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21 de agosto de 2012
O sol da noite de João Antônio

O sol da noite de João Antônio



O LiteraturaBr voltou com a minha necessidade de ler. De ser leitor. Após quatro anos viajando por entre tantas estantes teóricas, e vertentes complicadas e outras tantas superficiais, me via apenas lendo livros e mais livros, onde eu me perdia como um iniciante na escrita.
               
A Escrita é um dos meus amores e dela não irei me separar. Assim eu espero. Mas ler, ler, é algo que me fascina e sempre me fascinou. Mas da Leitura eu andava afastado. E voltei agora, com esse blog a ler livros que estavam em minha estante “abandonados”, pedindo carinho. E eu os querendo e querendo mais autores e livros desconhecidos.

Agora estou no caminho certo, ou imagino ser o certo para mim. João Antônio me apareceu, assim, como sem querer, como aqueles bares de sinucas escondidos em meio a uma viela que corta um quarteirão enorme, como esses dessas cidades ferrugens que existem por aí.
          
Nascido na cidade de São Paulo, no dia 27 de janeiro de 1937, João Antônio estreou na literatura brasileira cortando o contrato estabelecido com a sociedade. Resolveu falar, e falou, assim como tantos outros na década de 50.
               
Seu primeiro livro foi Malagueta, Perus e Bacanaço, que logo, logo, estará sendo comentado aqui no LiteraturaBr. Mas vamos falar aqui do seu segundo livro, publicado em 1975, intitulado Leão-de-Chácara, e que, por ventura, intitula também o nome do primeiro conto, que é seguido de outros três: Três cunhadas – Natal de 1960; Joãozinho da Babilônia e Paulinho Perna Torta.

João Antônio despontou na literatura brasileira a partir de seu primeiro livro, que já trazia um pouco das  linguagens dos homens que são oprimidos pela sociedade. Dos homens que falam sem ter que se empapuçar diante as palavras para escrever.

Os homens malandros aparecem mais descarnados ainda em Leão-de-chácara. Aqui se tem um pouco de tudo: de putas, de moleques ladrões, de leões-de-chácara – seguranças de porta de bordel –, de cafetões, de traficantes. A linguagem "marginal" do homem oprimido pela sociedade, que ao contrário do que muitos pensam, pode ser falada e escrita, assim como fez João Antônio.

Claro que ele sabia que não havia sido o primeiro a fazer isso, até cita, em suas entrevistas, que são poucas, que gostava muito de um escritor chamado Fraga, que em breve o traremos aqui, e que no Brasil foi o primeiro a fazer o que ele, João, fazia, mas ninguém no Brasil sabia disso... ou continua sem saber.
               
Antônio
A gente pensa que está subindo muito nos pontos de uma carreira, mas apenas está se chegando para mais perto do fim. E como percebo, de repente, quando estou sozinho![...]
Tenho a impressão que me preguei uma mentirada enorme nestes anos todos.


A frase acima foi dita por Paulinho duma Perna Torta, nome dado ao malandro, que desde os 15 anos aprendeu a viver a vida sob o apadrinhamento de Arrudão. João Antônio nos traz a percepção de vida  de personagens que pensam possuir controle sobre a vida. Há momentos, como esse da frase acima, em que os personagens se veem perante si próprios, mas não se escutam, ou não desejam se ouvir. Paulinho duma Perna Torta é um exemplo vital disso na obra de João Antônio, que mesmo “recheado” por tóxicos, arrodeado de putas, de jogatina e de dinheiro, sabia que ele era melhor do que aquilo, mas que por gostar da vida boa e mansa preferia ser o digno malandro brasileiro.

Nos contos do livro existe sempre a representação de um personagem, que relata a sua forma de viver, no meio desse poço de lama, que se chama sociedade brasileira. Se imaginarmos a época em que viviam, mais ou menos a década de 50, e se visarmos os mesmos personagens nos dias de hoje, pouco mais de meio século depois, veremos que pouca coisa se perdeu e que nós, que também somos culpados, como diria o próprio João Antônio em entrevista, continuamos oprimindo a nossa própria gente e não o Governo, como iludimos a nós próprios.
               
O autor que criou personagens que viviam na sombra e na calada da noite, aparecem como sob um sol escaldante, diante da percepção luzidia que João Antônio obteve ao estudar esses tipos na noite. Lendo suas entrevistas e comentários, no próprio livro e em outros textos, podemos observar que João foi à campo, apesar de já conviver com alguns dos tipos que aparecem em seus livros, para poder tentar criar uma “realidade” mais definida para que o leitor pudesse compreender a vida desses seres, chamados, também de homens.

Aquilo não era vida. (61)

A frase acima é dita por um personagem que vai ao centro, comprar roupas para as cunhadas, que diante de tanta responsabilidade que ele possui com a vida, com ele, só sabem perturbar sua vida e de sua mulher. Daí andar perdido no centro, como um vagante à toa, que não deseja voltar a casa. Ficando a olhar a rua, tentando compreender o complexo que é da vida individual versus a vida coletiva, e pensa:

O que a rua mais sabe fazer é misturar gente. A rua geme, chia, chora, pede, esperneia, dissimula, engabela, contrabandeia. Espirra gente. A gritaria dos camelôs parece um comando. (p.49)

E a partir dessa imagem encontramos nos parágrafos seguintes a mistura das raças, das classes sociais, num mesmo local: a rua. Rua essa que não consegue nivelar, mesmo que estejam todos “unidos”, o pensamento social, o pensamento da sociedade, que se diz estar em contrato vigente para uma melhor harmonia entre todos.


Essas desarmonia se encontra às claras nos contos de Leão-de-chácara, que é exceção por estar sendo contada pela voz do narrador e não da do personagem. Paulinho Perna Torta, como o noticiário continua a fazer, encolhendo seu nome, faz ecoar ao nada, ao infinito nada o que ainda nos dias de hoje acontece: a mídia no final das contas aparenta sempre vencer, pois ela ludibria, encobre, ilude, mente , para a sociedade, quando a mesma deveria ser uma ferramenta de sustentação para uma melhor harmonia da sociedade.

Eu teria muito mais a falar, pois João Antônio, leitor desconhecido para mim, e que me apareceu por essas coisas boas que encontramos na rede virtual, muito ainda tem a dizer. E esperamos que tenhamos muito mais a dizer quando da leitura de seu primeiro livro, que virá em breve.

Fica, então, uma breve apresentação do livro de João Antônio, e que os leitores não esqueçam desse nome, que fora um dos poucos que falou bem da Literatura Brasileira numa época onde só que “prestava” era o que vinha de fora.


Livro: Leão-de-Chácara – João Antônio – Edição CosacNaify. 4ª reimpressão. 2009.
R$ 9,90: COMPRE AQUI
Papel: Paperfect 104 g/m²
*O livro ainda vem com um texto “prefácio” de Tania Macedo. Existe dois apêndices: um texto, intitulado O leitor como parceiro e uma entrevista realizada e publicada pela revista Crítica, em setembro de 1975.


P.S.: Queria eu falar de tantos outros assuntos que me vieram à cabeça lendo João Antônio e lendo entrevistas suas, mas fica a dica aqui de dois textos: um outro texto da Tania Macedo e uma palestra conferida por João Antônio.




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