O sol da noite de João Antônio
O LiteraturaBr voltou com a minha necessidade de
ler. De ser leitor. Após quatro anos viajando por entre tantas estantes
teóricas, e vertentes complicadas e outras tantas superficiais, me via apenas
lendo livros e mais livros, onde eu me perdia como um iniciante na escrita.
A Escrita é um dos meus amores e dela não irei me
separar. Assim eu espero. Mas ler, ler, é algo que me fascina e sempre me
fascinou. Mas da Leitura eu andava afastado. E voltei agora, com esse blog a
ler livros que estavam em minha estante “abandonados”, pedindo carinho. E eu os
querendo e querendo mais autores e livros desconhecidos.
Agora estou no caminho certo, ou imagino ser o
certo para mim. João Antônio me apareceu, assim, como sem querer, como aqueles
bares de sinucas escondidos em meio a uma viela que corta um quarteirão enorme, como
esses dessas cidades ferrugens que existem por aí.
Nascido na cidade de São Paulo, no dia 27 de
janeiro de 1937, João Antônio estreou na literatura brasileira cortando o
contrato estabelecido com a sociedade. Resolveu falar, e falou, assim como
tantos outros na década de 50.
Seu primeiro livro foi Malagueta, Perus e Bacanaço, que logo, logo, estará sendo comentado
aqui no LiteraturaBr. Mas vamos falar aqui do seu segundo livro, publicado em
1975, intitulado Leão-de-Chácara, e
que, por ventura, intitula também o nome do primeiro conto, que é seguido de outros três: Três cunhadas – Natal de 1960; Joãozinho da Babilônia e Paulinho Perna Torta.
João Antônio despontou na literatura brasileira a
partir de seu primeiro livro, que já trazia um pouco das linguagens dos homens que são
oprimidos pela sociedade. Dos homens que falam sem ter que se empapuçar diante as palavras para escrever.
Os homens malandros aparecem mais descarnados ainda em Leão-de-chácara. Aqui se tem um pouco de tudo: de putas, de moleques ladrões, de leões-de-chácara – seguranças de porta de bordel –, de cafetões, de traficantes. A linguagem "marginal" do homem oprimido pela sociedade, que ao contrário do que muitos pensam, pode ser falada e escrita, assim como fez João Antônio.
Claro que ele sabia que não havia sido o primeiro a fazer isso, até cita, em suas entrevistas, que são poucas, que gostava muito de um escritor chamado Fraga, que em breve o traremos aqui, e que no Brasil foi o primeiro a fazer o que ele, João, fazia, mas ninguém no Brasil sabia disso... ou continua sem saber.
Os homens malandros aparecem mais descarnados ainda em Leão-de-chácara. Aqui se tem um pouco de tudo: de putas, de moleques ladrões, de leões-de-chácara – seguranças de porta de bordel –, de cafetões, de traficantes. A linguagem "marginal" do homem oprimido pela sociedade, que ao contrário do que muitos pensam, pode ser falada e escrita, assim como fez João Antônio.
Claro que ele sabia que não havia sido o primeiro a fazer isso, até cita, em suas entrevistas, que são poucas, que gostava muito de um escritor chamado Fraga, que em breve o traremos aqui, e que no Brasil foi o primeiro a fazer o que ele, João, fazia, mas ninguém no Brasil sabia disso... ou continua sem saber.
![]() |
| Antônio |
A
gente pensa que está subindo muito nos pontos de uma carreira, mas apenas está
se chegando para mais perto do fim. E como percebo, de repente, quando estou
sozinho![...]
Tenho
a impressão que me preguei uma mentirada enorme nestes anos todos.
A frase acima foi dita por Paulinho duma Perna Torta, nome dado ao malandro, que desde os 15 anos aprendeu a viver a vida sob o apadrinhamento de Arrudão. João Antônio nos traz a percepção de vida de personagens que pensam possuir controle sobre a vida. Há momentos, como esse da frase acima, em que os personagens se veem perante si próprios, mas não se escutam, ou não desejam se ouvir. Paulinho duma Perna Torta é um exemplo vital disso na obra de João Antônio, que mesmo “recheado” por tóxicos, arrodeado de putas, de jogatina e de dinheiro, sabia que ele era melhor do que aquilo, mas que por gostar da vida boa e mansa preferia ser o digno malandro brasileiro.
