O dia dos prodígios, ou o realismo perfeito, de Lídia Jorge
Um personagem levantou-se e
disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem
ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem
que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos
todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o
desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que
se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se
move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.
Depois do preâmbulo,
apresentado por um narrador que a revolução trouxe para ouvir as pessoas, é
nomeada a primeira habitante da aldeia. Com «Carminha parecia fazer adeus, mas
apenas lavava janelas», Lídia Jorge inicia um fio condutor a toda a história:
em Vilamaninhos, as parecenças que iludem a realidade e trivialidades da vida
de uma aldeia podem ser elevadas à condição de acontecimento invulgar, mágico.
Vilamaninhos é uma pequena aldeia no sul de Portugal, mas poderia ser de
qualquer outro país. A posição no planeta pouco interessa; apenas o ser pequena
é condição importante.
Tal como em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, o
romance de Lídia Jorge apresenta alguns trechos paralelos. Ainda que tenha sido
pedido às pessoas para que não falassem todas ao mesmo tempo. Fica, pois, claro
que todas gostam de falar. A obra é, aliás, falada. A sua singular oralidade
está assente numa construção textual não convencional.
A morte de uma cobra (ou a
convicção de que estaria morta) é o mote para os intervenientes desfiarem as
suas histórias, as suas opiniões, as suas discordâncias. Num ponto parecem
estar de acordo: «A cobra fez duas roscas à volta da cana, saiu dela, e voando
por cima dos nossos chapéus e dos nossos lenços, desapareceu no ar. Voou no ar.
No ar como se fosse uma avezinha de pena.»
Jesuína Palha é das que mais
gostam de contar a história, até porque foi ela quem tudo fez para matar a
cobra. Mas nem sempre consegue a atenção dos outros habitantes que, por vezes,
preferem combater o silêncio de outra maneira:
Quando Jesuína Palha acabou de
falar, parecia ainda estar disposta a recomeçar. Via-se isso pelo cuspo dos
lábios. Mas havia o som dos passos dos vizinhos que já voltavam as costas e
desciam o lajedo da rampa. Como cascos de cavalo da guarda. Os rabos andando de
lado a lado a enxotar o silêncio. E o freio desatado sob as trombas.
Sem nunca referir 25 de Abril
de 1974, é a ele que Lídia Jorge dirige o leitor que conhece os acontecimentos
dessa quinta-feira que acabou com o regime ditatorial em Portugal. No entanto,
não é necessário saber que esta revolução foi feita com flores e sem tiros para
perceber o sentido do relato que diferentes personagens vão fazendo. Esta
revolução poderia ter sido feita em qualquer tempo e em qualquer lugar. Alguma
crítica tem insistido em salientar como uma das características marcantes da
obra a alienação de uma comunidade oprimida e inculta, consequência de um
isolamento próprio da ditadura. Esta é uma análise descuidada. Alienadas são as
suas pessoas individualmente, ou seja, o que O
Dia dos Prodígios apresenta
não é uma aldeia antropomórfica mas, antes, seres que tecem as suas vidas e a
vida dos outros conforme as suas fragilidades como seres únicos.
Diferentes personagens desfilam
na história ao ritmo das línguas viperinas dos vizinhos. De José Jorge Júnior
que «contava oitenta e sete anos e vinha do outro século» se falava que a perna
«já era de madeira, sem cheiro a seiva onde apetecesse picar». Da mulher deste,
que «quando tentava erguer-se sobre a pá do seu assento, abanava a cabeça
dizendo que não. Que não podia. Que mais doce.»
José Jorge Júnior vai contando
como «Jorge» chegou até si e Esperancinha desfia os filhos que foi tendo,
lembrando várias vezes o morto: «O morto veio entre o Duarte e o Simão. O
morto.»
Enquanto isso, José Pássaro Volante é
apresentado.
Depois José Pássaro Volante. O
que tem três certezas. Sabe que a terra não é redonda, mas o horizonte um
círculo abobadado de azul e cinza, conforme a hora do dia e o mês do ano. Que
se desloca atrás de si e das bestas para onde quer que vá. Suba e desça o
barrocal, penetre a serra, monte abaixo monte acima, pernoite nas pensões à
beira da estrada. Durma nas abas das medronheiras. Que o círculo é sempre um
círculo de terra e ar. Como o redondel dum copo virado, atrás do ser da pessoa.
Por cima os astros, por baixo o pó e as pedras, e o mesmo redondo atrás, atrás,
ele no meio. Ah prisioneiro. Quem uma vez não saiu de Vilamaninhos não conheceu
nem conhecerá a realidade da terra.
