Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
12 de novembro de 2012
O fim não tem fim, apontamentos sobre O castelo de Franz Kafka

O fim não tem fim, apontamentos sobre O castelo de Franz Kafka



por Tito de Andréa

O castelo
 de Kafka é uma obra que sob muitos aspectos fala de si mesma. É um castelo labirinto que constrói a si mesmo. Monumental e distante objeto, marco de chegada e fim de jornada, mas, no entanto, incompleto, faltoso, fugidio. Intangível, inatingível lugar. Desesperadora busca do centro que nunca está em lugar nenhum.

Há muitos caminhos para chegar ao castelo. Muitas são as suas portas e diversos seus representantes, mas a entrada real estará sempre obstruída, sempre falaremos com mensageiros falhos, sempre pela metade, sempre sem entender tudo, sempre tentando ao máximo, sempre perdendo o fôlego, sempre nos perdendo na brancura de uma neve profunda e profusa. Verborrágico desespero.




Por mais claro que seja nosso objetivo, entrar no castelo, jamais poderemos fazer nada, a não ser seguir em frente. Somos todos K. Ali somos todos: ele, na imanência de algo acontecer, na possibilidade de ver algo concreto e acontecido. Algo que funcione e ratifique a jornada, que complete a peripécia, que coroe o caminho, que faça ter valido a pena... Mas não encontramos nada. Não é possível encontrar. Não sabemos como conseguir algo. Somos estranhos, forasteiros, inimigos da ordem da obra por representarmos outra ordem. Nossos mundos não podem ser conciliados a não ser que pertençamos. E queremos pertencer, mas pertencer para ir embora.

Camus propõe, em O mito de Sísifo, que o objetivo de K. no vilarejo do castelo é poder ser um deles. Toda sua luta seria, então, a de poder fazer parte confortável daquele mundo. Não quer mais ser alienígena àquele mundo. Penso, por outro lado, que K. quer sim ter o direito de ficar, mas apenas para negar esse direito e seguir em frente. Quer receber um sim para dizer o não. O não é o que é negado constantemente a ele. K. não pode negar. Pode, sim, ir embora a qualquer momento, mas pode ir embora como veio, como estrangeiro solitário. Não é sua vontade. K. deseja o pertencimento, deseja ser devorado pelo viver comum, para emergir desse mar como vitorioso ser que agora poderá dizer não.



Como K. estamos nós. É árdua a leitura e complicado o processo de ler O castelo. Sabemos, entretanto, que a única forma de penetrar seu reino é, como diz Blanchot, em O livro por vir, permitir ser tragado e morrer na obra, encarar na obra a única verdade do mundo, mesmo que em colapso. Mesmo que sem ar nenhum. Mesmo que na impossibilidade de qualquer relação. Precisamos nos dar por completo, mesmo quando não temos nada para dar. Mesmo quando não temos ninguém a quem dar nada. Estou aqui, vindo de não importa onde, mas indo para o castelo, exigir o único direito que tenho: o de ir embora.

O castelo é uma meta-obra. Eu sou K., chegado de não sei que parte (se para o gato em Alice no país da maravilha qualquer caminho leva a algum lugar aquele que não tem para onde ir, o ponto de partida é igualmente neutro e sem importância) e indo, atraído magneticamente, como uma mariposa à vela, para o castelo exigir um direito que já tenho, o de partir levando as coisas que já conquistei. É simples. Posso ir embora quando quiser. Fechar o livro e nunca mais abri-lo novamente, assim como K. precisa apenas virar as costas e sair levando consigo o que quiser. Mas somos atraídos por essa força sem nome, essa gravidade avassaladora que me obriga a ir até o fim, até onde der, até que o meu desejo seja garantido, até que justificado pela jornada e devidamente devorado tenha o direito de ressurgir purificado e livre. Mas não há fim n’O castelo, já não poderei partir, pois o livro não acabará, estou atado, caí em uma armadilha, estou amarrado sem nenhum direito.

“ – Como um cão”





Kafka construiu o castelo que narrou. Sua ruína semifuncional que não é capaz de funcionar, mas é capaz de atormentar e dificultar todos os passos. Nos transformou a todos nesses estrangeiros indesejados e nos dá, por final, a agonia de jamais podermos nos naturalizar ou partir. Sou K. e jamais poderei deixar de sê-lo, pois jamais poderei entrar no castelo e jamais poderei ir embora de seu domínio. Minha mão para sempre estará estendida pronta para receber a ajuda que nunca virá, congelada em palavras que não se terminam e atraída para os portões do castelo que nunca verei.

Kafka construiu o castelo que narrou. Sua ruína semifuncional que não é capaz de funcionar, mas é capaz de atormentar e dificultar todos os passos. Nos transformou a todos nesses estrangeiros indesejados e nos dá, por final, a agonia de jamais podermos nos naturalizar ou partir. Sou K. e jamais poderei deixar de sê-lo, pois jamais poderei entrar no castelo e jamais poderei ir embora de seu domínio. Minha mão para sempre estará estendida pronta para receber a ajuda que nunca virá, congelada em palavras que não se terminam e atraída para os portões do castelo que nunca verei.





Leia Mais
9 de setembro de 2012
O artista que ilude

O artista que ilude


Alguém, não me recordo quem, havia me dito que As cartas a um jovem poeta era um livro lindo. Não sei quem e por qual motivo me falou. Essa frase surgiu em minha mente quando há alguns dias me deparei com o livro numa livraria.

