Ou é na idade certa ou nunca (?)
Por Marco Severo
Eu
devia ter uns 15 anos quando a Companhia das Letras publicou O mundo de Sofia. Como sempre fui
comprador compulsivo de livros, comprei-o imediatamente, mas deixei-o de lado.
Eu provavelmente estava lendo alguma(s) coisa(s) mais interessante, e encostei
o tijolo por um tempo. Só que, não demorou muito, o livro começou a figurar na
lista de todos os best-sellers Brasil afora, e aí foi que eu perdi totalmente a
vontade de lê-lo. Julguem-me.
Mas
eu devo ter alguma ascendência na família Calcutá (a bênção, Madre Teresa!),
porque minha veia altruísta é forte. Estou pra ver, até hoje, alguém que
empreste ou doe mais livros do que eu. Isso significa que o livro começou a viajar para casas e mais casas, e eu
quase não o via. Mal retornava às minhas mãos, já tinha outra casa para onde
ir.
O
tempo passou, eu li um ou dois outros livros do autor deste livro, mas o que o
tornou famoso propriamente dito, nada. Eu nunca o segurava o suficiente. Se
havia alguém que desejava lê-lo, eu deixava passar a “minha vez”
tranquilo. O fato é que só li o tal O mundo de Sofia mais de dez anos
depois. O livro já tinha rodado nas mãos de metade dos leitores da cidade,
menos na minha. A capa já estava meio desbotada, havia cheiros que eu não
reconhecia dentro dele, uma mancha na lombada, o papel escurecido... mas era o
meu exemplar, que eu comprara estalando de novo mais de uma década antes.
Resolvi que era chegada a hora. Finalmente, eu ia poder voltar no tempo e ler
aquele livro com a ansiedade de todos os que o leram antes, fosse pelo desejo
de conhecer um pouco mais sobre filosofia, fosse pela fama do livro, não
importa: eu ia me colocar no lugar deles, sentir o que sentiram!
Só
que não senti. Achei o livro, no máximo, “bacaninha”. Aliás, compreendi o que
significa a expressão “cult-bacaninha” depois de ler este livro. Não, isso não
está explicado nele. Mas ao lê-lo, subitamente, a explicação se deu. O mundo de Sofia é um livro cultuado por
não sei quantas mil pessoas que nasceram na década de 80 e viram naquele
romance algo maravilhoso, que eu não pude enxergar. E não pude fazê-lo por um
motivo muito claro, que eu quero dizer logo de cara e comento melhor depois: minha época de ler aquele livro já tinha
passado. Já era. Se foi. Tchau.
Acontece
que o livro é sim muito bom. É
enfadonho em muitos momentos; se fosse escrito nos dias de hoje, iam dizer que
o autor tinha recortado e colado direto da Wikipédia, porque parece mesmo um
amontoado retirado de uma enciclopédia e enfiado no meio de um romance.
Inúmeras páginas dão a impressão de se estar lendo a enciclopédia Barsa
guardada naquele quarto aonde nem as baratas vão mais, mas onde já se pode
perceber o mofo da porta.
Esse
não é um mérito apenas do monumental romance de Jostein Gaarder. Afinal, não
estou tratando aqui da incapacidade de fazer uma leitura com olhos mais jovens.
Não é nada disso.
Peguemos
por exemplo aquela turma da geração beat.
Jack Kerouac tem sido supervalorizado há anos. Philip Roth disse, e eu repito:
“Ele não passa de um narrador banal, um eterno adolescente”. E não há mal
nenhum nisso, desde que você não seja mostrado para o mundo literário, ou
vendido para os jovens imberbes como mais do que isso. Ler aquele On the road com mais de vinte e cinco
anos lhe deixará com a sensação de que você passou horas lendo um livro bobo,
de uma incapacidade criativa colossal, de uma pobreza capaz de fazer chorar
trogloditas encontrados em bares no interior do Ceará. Kerouac fez um registro
tosco de coisas que vivenciou, numa época em que era o que quase todo jovem
norte-americano fazia. Se não ir pra estrada, mas extravagâncias com bebida e
carros. Quê que há de tão interessante ou transcendente nisso? Ah, tem uma coisa
realmente digna aí: o marketing feito em cima dele. E só. Faça as contas de
quantos livros dessa tal geração beat
sobreviveram ao tempo, de serem lidos através das gerações, recomendados etc.
Se você juntar títulos o suficiente pra caber nos dedos de uma só mão, dê
graças a Deus. Até os 18 anos, primeiro ano da faculdade, vá lá. Depois disso,
há coisas melhores pra ler e a vida é curta, esqueça-o(s).