A suposta visão universalista
do mundo é, pois, reduzida à sua visão imediata, o que fica confirmado quando
se verifica que a sua casa se localiza no centro de Vilamaninhos e « no centro
da casa fica a mulher bordando» e no meio desta fica «a colcha de linho cru,
adamascado», no centro da qual se situa «uma figura de escamas bordadas. E a
língua».
O mundo de Pássaro Volante,
que não é redondo, tem o seu centro no centro da colcha de linho cru. Mas no
centro, centro, a figura de escamas bordadas tem uma língua de «sedas
vermelhas, reluzentes de fogo». O mundo à volta do imaginário. O imaginário com
língua. A cada momento apraz dizer que esta obra é universal e intemporal. O
imaginário e o mundo reduzido a um pequeno símbolo persistem para além de
revoluções e as pequenas aldeias são também os bairros, a rua, a universidade,
o grupo de amigos. Também por isso, esta é uma história de pessoas mais do que
de comunidade, embora só nesta aquelas se realizem. O apelo ao espírito
comunitário é, contudo, feito.
Depois Manuel Gertrudes.
Macário, que se estivesse acordado cantaria quadras à cobra. Matilde. João
Martins. Carminha. José Maria, o cantoneiro, que preferia quadras de amor.
Maria Rebôla, que respondeu às preferências do cantoneiro chamando-o de herege:
«Você é um herege, porque não respeita os sinais. Quem julga que uma coisa
destas pode acontecer por nada?».
A cobra. Lourenço previu que
fossem todos passar «a noite ao relento sem pregar um olho». Manuel Gertrudes
apelou à união de todos: «Agora mais do que nunca é preciso sermos amigos,
amarmo-nos uns aos outros, fazer uma frente comum». O medo a comandar a decisão
e até o bom senso. Tão religioso. Tão humano. Divinal.
Carminha Rosa e sua filha,
Carminha Parda, viviam estigmatizadas pelo passado. A primeira pela relação que
mantivera com o padre. A segunda, por ser filha dessa relação. A passagem onde
se fala destas vidas e onde se diz que «dizem que disse» e que o «padre dum
cabrão» enganou a moça é um monumento à condição espiritual de muita gente,
principalmente dos que pecam por palavras. Tão religioso. Tão humano. Divinal.
Tem de se dizer que «a
decrepitude de José Jorge Júnior foi publicamente reconhecida». O próprio o
admitiu: «Nada é proibido contra a minha pessoa», disse, alvitrando tristes
espetáculos enquanto fala num hipotético «mijar na cama e montar galinhas».
A cobra. Jesuína Palha sonha
com a glória futura e imagina excursões para Faro e Portimão, com escala na
terra e alguém a dizer que foi naquele local que ela própria matara um animal
muito feroz e que «nem homem, nem mancebo conseguiu jamais fazer o que fez essa
mulher valente». Já Branca apenas espera «acordar um dia sem sentir o peso do
corpo, nem dos ossos, nem das miudezas do ventre». Macário deseja uma mulher
que lhe chame «querido». Fala-se que «ainda ontem Pássaro procurava a mulher na
cama, e ela vá de se fazer de morta».
Um homem que aparece na terra,
e que ninguém conhece, não tem a importância da cobra que ganhou asas mas
contribui para a vida mágica e imaginosa de Vilamaninhos. Será «algum emigrante
vindo da Argentina pra vender a casa do pai». Todos os que souberam saíram à
rua. O que desejaria este de Carminha, que «abre a porta a qualquer um»?
O romance de Lídia Jorge, tão
recheado de silêncios, como de palavras soltas, frases ditas e passagens
inesquecíveis, é profundamente marcante. Tão marcante que parece, ao mesmo
tempo, poder abdicar de qualquer uma das suas frases, sem que de nenhuma destas
se possa pensar que está ali por mera distração da escritora, ou qualquer outro
acaso.
É o romance de Lídia Jorge,
obrigatório para quem gosta de boa literatura, um exemplo claro do que se
convencionou chamar de realismo mágico? A resposta pode ser um talvez. Talvez
pressupõe sim e não. Talvez sim, talvez não. Mágica é a escrita da autora. O
que O Dia dos Prodígios é, de certeza, é um exemplar de
realismo puro e duro. Se as classificações não chocarem, que se atribua, então,
magia ao realismo da autora.
O romance termina com os
lamentos de Matilde e o apelo de Macário para que se ouça música:
E Matilde disse. Desde o ano
passado que me partiram nesta venda cinco copos de três, três copos de quartilho e dez de
meios. Só havi disso tudo, trinta e cinco
mil réis. Mas quem deve, tem o nome escrito naquele papel da parede. E Macário disse. Oh gente.
Ouçam aqui o dó.
Tão musical. Tão mágico. Tão
perfeito.


