem esquecer do Pescaria, onde ainda este ano queremos montar uma
antologia poética com as obras dos pescadores do grupo, projeto ainda não
iniciado, mas que tenho plena confiança que dará tudo certo. No mais, é isso.


