NICOMEDES, O CARECA - OU COMO UMA ESPINHA E UM GATO RESOLVEM OS PROBLEMAS DE UM HOMEM CALVO
O que pode um careca fazer para substituir o cabelo?
Atenção: não vale fazer implantes! Um careca pode usar uma cabeleira, pode usar
serpentinas, pode colocar uma meada de lã, pode usar esparguete. Pode? Pode
mesmo? Não, não pode. Não pode, mesmo que seja muito vaidoso, que adore
carnaval, que goste do quentinho da lã e que se perca de amores por um bom
prato de esparguete.
Vamos lá saber a razão. Nicomedes,
o careca é a história de um homem que, não lidando bem com a sua calvície,
tenta encontrar soluções para o que considera um problema. Sempre que Nicomedes
escolhe um adereço para cobrir a careca, algo de inesperado lhe surge na
cabeça. Tudo começou com a sua primeira escolha, uma cabeleira. Logo lhe surgiu
um cabeleireiro. Isso aborrece profundamente Nicomedes. Por isso, decide nada
colocar.
Ao longo de 44 páginas, numa sucessão de eventos que
divertem o leitor (e por leitor entenda-se, aqui, aquele que interpreta a
ilustração e lê o texto e aquele que interpreta a ilustração e ouve o texto),
os autores, Pinto e Chinto, ensinam com maestria como a persistência é um valor
que resulta em benefício para quem a preserva.
A dupla de galegos não surpreende. A qualidade já é norma nas
obras de sua autoria. Destinado a um público infantil, ou seja, para ser lido
por miúdos e graúdos, Nicomedes, o careca
é mais uma boa edição da Kalandraka, editora grande no mundo da edição para
pequenos.
Apesar de não assentar numa linha narrativa contínua, esta
história, essencialmente construída sobre quadros independentes, ganha
consistência pelas surpresas e pela imaginação de Nicomedes que, página a
página, prendem o leitor.
Esperem, esperem! O nosso herói tomou uma decisão:
«Nicomedes decidiu não pôr nada na cabeça, porque lhe aparecia lá sempre alguém
em cima.» A ideia até foi boa, «mas um piloto confundiu a cabeça dele com uma
pista de aterragem.»
Em Nicomedes, o careca,
a coesão textual é assegurada por dois conjuntos de anáforas, recurso muito
utilizado nas narrativas para a infância. Os problemas começam por «e
apareceu-lhe», as soluções por «então». «Então pôs um pedaço de relva. E
apareceu-lhe um futebolista em cima da cabeça. Então pôs serpentinas. E
apareceu-lhe um casal que gostava muito de festas.»
Num momento de clímax, Nicomedes «então teve uma ideia» que
«foi pôr uma espinha de sardinha em cima da cabeça». O pobre do Nicomedes
colocou a espinha para afastar todo o tipo de pessoas. E conseguiu! Este foi o
ponto de viragem que originou um desenlace feliz. Mas … e o gato? O gato saltou
para a cabeça de Nicomedes que, inesperadamente, se viu com uma linda
cabeleira. E mais: «às vezes, com a cauda pendurada atrás, Nicomedes ficava com
um ar muito moderno, como se tivesse um rabo-de-cavalo.»
David Pintor e Carlos López, isto é, Pinto e Chinto, têm
mais de 20 obras dedicadas à literatura infantil e são, atualmente, dos mais
premiados e produtivos autores galegos.
Nicomedes, o careca
foi lançado em junho de 2013. Com capa dura e feito com papel proveniente
de fontes responsáveis, com a respetiva certificação pelo FSC (Forest
Stewardship Council), é um livro para ser lido e sentido. As ilustrações
cuidadas e repletas de humor, e um herói que não desiste perante as
adversidades, também contribuem para o enriquecimento de leitores e ouvintes.





