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5 de março de 2013
De inéditos e ineditismos

De inéditos e ineditismos



por Pedro Fernandes de O. Neto*

Passados dois anos da publicação de Claraboia, findei nesta semana a leitura do romance perdido de José Saramago. Perdido foi a expressão utilizada durante a campanha de publicidade da obra. O escritor compôs esse texto ainda nos idos de 1950, depois de uma decepção literária anos antes com Terra do pecado, e o datiloscrito ficou escondido pelas mãos dos editores aos quais Saramago submeteu a obra, até quando do recebimento do Prêmio Nobel em 1998. Depois disso, manifestando interesse em editá-lo, o autor foi categórico: o livro só viria a lume depois de sua morte e se os responsáveis por seu espólio assim quisessem. Se o romance hoje está ao alcance do grande público é, sim, graças a Pilar del Río, viúva e presidenta da fundação que leva o nome do romancista.

Bom, mas não será este um texto para apreciação crítica do romance em questão; isso é já assunto para outra ocasião. O caso aqui citado é para introduzir um comentário acerca de um modismo mercadológico que tem tido seu boom nos últimos anos. Os da nova geração de leitores já terão se acostumado com essa moda que é a de remexer arquivos esquecidos pelo tempo a fim de achar entre os papeis – e são muitos – deixados pelo escritor um texto qualquer que dê brecha para uma publicação inédita e de preferência surpreendente, cheia de revelações a ponto de até mudar determinados conceitos acerca dos já fossilizados.

No caso de Saramago há uma diferença dos demais porque houve uma manifestação ainda em vida por parte do escritor em não querer ver o livro esquecido feito de estandarte capital ou mesmo ser capaz de receber a vaia da crítica ou o seu silêncio, como foi em relação à Terra do pecado. Mas, ao dizer que depois da sua morte fizessem o que quisessem com o achado já abria margens para acreditar que a sua publicação não seria de todo mau grado do escritor. Quero me referir a outros casos em que o autor já morto – e em alguns que a obra já se encontra em domínio público – que uma decisão do tipo, isto é, tornar público aquilo que ele escondeu por toda uma vida ou mesmo disse não querer vê-lo publicado, deixa-se ser integralmente levada por uma equipe editorial que tem, antes do interesse artístico e estético, os claros interesses de lucro sobre o produto; e aqui, incluo na mesma lista os parentes ou os estudiosos da obra de um escritor.

E para todos os lados se multiplicam casos; e para grande maioria deles há exageros. Há brechas na lei de direitos autorais, por exemplo, que dá muita permissividade aos herdeiros para tomar determinadas decisões, como a de publicação de originais. Digo isso porque, sabendo que escritor sempre escreve mais do que publica, sei também que ele tem seus critérios críticos e capacidade de seleção que não estão ao alcance, em boa parte das vezes, dos herdeiros. Para uma situação do tipo, parece sensato que a decisão do autor deveria ser um direito irrevogável; seja o herdeiro quem seja, a decisão do autor é um direito literário e, sobretudo, moral e de respeito à sua memória. Para aquelas situações que não envolvem o nome de herdeiros, nem de instituições designadas pelo autor, talvez fosse justo a existência, no âmbito da justiça, de fóruns especializados que pudessem avaliar, por exemplo, a decisão de publicação. Em todo caso não se deve acreditar que o simples fato de o autor não ter dado fim àquilo que não foi publicado seja sempre uma interpretação direta de que deve ser feito público; nem que deixado a um herdeiro responsável este tenha todo direito de exploração do material.

E, por fim, cumpre ainda pensar em casos mais extravagantes, como os de intervenção dos herdeiros sobre os textos, seja pela reescritura do manuscrito, pela supressão de parágrafos, pela escrita de conclusões aos textos. Todas essas situações infringem diretamente sobre a escrita e não se constituem em trabalhos inéditos como vão sendo propalados pela mídia. Pode ser que a intenção ou tema estejam ali preservados, mas as intervenções, por si só, descaracterizam a originalidade do texto e fazem dele o texto de outro autor. Estou aqui pensando naquela personagem de Jorge Luis Borges no conto “Pierre Menard, o autor de Dom Quixote” que se debruça na fatídica ideia de reescritura do romance de Cervantes e, mesmo que sejam repetidas os pontos e as vírgulas, tudo à sua imagem do texto original, já no fim não será o Dom Quixote de Cervantes, mas o de Pierre Menard. Fato é que, se isso fosse levado a sério não teríamos a imagem que temos, por exemplo, hoje, de Kafka. Já no caso de Saramago, a própria Pilar já deu negativas à mídia de qualquer inédito do escritor, restando apenas as poucas páginas para o último romance em que ele trabalhava no ano em que morreu; no caso de Claraboia, o texto já estava pronto, havia sido encaminhado para edição e as únicas alterações feitas foram as de adequação ortográfica; entre 1950 e 2011, nós, os usuários da língua portuguesa, já passamos por duas reformas.

Mas para que os casos de absurdos sejam freados, uma vez estarmos no auge da moda dos inéditos, muita coisa há que ser revista. O direito de posse não deve ser confundido com o direito de publicação e difusão dos escritos – ainda mais quando se envolve capital sobre. Afinal, propriedade intelectual não se transmite por herança e muitos dos casos em que envolvem dinheiro podem ser enquadrados como apropriação e uso claro de exploração indevida. Que estes escritos estejam acessíveis aos estudiosos e leitores da obra do escritor, é válido, agora que sejam tornados produtos de venda sem o consentimento do autor ainda em vida ou simplesmente pelo interesse financeiro de herdeiros, não; o ideal é que, em última ocasião, seja dado a um fórum de especialistas a decisão. Um trabalho artístico, seja de que natureza for, não pode estar atrelado simplesmente às leis de mercado; como criação intelectual têm em sua natureza outros valores e estes precisam ser preservados.

*Aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (2012, Appris, 280p.) e editor do blog Letras in.verso e re.verso e do caderno-revista de poesia 7faces.



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12 de novembro de 2012
O fim não tem fim, apontamentos sobre O castelo de Franz Kafka

O fim não tem fim, apontamentos sobre O castelo de Franz Kafka



por Tito de Andréa

O castelo
 de Kafka é uma obra que sob muitos aspectos fala de si mesma. É um castelo labirinto que constrói a si mesmo. Monumental e distante objeto, marco de chegada e fim de jornada, mas, no entanto, incompleto, faltoso, fugidio. Intangível, inatingível lugar. Desesperadora busca do centro que nunca está em lugar nenhum.

Há muitos caminhos para chegar ao castelo. Muitas são as suas portas e diversos seus representantes, mas a entrada real estará sempre obstruída, sempre falaremos com mensageiros falhos, sempre pela metade, sempre sem entender tudo, sempre tentando ao máximo, sempre perdendo o fôlego, sempre nos perdendo na brancura de uma neve profunda e profusa. Verborrágico desespero.




Por mais claro que seja nosso objetivo, entrar no castelo, jamais poderemos fazer nada, a não ser seguir em frente. Somos todos K. Ali somos todos: ele, na imanência de algo acontecer, na possibilidade de ver algo concreto e acontecido. Algo que funcione e ratifique a jornada, que complete a peripécia, que coroe o caminho, que faça ter valido a pena... Mas não encontramos nada. Não é possível encontrar. Não sabemos como conseguir algo. Somos estranhos, forasteiros, inimigos da ordem da obra por representarmos outra ordem. Nossos mundos não podem ser conciliados a não ser que pertençamos. E queremos pertencer, mas pertencer para ir embora.

Camus propõe, em O mito de Sísifo, que o objetivo de K. no vilarejo do castelo é poder ser um deles. Toda sua luta seria, então, a de poder fazer parte confortável daquele mundo. Não quer mais ser alienígena àquele mundo. Penso, por outro lado, que K. quer sim ter o direito de ficar, mas apenas para negar esse direito e seguir em frente. Quer receber um sim para dizer o não. O não é o que é negado constantemente a ele. K. não pode negar. Pode, sim, ir embora a qualquer momento, mas pode ir embora como veio, como estrangeiro solitário. Não é sua vontade. K. deseja o pertencimento, deseja ser devorado pelo viver comum, para emergir desse mar como vitorioso ser que agora poderá dizer não.



Como K. estamos nós. É árdua a leitura e complicado o processo de ler O castelo. Sabemos, entretanto, que a única forma de penetrar seu reino é, como diz Blanchot, em O livro por vir, permitir ser tragado e morrer na obra, encarar na obra a única verdade do mundo, mesmo que em colapso. Mesmo que sem ar nenhum. Mesmo que na impossibilidade de qualquer relação. Precisamos nos dar por completo, mesmo quando não temos nada para dar. Mesmo quando não temos ninguém a quem dar nada. Estou aqui, vindo de não importa onde, mas indo para o castelo, exigir o único direito que tenho: o de ir embora.

O castelo é uma meta-obra. Eu sou K., chegado de não sei que parte (se para o gato em Alice no país da maravilha qualquer caminho leva a algum lugar aquele que não tem para onde ir, o ponto de partida é igualmente neutro e sem importância) e indo, atraído magneticamente, como uma mariposa à vela, para o castelo exigir um direito que já tenho, o de partir levando as coisas que já conquistei. É simples. Posso ir embora quando quiser. Fechar o livro e nunca mais abri-lo novamente, assim como K. precisa apenas virar as costas e sair levando consigo o que quiser. Mas somos atraídos por essa força sem nome, essa gravidade avassaladora que me obriga a ir até o fim, até onde der, até que o meu desejo seja garantido, até que justificado pela jornada e devidamente devorado tenha o direito de ressurgir purificado e livre. Mas não há fim n’O castelo, já não poderei partir, pois o livro não acabará, estou atado, caí em uma armadilha, estou amarrado sem nenhum direito.

“ – Como um cão”





Kafka construiu o castelo que narrou. Sua ruína semifuncional que não é capaz de funcionar, mas é capaz de atormentar e dificultar todos os passos. Nos transformou a todos nesses estrangeiros indesejados e nos dá, por final, a agonia de jamais podermos nos naturalizar ou partir. Sou K. e jamais poderei deixar de sê-lo, pois jamais poderei entrar no castelo e jamais poderei ir embora de seu domínio. Minha mão para sempre estará estendida pronta para receber a ajuda que nunca virá, congelada em palavras que não se terminam e atraída para os portões do castelo que nunca verei.

Kafka construiu o castelo que narrou. Sua ruína semifuncional que não é capaz de funcionar, mas é capaz de atormentar e dificultar todos os passos. Nos transformou a todos nesses estrangeiros indesejados e nos dá, por final, a agonia de jamais podermos nos naturalizar ou partir. Sou K. e jamais poderei deixar de sê-lo, pois jamais poderei entrar no castelo e jamais poderei ir embora de seu domínio. Minha mão para sempre estará estendida pronta para receber a ajuda que nunca virá, congelada em palavras que não se terminam e atraída para os portões do castelo que nunca verei.





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