Jucas e Chicos no mundo
Daniel Defoe, no prefácio de sua obra Moll Flanders, antecipa:
"Através da imensa variedade deste livro, apegamo-nos estritamente a uma ideia básica: não incluir, em nenhuma parte, alguma ação perversa que não dê origem a consequências infelizes; não pôr em cena um autêntico vilão sem que acabe mal ou seja levado a se arrepender; não mencionar qualquer ato criminoso sem condená-lo na própria narrativa. e nenhuma ação virtuosa e justa que deixe de receber o seu louvor"
Talvez, apesar das distinções existentes entre a obra de Defoe e de Wilhelm Busch, seja possível aproximar a ideia pertinente em ambos os casos, não deixar que um ato criminoso passe sem trazer consequências a quem o realizou. Talvez seja esse o princípio para se construir uma história a qual objetiva evidenciar uma moral existente.
E a moral do livro aqui em questão talvez não nos tivesse chegado se não fosse o nosso querido poeta parnasiano. Nunca havia passado em minha mente
que Olavo Bilac poderia ser tão desenvolto em traduções. Na realidade, eu nunca
havia lido nenhuma obra traduzida pelo príncipe dos poetas, até que chega em
minha casa um livro colorido, que chama atenção, intitulado Juca e Chico, que mais tarde venho a
saber que originalmente é conhecido como Max
und Moritz, escrito por Wilhelm Busch, autor nascido no que hoje é a
Alemanha. E em meio há tantos despautérios que vimos observando, ultimamente,
este livro surge como uma possibilidade de ensinamento às crianças.
A história, obviamente, vai tratar
de dois personagens, que ficamos a saber, logo na primeira travessura, como são
suas personalidades. Malévolas, poderíamos resumir, mas ao mesmo tempo é uma
personalidade que existe em milhões de crianças, e, até mesmo, adultos. São
sete as histórias contadas em rimas que não deixam nada a desejar, fazendo jus
ao nosso querido Bilac. A obra, muito bem traduzida, tem uma moral ao final,
que dirá bastante sobre a importância deste livro voltado para as crianças.
Juca e Chico são apresentados pelo narrador da seguinte maneira:
Juca e Chico são apresentados pelo narrador da seguinte maneira:
Põem
toda a gente maluca,
Não
querem ouvir conselhos
Estes
travessos fedelhos!
E o que se segue não é nada
agradável, tendo em vista o politicamente correto, que anda vigorando em nossa
sociedade. No início, das duas primeiras
histórias, até cheguei a pensar que uma mãe lendo as primeiras páginas
desistiria de comprar o livro para ler para os seus filhos, porém, como diz
Rodrigo Lacerda, crítico responsável pelo prefácio do livro, “nunca aconteceu de eu ler esse livro para
uma criança, menino ou menina, e ela não se interessar pelo fresco das rimas,
pelo humor da história, pela agilidade da narrativa, e, sim, também pela moral”;
portanto, é quase um ultimatum, deixando claro que não podemos desistir da
leitura.
As travessuras que são contadas, no
total em sete, desde a morte de três galinhas e um galo, através de grãos de
pão, perpassando por explosões e roubos, até a transformação dos dois meninos
em algo inacreditável, faz termos em mente aquele velho provérbio cristão: “aqui
se faz, aqui se paga”. Ficando um pouco evidente que a história possui
influências cristãs. A própria moral do livro contribui para esse pensamento,
quando os personagens falam sobre o que ocorre no final.
Assim, podemos voltar ao texto inicial de Defoe, quando acabar por recomendar a narrativa que ele cria:
"... O livro é recomendado: como obra em que cada uma das partes pode ensinar algo, e de que se podem extrair algumas justas e piedosas conclusões, por meio das quais o leitor se instruirá, se desejar aproveitar-se delas."
Tendo eu uma tendência a
separar obras que possam servir para a formação de meus filhos, aproveitarei, com certeza, o que encontro em Juca e Chico, pois ela é nada mais do que uma dessas
histórias que é preciso conhecer e ter na ponta da língua para quando os nossos
Jucas e Chicos nos pedirem para contar uma aventura intergaláctica ou qualquer
coisa que remonte a um futuro ainda distante. E, ao final da noite, quando as
travessuras se acabarem, e eles fecharem os olhos, poderemos ter “a paz
afinal/ Mais nada. Ponto final!”.



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