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5 de setembro de 2014
PERFIL POESIA BRASILEIRA, LÊDO IVO: “SOU AQUELE QUE ESTÁ ALÉM DE MIM”

PERFIL POESIA BRASILEIRA, LÊDO IVO: “SOU AQUELE QUE ESTÁ ALÉM DE MIM”


Esconderijo

 A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta
(Lêdo Ivo)





Nascido em 18 de fevereiro de 1924 na capital Alagoas, Lêdo Ivo foi jornalista e escritor, atuando em diversos planos da literatura. O alagoano escreveu poesia e prosa, deixando um acervo precioso após sua morte em 23 de dezembro de 2012. Sua versatilidade na escrita rendeu a ele uma particularidade em relação aos outros escritores de sua geração – a célebre Geração de 45 -, o que fez com que fosse definido “[o poeta] de versos longos e nome curtopor Sergio Buarque de Holanda.


Após morar por três anos no Recife, onde contribuiu com a imprensa e obteve maior experiência literária, Lêdo mudou-se para o Rio de Janeiro aos 20 anos de idade para estudar Direito na Universidade do Brasil. No Rio, continuou a trabalhar para a mídia como jornalista e escritor, lançando seu primeiro livro no mesmo ano em que chegou, 1944. Contra a vontade do pai, o escritor se dedicou à carreira literária e nunca exerceu a profissão de advogado, na qual se formou. Atuou, também, como tradutor e crítico literário.


 Seu livro de estreia e o sucessor – As Imaginações (1944) e Ode a Elegia (1945) – denotavam em si grande carga de características da prole neomoderna que acabara de se formar naquela década, rompendo com a estética de 1922, por isso fora integrado àquela turma.


Mas o poeta era um verdadeiro camaleão, pois mudava de cores e também trocava a pele. Por ser flexível, Lêdo não se ateve a um só tema ou gênero em sua carreira literária. Além de exímio poeta, escreveu ensaios, crônicas, contos e romances (como o notável Ninho de Cobras, 1973). O sinuoso caminho da vida e as transformações durante a mesma são os assuntos mais valorizados em sua obra, fazendo do “eu” a grande estrela da produção do autor. Seus poemas iam de sonetos a haicais, exemplificando sua variação, e eram de grande objetividade apesar do conteúdo perceptivelmente profundo. Seguindo sua primeira publicação, foram lançados ao menos dez livros do autor em um período de apenas dez anos e seguiu-se assim pelos subsequentes, abrindo espaço para a sua vasta criação.


Lêdo teve algumas de suas obras traduzidas para diversas línguas, fato que rendeu a ele prêmios internacionais e convites para representar o país eventos culturais no exterior durante toda sua vida. No Brasil, foi condecorado com muitos prêmios, dentre eles o Prêmio Mário de Andrade e o Prêmio Jabuti. Se já não bastasse tanta honraria, foi eleito em 1986 para a Cadeira n° 10 da Academia Brasileira de Letras, como quinto ocupante, sendo recebido no ano seguinte.



No céu de Lêdo, todas as estrelas eram vistas a olho nu, tamanha clareza que cultivava no que escrevia. E não eram só estrelas, outros objetos além-Terra também se destacavam pelo seu constante gingado entre propostas diferentes. Lêdo não foi um simples e retrógrado alquimista hermético, foi um cientista vigente que operou as palavras em fórmulas concisamente versificas e maleáveis. Por isso, é peça fundamental na literatura brasileira em tempos em que o recheio literário precisa ser extenso e acessível. Lêdo é o pássaro que busca alimento sortido e de fácil deglutição para suas crias. 






Poemas.

A partícula

Nada sei sobre mim, 
quem sou ou de onde vim. 
Não sei para onde vou 
quando me for para onde. 
Não sei se esse ir me expõe 
ou se esse ir me esconde. 
Sei apenas que o sol 
clareia meu jardim 
onde uma lagartixa 
me separa de mim. 
Ignoro quem é este 
que diz ou é ser eu. 
E já que nada sou, 
nada tenho de meu, 
e nem mesmo de mim, 
como ser um pronome, 
essa ínfima partícula 
que de si e dos outros 
tem tanta sede e fome 
e em lenta combustão 
se queima e se consome? 
Nem mesmo a vida resta 
quando a gente regressa 
do passeio à floresta. 
Tudo na vida some. 
E o vento sopra e leva 
as letras do meu nome. 


A cama

Amor silencioso!
Só a cama gemia,
parceira insaciável


Oceano secreto

Quando te amo 
obedeço às estrelas. 
Um número preside 
nosso encontro na treva. 

Vamos e voltamos 
como os dias e as noites 
as estações e as marés 
a água e a terra. 

Amor, respiração 
do nosso oceano secreto. 


Firmamento

No dia cheio de estrelas 
como a noite aguardo o vinto 
que vai espalhar a minha alma 
no firmamento. 

Na noite da ventania 
a morte será um frêmito, 
o luzir de uma luz negra 
no firmamento. 

E tudo será silêncio 
e será esquecimento 
na eternidade da noite 
e do vento.


Conselho

Esconde a tua vida. 
Guarda o teu segredo. 
Tudo, neste mundo, 
é engano cego e ledo. 

De manhã é noite. 
Mesmo à tarde é cedo. 
A vida é meandro 
sem qualquer enredo. 

A ninguém confesses 
teu amor ou medo, 
teu sonho acordado. 

Sê um caracol 
fechado em si mesmo 
na manhã de sol. 


O futuro dos corpos

Quando não tivermos 
mais nenhum desejo 
ficaremos juntos 
onde estiver Deus 

no desfiladeiro 
que saqueia as almas 
e devolve aos corpos 
a nudez final. 