Nos contos do livro existe sempre a representação de um
personagem, que relata a sua forma de viver, no meio desse poço de lama, que se
chama sociedade brasileira. Se imaginarmos a época em que viviam, mais ou menos
a década de 50, e se visarmos os mesmos personagens nos dias de hoje, pouco
mais de meio século depois, veremos que pouca coisa se perdeu e que nós, que
também somos culpados, como diria o próprio João Antônio em entrevista, continuamos
oprimindo a nossa própria gente e não o Governo, como iludimos a nós próprios.
O autor que criou personagens que viviam na sombra
e na calada da noite, aparecem como sob um sol escaldante, diante da percepção
luzidia que João Antônio obteve ao estudar esses tipos na noite. Lendo suas
entrevistas e comentários, no próprio livro e em outros textos, podemos observar que João foi à
campo, apesar de já conviver com alguns dos tipos que aparecem em seus livros,
para poder tentar criar uma “realidade” mais definida para que o leitor pudesse
compreender a vida desses seres, chamados, também de homens.
Aquilo
não era vida. (61)
A frase acima é dita por um personagem que vai ao
centro, comprar roupas para as cunhadas, que diante de tanta responsabilidade
que ele possui com a vida, com ele, só sabem perturbar sua vida e de sua mulher.
Daí andar perdido no centro, como um vagante à toa, que não deseja voltar a
casa. Ficando a olhar a rua, tentando compreender o complexo que é da vida
individual versus a vida coletiva, e pensa:
O
que a rua mais sabe fazer é misturar gente. A rua geme, chia, chora, pede,
esperneia, dissimula, engabela, contrabandeia. Espirra gente. A gritaria dos
camelôs parece um comando. (p.49)
E a partir dessa imagem encontramos nos parágrafos
seguintes a mistura das raças, das classes sociais, num mesmo local: a rua. Rua
essa que não consegue nivelar, mesmo que estejam todos “unidos”, o pensamento
social, o pensamento da sociedade, que se diz estar em contrato vigente para
uma melhor harmonia entre todos.
Essas desarmonia se encontra às claras nos contos
de Leão-de-chácara, que é exceção por
estar sendo contada pela voz do narrador e não da do personagem. Paulinho Perna
Torta, como o noticiário continua a fazer, encolhendo seu nome, faz ecoar ao
nada, ao infinito nada o que ainda nos dias de hoje acontece: a mídia no final
das contas aparenta sempre vencer, pois ela ludibria, encobre, ilude, mente ,
para a sociedade, quando a mesma deveria ser uma ferramenta de sustentação para
uma melhor harmonia da sociedade.
Eu teria muito mais a falar, pois João Antônio,
leitor desconhecido para mim, e que me apareceu por essas coisas boas que
encontramos na rede virtual, muito ainda tem a dizer. E esperamos que tenhamos
muito mais a dizer quando da leitura de seu primeiro livro, que virá em breve.
Fica, então, uma breve apresentação do livro de
João Antônio, e que os leitores não esqueçam desse nome, que fora um dos poucos
que falou bem da Literatura Brasileira numa época onde só que “prestava” era o
que vinha de fora.
Livro: Leão-de-Chácara
– João Antônio – Edição CosacNaify. 4ª reimpressão. 2009.
R$ 9,90: COMPRE AQUI
R$ 9,90: COMPRE AQUI
Papel: Paperfect 104 g/m²
*O livro ainda vem com um texto “prefácio” de Tania
Macedo. Existe dois apêndices: um texto, intitulado O leitor como parceiro e uma entrevista realizada e publicada pela
revista Crítica, em setembro de 1975.
P.S.: Queria eu falar de tantos outros assuntos que
me vieram à cabeça lendo João Antônio e lendo entrevistas suas, mas fica a dica
aqui de dois textos: um outro texto da Tania Macedo e uma palestra conferida
por João Antônio.


