Jogo sem labirinto
Julio Cortázar é um dos nomes
mais conhecidos da chamada Literatura latino-americana. Há cinquenta anos,
publicava, pela editora Sudamericana, de Buenos Aires, uma obra considerada
vanguardista. A estrutura de Rayuela,
nome original da obra de Cortázar, mais conhecida no Brasil como O jogo da amarelinha, é
conhecida até mesmo por quem nunca leu ou lerá o livro.
Construir um livro com a
possibilidade de haver duas formas de leituras não é fácil. A problemática que
envolve esse tipo de leitura é uma só: as duas leituras podem se transformar em
interpretações quase infinitas. Daí a dificuldade em se conseguir chegar a um
consenso quanto à interpretação na leitura d’O jogo da amarelinha; e de
se acreditar que o romance pode se transformar em um ‘romance de ensaio’, pois
as narrativas se desenvolvem na forma de ensaio, com interrupções, saltos e
indecisões.
Dispor um livro em 56 e/ou
155 capítulos ao mesmo tempo não é algo que faça um leitor se apaixonar. Ainda
mais quando se sabe que Oliveira, personagem principal, realiza uma busca de
algo que nem ele mesmo sabe o que é. A dificuldade da leitura e em definir a
obra parta, talvez, da própria incoerência da busca de Oliveira.
Encontrar algo definido é o
difícil nessa obra tão arredia, tanto para Oliveira como para Maga, por quem é
apaixonado. O que se percebe neles é que há um caminho sendo traçado, criando
uma irrealidade, que aqui toma outros significados, mas no sentido da vida
real, que sempre parece ser burlado pelos diálogos criados entre Oliveira e
seus amigos, excluindo sempre a pobre Maga, no Clube da Serpente.
Entre todos os personagens que
permeiam o livro, Maga é a única que aparenta ser inocente. Sua ignorância é
mostrada pela falta de conhecimento que possui não somente no campo das artes,
mas quanto aos assuntos do cotidiano. Ela se preenche apenas pela presença de
seu filho, Rocamadour, que morre, na metade da leitura do que seria o primeiro
livro construído por Cortázar. Tal cena é demonstrada absurdamente pelos que se
encontram presentes em seu apartamento. Percebem quão difícil será contar a
morte de Rocamadour a Maga e ficam a divagar, fogem da vida real e criam uma
nova realidade, uma irrealidade, de como tudo terá de ser construído a partir
daquela morte. E daí se dará a mudança de espaço na obra. Oliveira, que residia
em Paris, retornará para a Argentina e lá outra trama amorosa se iniciará.
Mas a morte não importa. O
importante é perceber como Cortázar quer quebrar a nossa visão costumeira que
temos sobre a vida real e a nossa realidade, assim como faz em um dos seus
contos mais conhecidos: A auto
estrada do sul, que mostra de que maneira a narrativa foge dos padrões
pré-estabelecidos, e como funciona o ser humano. O escritor argentino tenta
moldar a nossa realidade a partir de hipóteses criadas por diálogos
filosóficos, principalmente, mostrando que existe muito mais ao nosso redor do
que a criação de uma irrealidade. Faz que o leitor se instale nas histórias dos
personagens, utilizando-se de situações que nos rodeiam, para que participe da
história e se ponha no lugar das personagens, trazendo o aprendizado dos mesmos
para si. Como exemplo, temos os vários nicaraguenses, que após a leitura do
livro, resolveram participar da Revolução Sandinista, na Nicarágua, nas décadas
de 60 e 70 – a qual o próprio escritor apoiava.
A disposição dos 155
capítulos, presentes em O jogo
da amarelinha, não cria, de forma alguma, no meu entender, um labirinto;
apesar da busca sem objetivo de Oliveira. Cria – diante de capítulos curtos, de
diálogos, por vezes enfadonhos, de um romance que pode ser tido como um grande
‘romance de ensaio’ – um leitor que não tem o direito de se
perder, de erguer labirintos, pois há o texto. A escritura está presente e é
ela quem mostra os caminhos para as interpretações possíveis, que sim, hão de
ter um fim, mesmo que esse seja o início de uma nova história, que tenha os
mesmos personagens e que tragam novos desesperos para quem o lê.