Quando apenas formos 
o sopro do vento 
e a pureza da água 

a nossa união 
resplandecerá 
no céu libertado.


A vã feitiçaria

Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho 
que a torna testemunha desta aurora. 
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor 
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago. 
E a vida, este galpão de sortilégios, 
deixa que eu a invente com palavras 
que são dragões vencidos pela mágica. 
E não me espanta que eu, sendo mortal, 
sujeito à injúria de tornar-me em pó, 
crie uma rosa eterna como as rosas 
inexistentes nesta flora efêmera. 
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se 
em vãs lembranças. Minha rosa morre 
por ser eterna, sendo o mundo vão. 


O coração da liberdade

Estive, estou e estarei 
no coração da realidade, 
perto da mulher que dorme, 
junto do homem que morre, 
próximo à criança que chora. 

Para que eu cante, os dias são momentâneos 
e o céu é o anúncio de um pássaro. 
Não me afastarei daqui, 
da vida que é minha pátria, 
e passa como as águias no sul 
e permanece como os vulcões extintos 
que um dia vomitam sono e primavera. 

Minha canção é como a veia aberta 
ou uma raiz central dentro da terra. 
Não me afastarei daqui, não trairei jamais 
o centro maduro de todos os meus dias. 
Somente aqui os minutos mudam como praias 
e o dia é um lugar de encontro, como as praças, 
e o cristal pesa como a beleza 
no chão que cheira à criação do mundo. 
Adeus, hermetismo, país de mortes fingidas. 
Bebo a hora que é água; refugio-me na estância 
quando a aurora é mistura de orvalho e de esterco, 
e estou livre, sinto-me final, definitivo 
como o tempo dentro do tempo, e a luz dentro da luz 
e todas as coisas que são o centro, o coração 
da realidade que escorre como lágrimas. 


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22 de julho de 2014
10 tiros literários - Lêdo Ivo

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Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado, 
cada vez mais moderno e mais antigo.

*

Canto Grande

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela. 
Em companhia da linguagem 
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade, 
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade, 
rodovia do litoral, 
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra, 
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

*

Não quero a eternidade
-------------------------------
Quero ser o que passa
--------------------------------
Prefiro um voo de pássaro
--------------------------------------
Recuso-me a durar
e a permanecer.
Nasci para não ser
e ser o que não é

*

O BARULHO DO MAR

Na tarde de domingo, volto ao cemitério velho de Maceió
onde os meus mortos jamais terminam de morrer
de suas mortes tuberculosas e cancerosas
que atravessam a maresia e as constelações
om suas tosses e gemidos e imprecações
e escarros escuros
e em silêncio os intimo a voltar a esta vida
em que desde a infância eles viviam lentamente
com a amargura dos dias longos colada às existências monótonas
e o medo de morrer dos que assistem ao cair da tarde
quando, após a chuva, as tanajuras se espalham
no chão maternal de Alagoas e não podem mais voar.
Digo aos meus mortos: Levantai-vos, voltai a este dia inacabado
que precisa de vós, de vossa tosse persistente e de vossos gestos enfadados
e de vossos passos nas ruas tortas de Maceió. Retornai aos sonhos insípidos
e às janelas abertas sobre o mormaço.
Na tarde de domingo, entre os mausoléus
que parecem suspensos pelo vento
no ar azul
o silêncio dos mortos me diz que eles não voltarão.
Não adianta chamá-los. No lugar em que estão, não há retorno.
Apenas nomes em lápides. Apenas nomes. E o barulho do mar.

*

PRIMEIRA LIÇÃO

Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

*

A CREPITAÇÃO

Qualquer vida é naufrágio e perdimento.
Quando chegamos ao fim da restinga
encontramos apenas mar e vento.

Onde estão nossos sonhos? Um errante
raio de sol sumiu entre a folhagem,
dentro de nós o dia fez-se pálido.

Cercado pela luz da madrugada
e de mim rodeado, estou sozinho
entre as grutas da terra e a ira do mar.

Última luz da derradeira festa,
crepita na manhã a eternidade.
E a eternidade é tudo o que me resta.

*

O RAIO

O raio que caiu dividiu o verão.
A cisterna de luz escorrida na terra
sob a nuvem purpúrea e o vôo do gavião,
e me alcançou em cheio, no meio de mim,

como o aroma da flor que se ergue no jardim
para impor a quem passa o domínio do instante.
O sol desmoronado escondeu os seus raios
na doçura da palha espalhada no estábulo.

A serpente agoniza, mudada em coral.
A relva abre caminho ao silêncio dos homens
que escalam as montanhas douradas do outono.

Entre os que vão e vêm eu também venho e vou.
Nos tormentos do mundo fui multiplicado
e de tanto existir já não sei mais quem sou.

*

As Iluminações

Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsalício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

*

Os Morcegos

Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteira no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
“Estes filhos chupam o nosso sangue”, suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz do
[farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda o dia
[ofendido.

ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre as nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

*

Soneto do Poeta Brasileiro

Não sou viril somente nas poesias.
Quero dormir contigo, pois teus pés
amassavam pitangas e trazias
no corpo inteiro a marca das marés.

Disseste que comigo casarias
- amor na cama, beijos, cafunés.
Entre-sombras de carne oferecias
tão navegáveis como igarapés.

Minha morena até dizer que não,
o nosso amor demais me recordava
duas lagoas onde me banhei.

Sou macho e brasileiro, coração:
em teu olhar eu nu e forte estava
e foi assim, morena, que te amei.

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