Isso
pra não falar do cultuado e mitificado J. D. Salinger e seu O Apanhador no Campo de Centeio. Claro
que a literatura não tem que ser, unicamente, uma via de identificação. Quem
busca a literatura com este fim deveria era fazer análise. Publicado em 1951,
para adultos, o livro ficou popular entre jovens por tratar de temas caros à
adolescência, como rebeldia, raiva e alienação social e pessoal. Custa-me
acreditar que um livro com aquela linguagem tão imberbe tenha sido
originalmente escrito para adultos. E sinceramente, ler esta obra depois dos 21
não deixa de ser válido, mas, assim como acontece com O Mundo de Sofia, o livro perde o brilho. Fica chato, maçante e
pueril.
Outro
que vai nesse mesmo caminho é o Luís Fernando Veríssimo (e boa parte da obra do
pai dele, mas generalizar a obra do Érico seria uma heresia). Você cresceu
lendo As mentiras que os homens contam,
Contos para ler na escola, Todas as histórias do analista de Bagé, ok.
Continuar achando esse cara genial passada aquela idade em que já se supõe um
pensamento crítico, é sinal de porrada na cabeça ao esquiar na neve. Sempre que
me lembro, pergunto-me como este
homem ganhou o prêmio Jabuti ano passado. Como?!
Ah, claro: ele era o segundo lugar que foi elevado a primeiro quando o livro do
Sérgio Sant’Anna foi desclassificado por ter tido algumas partes publicadas
antes e a premiação exigir ineditismo total. Por qual motivo o pessoal da
premiação não averiguou o ineditismo de todos os concorrentes antes de pagar
esse mico é uma questão intrigante, mas como raios é que alguma coisa deste homem é cogitada para uma premiação
é que é o grande enigma da vida. A literatura do Veríssimo filho não passa de
uma bela enrolada de ideias engraçadinhas com um passável senso de atualidade,
sacada pastelão de diálogos e finais pífios. Fica claro que se premia a “marca”
LFV, e não a qualidade literária, obviamente. Mas vá lá que seja interessante
lê-lo em determinado momento da vida (até ali o oitavo, nono ano, no máximo).
Não tem como negar que ele desperta o interesse na leitura, sua escrita é
sedutora. Mas é um tesão casual, diferente de um amor pra vida toda, que exige
outros tipos de atributos que ele não tem nem nunca terá.
Quando
eu entrei pra faculdade, achava o máximo ficar conversando com tantas pessoas
descoladas e interessantes sobre literatura. Eu estava na área de humanas, a
certeza de encontrar gente interessada em ler por metro quadrado era bem maior
do que se eu fizesse matemática ou química industrial, convenhamos. E eu estava
que nem pinto no lixo por isso. Conversa vai, conversa vem, descobri um autor
que aqueles jovens idolatravam: Charles Bukowski. Meus colegas de curso
atiravam-se aos livros do Velho Buk, como chamavam com carinho, intimidade e
reverência. Todos homens, diga-se de passagem, porque eu ainda estou pra
conhecer uma mulher para lê-lo com o mesmo afinco e determinação. Bukowski escreve
bem!, me dirão. Bukowski é poeta!, acrescentarão. E eu concordo. Ele escreve
bem. A literatura dele não é apenas sedutora, não busca apenas aqueles jovens
revoltos, recém-ingressos numa universidade, loucos pra descobrir os prazeres
de uma bronha causada pelo tesão que a literatura é capaz de alavancar. Mas,
igualmente, Bukowski remonta a esse tipo de época, quando se é jovem, anda-se
claudicante pelo mundo em busca do primeiro estágio, arruma-se o primeiro
namoro sério, pensa-se nas noites de boemia como se já se tivesse chegado ao
mundo dos adultos com os dois pés, transa com um ou uma e se deseja todos (ah,
mas isso é atemporal, não é?). E depois, é outra peça de dominó que cai e é
esquecida (embora suas lembranças possam até perdurar um pouco mais). Ler o
Velho Buk mais adiante, só por pura nostalgia, mesmo.
O
fato é que, para o bem ou para o mal, existem livros e autores icônicos que têm
um prazo de validade. A vida não para para que possamos resgatar a leitura
perdida, e quando nos apercebemos, já era.
Da
mesma forma que não se pode evitar um monte de coisa no mundo, porque a raça
humana é desavergonhadamente predadora, e ficou tarde demais porque, bom,
nascemos; não se pode perder de vista aquilo que se tenciona ler. Assim como
ninguém espera compreender Foucault, Nietzsche ou Espinosa aos dez anos – uma
validade dos livros às avessas - , fazer certas leituras depois de certa época,
só pra quem tem tempo de vida sobrando.
E
enquanto não viermos com o prazo de validade impresso em alguma parte do corpo,
como acontece com a maionese ou o milho em conserva que compramos, é melhor não
correr riscos. Sua validade pode terminar amanhã, e talvez você não queira ser
encontrado com um exemplar de O
meu pé de laranja-lima na cabeceira.
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