Rainer Maria Rilke. Quem foi esse cara? Eu não sabia, mas a frase ficava se repetindo em minha mente: lindo livro, escritor maravilhoso, todo escritor tem que ler essa obra. Pois bem, não hesitei vendo a obra em minha frente, numa edição agradável. Comprei.


Fico sabendo, na pequena introdução que antecede as cartas, que elas foram escritas por Rilke em respostas às cartas enviadas por Franz Kappus. A explicação de como o jovem poeta teria conseguido o endereço de Rilke vem na introdução do livro. A razão de termos acesso apenas às cartas do escritor pode ser definida na frase de Franz Kappus:

"Quando fala um dos grandes, que só uma vez aparecem, os pequenos devem calar-se."
Franz Kappus (p.23)

Talvez isso seja o bastante para entendermos o valor que possuíram e possuem as cartas de Rilke. Cecília Meireles, poetisa brasileira, é quem realiza o prefácio para a primeira edição do livro e sobre as cartas de Rilke, comenta:

“(...) as respostas de Rilke não oferecem a Kappus uma receita literária, embora digam coisas essenciais sobre o exercício da literatura. Vão mais longe: tratam da formação humana, base de toda criação artística. De literatura, propriamente, pouco falam as cartas. Podem ser resumidos os conselhos do poeta em algumas linhas: escrever só por absoluta necessidade, evitar temas sentimentais e formas comuns, escolher as sugestões oferecidas pelo ambiente, a imaginação e a memória, não dar importância aos críticos, 
não ler tratados de estilo. (p.15)

Como se vê, a poetisa enumera os temas essenciais, como ela diz, sobre o exercício da literatura, mas não menciona, a nosso ver, um tema fundamental para o entendimento da Obra de Maria Rilke: a solidão, falaremos sobre ela mais a frente.

Sobre a absoluta necessidade de escrever apenas por escrever, a qual menciona a poetisa, hoje em dia, é desacreditada por alguns teóricos da literatura, já que para esses o escritor com sua obra possui sempre um público e um objetivo determinado. Talvez Rilke estivesse certo quanto ao pedido que fez a Franz sobre a crítica literária:

Deixe-me fazer-lhe aqui um pedido: leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra. As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. (p.36)

Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. (p.37)



Rilke acreditava que a crítica julgava algo que ela mesmo não poderia criar, daí talvez o pedido para que o jovem não lesse tratados de estética. Preferia que Kappus, ao longo do tempo e de seus escritos, conseguisse atingir o seu próprio amadurecimento. Esses comentários de Rilke sobre a crítica nos fizeram lembrar do livro de Giorgio Agamben, O homem sem conteúdo (um dos próximos livros a serem expostos aqui no LiteraturaBr). Pois nesse livro Agamben vai falar sobre o homem que sem possuir a objetividade sobre uma arte, se põe no “dever” de criticar algo que ele não sabe como se dá na prática.

Outro ponto ao qual o poeta alemão suscita é sobre os poemas de amor, diz que é melhor que não escreva poemas de amor (apesar de que suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894)) e que deve se entregar às recordações da infância:

Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. (p.27)

Vê-se que mesmo a partir da recordação da infância, tema que pode facilitar para o alargamento da sensibilidade de Kappus como poeta, o autor das cartas diz, também que “sua solidão há de alargar-se”. A solidão, como já foi dito é um dos temas principais para o entendimento do pensamento do poeta. Rilke, em vários momentos, estabelece relações entre a solidão e outros sentimentos e até mesmo a determinadas ações que o ser humano tem de tomar.
            Sobre a solidão em determinado momento das cartas expõe:

Que seria, com efeito, uma solidão (faça essa pergunta a si mesmo) que não tivesse grandeza? Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer, por mais banal e barata que fosse (...). (p.51)

Não tendo nenhuma comunhão com os homens, procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países. No mundo das coisas e dos bichos tudo está ainda cheio de acontecimentos de que o senhor pode participar. (p.53)




A solidão existe e ela é de uma grandeza imensa, que por vezes o homem não consegue suportar. Ela percorre por entre a natureza e se quisermos dela participar, com ela realizar a comunhão é só nos entregarmos. Sabe ele, que isso é uma tarefa difícil, por isso expõe o processo de maneira que envolva o amor, para que possamos compreender mais facilmente:

O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita. Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma separação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo não sabem amar; têm que aprendê-lo. (p.58)

O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer (...) (p.59)

Os comentários realizados por Rilke são de uma grandeza e de um aprendizado para nós, escritores ou não, que por vezes nos perdemos em seus pensamentos, deixamo-nos levar pela névoa que envolve suas palavras. A beleza das cartas de Rilke me fazem querer ler mais e mais esse poeta, lê-lo literalmente, pois ele se “entrega” em seus poemas de uma forma fascinante, de uma forma linda, como  me lembra a voz esquecida em minha mente. Sua arte é de uma primazia sem igual, talvez, através de suas cartas, já podemos ter uma pequena, mas certa visão do que poderemos ver e sentir em seus poemas. Em breve comentaremos sobre os livros de poemas desse grande autor alemão, que desde Goethe, é tido como um dos maiores poetas alemães. Para finalizar expomos uma opinião do escritor sobre a arte:


A arte também é apenas uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro, está-se mais perto dela do que nas falsas profissões meio artísticas. Estas, dando a ilusão de uma proximidade da arte, praticamente negam e atacam a existência de qualquer arte. (p.76)


Livro: Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke.Editora Globo. 2002. tradução: Paulo Rónai. R$ 19,00



Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger