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20 de novembro de 2014
FUTURE

FUTURE



por Jeovane Cazer


"O futuro não é previsível, é preciso resistir e construir o improvável."
Edgar Morin
                  
I
                       
Hoje eu vi algo que me deixou intrigada.
Li a mensagem abaixo nas mensagens públicas e fiquei muito curiosa...
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J Birthday!!
Dear Future
Parabéns pelos seus 35 anos, amigo! São quase 10 anos após esse final de tarde calma de quinta-feira, sentando em minha mesa e escrevendo essa carta , enrolando até dar o horário de sair do trabalho. Hoje eu ainda tenho que passar no shopping pra comprar o presente do dia das mães.  Como será que você está aí no futuro? Onde você estará, com quem?
É! Pode ser que, agora trintão, esteja mais conservador.  Conquistou objetivos na vida, casou (aproveitou a vida? Conheceu a mulher da sua vida?), teve filhos  - eu não queria ter filhos antes de viajar o mundo todo! No momento, ainda não encontrei alguém com quem eu sinta ter uma conexão. Alguém com quem eu queira dividir bons momentos da vida. Que mexa comigo, com quem eu me identifique pra valer. Se ainda não a encontrou, bastar ter paciência e apostar em você, que o universo irá conspirar a seu favor. Eu sei, às vezes  ele parece contra. Mas eu lhe digo, é impressionante como a vida pode mudar quando a gente muda um pensamento...

Acho que no futuro – o futuro do seu ponto de vista – as pessoas ficarão juntas, por algum tempo, só enquanto estiverem interessadas e apaixonadas uma pela outra, e ponto. Quando acabar, por que dizer que “não deu certo”? Claro que deu certo. Encontrar uma pessoa e achar uma conexão com ela é dar muito certo. Se acaba, é porque a relação deu o que tinha que dar, por assim dizer. Ninguém é feliz pra sempre.

Não canso de dizer, e você sabe disso muito bem: não deixe de aprender, estudar, ler, viver as oportunidades que aparecerem pra você. Ontem mesmo vi num livro que estou lendo uma frase que me chamou a atenção: Don’t despise your inner world (algo como “não despreze o seu mundo interior”). É de uma filósofa norte-americana chamada Martha Nussbaum. Fica com isso caso você tenha se perdido durante esse tempo. Quem sabe, o eu do passado não esteja salvando  o eu do futuro agora no seu presente? Louco isso rs

Mas eu acho que o tempo é uma invenção... não existe o passado, o presente e o futuro...o que existe é o hoje, o agora, não é?
Então, vou ficando por aqui. Espero que esteja vivo e bem.

Feliz!?
Deixa eu voltar pro passado, que lá é o meu lugar...
Grande abraço e sucesso!
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Eu li sua carta hoje (11/02/2015). Fiquei muito curiosa para saber quem é você.  Hesitei um pouco, mas finalmente decidi escrever.
Pode parecer loucura minha, mas acho que eu já te conheço... Será muita sorte se ler a minha mensagem - são 2.950.000 cartas!! Se achar a minha entre milhares delas, é muita coincidência.
Então, caso isso ocorra e você encontre essa mensagem, escreva pra mim ok!? lubella28(...)gmail(...)com

Até breve! 
:)



II 

Dear Future,

Escrevo esta mensagem dia 26/04/2020 (15: 43), um domingo de sol e calor. Faz quase três anos que recebi o seu último email. Estou em casa, no meu quarto, recostado na cama e digitando esta carta. Minha filha está na sala jogando Binary Ghost.

Gostaria de dizer muito em poucas palavras.

Levei um susto quando recebi sua resposta, porque achei que você não responderia. Primeiro, pensei que o e-mail não existia (só verifiquei o contrário quando o que eu mandei não voltou). Depois, achei que poderia ser o e-mail de qualquer outra pessoa.

 Sei lá, faz quase seis anos de sua mensagem no Future; pelos poucos e-mails que trocamos em 2017 dá para ver que sua vida mudou muito desde aquela mensagem de 2014.

Ontem, depois desse tempo todo, mandei um e-mail só pra testar. Voltou com mensagem de erro: não foi possível entregar sua mensagem - caixa cheia.

Então, decidi escrever essa carta mensagem para o futuro --- se algum dia, em algum lugar, você chegar a ler isto ---- para lhe dizer que eu não sou a pessoa que você estava procurando na sua mensagem de 2014.
Entretanto, eu a encontrei dentre milhões de cartas, três anos depois, e isso me torna, de fato, essa pessoa. Você mesma disse que seria muita coincidência.

 Eu vi que ali havia uma conexão, por isso lhe escrevi logo em seguida. Na verdade, fiquei pensando se também a sua carta original não teria sido inventada - a Internet é o lugar perfeito para a ficção.

Provavelmente nunca saberei o que aconteceu de fato. Quem é você e quem sou eu nessa trama maquinada pelo tempo.

Bem, vou parar aqui: sobre aquilo que não se pode dizer, melhor guardar silêncio.

Se algum dia se deparar com essa carta, me conta sobre o futuro, eu quero muito saber sobre o futuro. Se fosse possível enviar um e-mail para o passado...quem sabe isso seja possível aí do futuro.
Assim, estou esperando sua resposta aqui em 2020.
Será que ainda podemos reinventar essa história?

Então é isso.
Se cuida.

Para lubella28


                               
III
Dear Future,
Li a sua mensagem acima no dia 01/01/2033, sábado, início da primeira noite do ano novo. Passei a virada do ano aqui em Londres, porque esta semana estarei fazendo um treinamento para o meu trabalho. Viemos para cá porque a base de operações da empresa na Europa fica aqui na The City. Estamos aperfeiçoando um sistema de spidering com drones para o nosso mecanismo de busca, concorrente da líder.

Estou no hotel, no meu quarto, e acabo de ouvir uma música velha chamada “Drive-In Saturday” de David Bowie do ano 1973! O locutor explicou, em inglês, que a música se passa em 2033, como o próprio Bowie afirmou uma vez. A letra narra um mundo onde as pessoas desaprenderam a se reproduzir e vão ao drive-in assistirem a filmes pornôs antigos pra aprender como se faz! rs

Se quiser ouvir, pede drive-in saturday + david bowie. É som das antigas, mas eu gostei do ritmo e da melodia. Tem guitarra. Lembro do meu pai ter uma dessas em casa...

Quanto à letra da canção, a “previsão” acerta até certo ponto. A pornografia está em todas as partes. O autoprazer  é a grande onda. Há videogames de realidade virtual que proporcionam prazer imediato com a pessoa que você imaginar. Consegue-se isso através da estimulação do sistema nervoso. Muitos pensam que vale mais um bom sexo na máquina do que uma transa ruim com o parceiro e todas as consequências ligadas a esse tipo de envolvimento real. Outras só conseguem chegar ao clímax sozinhas.

Claro, muita gente ainda prefere o modo natural. Eu, pessoalmente, gosto mais do contato humano, pele na pele. Sexo é 50% corpo e 50% cabeça.  Rejeito a objetificação dos corpos. Bem, ainda sabemos nos reproduzir, e muito. A população mundial cresceu dois bilhões desde o começo do século – graças, sobretudo, à Índia.

Em 2033, há gente velha e com medo do céu, olhando para cima, onde hologramas e drones pairam no ar. Temem que algum lixo espacial caia sobre suas cabeças...o último causou um grande estrago no Canadá e deixou todo o mundo assustado, mas a maioria se desintegra no choque com a atmosfera. Ouve-se falar muito em meteoros, ameaçando a Terra com uma hecatombe. Sempre tem os malucos que preveem o fim do mundo. Esse ano acaba de novo... Enquanto isso, meus olhos perscrutam os céus por discos voadores rs

Em 2035 a CNSA planeja lançar uma missão espacial tripulada à Marte - os americanos estão ficando mesmo pra trás.
Viagens físicas no tempo só na ficção, por enquanto.
Estou programando esse e-mail para entrega em 2083. Como será o futuro daqui 50 anos? Ainda estaremos por aqui ou iremos estragar tudo!?

Como eu estarei? Espero que vivo, com rosto e corpinho de 30, se conseguir pagar o tratamento :P

Então, vou ficando por aqui, no passado. Deixei uma pizza calabresa imprimindo - é o que tenho pra jantar nesta noite chuvosa, longa e solitária...

Um grande abraço e até o futuro!
P.S. Esse David Bowie até que era legal. Parece alguém que eu vi em Camden Town. Veja o vídeo da Life on Mars. Pergunta por  “video - life on mars – david bowie”. 
                                                             In memoriam of Luciana Belaqui
                                                                                Com muitas saudades
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Observação:
<<< Mensagens enviadas ao futuro poderão perturbar o espaço-tempo continuum >>>


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17 de julho de 2014
O Elevador Social

O Elevador Social



por Jeovane Cazer

Oito horas de trabalho ordinário e quase três horas de engarrafamento depois, Pablo chegou ao prédio onde mora e chamou o elevador social.

Às vezes, o elevador estava vazio, e Pablo subia sozinho no silêncio até o 22º andar. Às vezes, tinha gente. Na maioria das vezes em que tinha gente, havia uma pessoa. Davam-se boa noite e, depois, cada um olhava pro seu canto. Pablo preferia assistir os números vermelhos dos andares mudarem no visor digital. Muitas vezes, as mulheres que entravam no elevador com ele também gostavam de olhar para o visor digital. Ele gostava da ideia de compartilhar com elas o olhar em direção ao visor. Era bom pensar que era um lance só entre ele e as mulheres.
Havia um espelho; era uma opção olhar para o espelho, mas quase sempre o outro tinha a mesma ideia de olhar para o espelho, e iam acabar olhando um para o outro pelo espelho – nem pensar. Também havia o truque de mexer no celular para não ter que olhar para canto algum nem para cara de ninguém.

 Quando havia duas pessoas dentro do elevador, geralmente era um casal. Pablo achava um saco quando começavam a conversar entre si como se ele não estivesse ali, sobre coisas comezinhas do dia a dia do casal, passando pela conta de luz que o outro não pagou, a gestos de amor – enfim sós, ele, o marido e a esposa entre quatro paredes.

E quando o casal tinha uma criança, ela encarava Pablo como se nunca tivesse visto outro ser humano além dos pais; ele se sentia como um ET ou, quando a criança ria da cara dele, um palhaço, o que para Pablo era estranho e irônico, porque ele sempre achou palhaços figuras tristes.

O pior era quando ele dizia ‘boa noite’ a alguém no elevador e a pessoa passava a contar toda a sua vida –a própria definição de um chato, pensava Pablo.

Dessa vez, o elevador abriu e havia apenas uma mulher lá dentro. Era morena, aparentava ter entre 27 e 30 anos, tinha cabelos lisos que batiam nos ombros, castanhos claros e repartidos ao meio, olhos grandes e amendoados, a boca não era pequena nem grande, os lábios grossos e sem batom – estavam um pouco ressecados nos cantos. Vestia uma camisa de abotoar branca de algodão, com o primeiro botão aberto deixando aparecer o início do colo queimado de sol, e uma saia longa preta com bordados que descia um palmo abaixo dos joelhos.

A mulher disse apenas o protocolar “boa noite” e ficou junto à porta, cabeça baixa, com uma sacola branca de tecido que segurava pela alça com as duas mãos, com esmalte preto, rente ao abdome. No braço esquerdo, havia um relógio analógico de pulso azul e um ornamento com fio de embira amarrado três vezes ao redor do braço com nó bem feito.

Quando a porta do elevador se fechou, Pablo notou que ela não apertara nenhum andar. Ele achou estranho, mas ficou quieto e abaixou a cabeça olhando para os pés da moça: ela calçava sandálias rasteiras de cor preta com tiras incrustadas de tachas metálicas em volta dos pés. Na lateral do pé, havia a tatuagem de um ramo de flor que subia em formas curvilíneas um pouco acima do calcanhar até encontrar o desenho de uma borboleta na vertical, como se estivesse pairando no ar, com asas de escamas internas em azul celeste e as externas em preto intercalado com áreas sem tinta.

Suspendeu os olhos e encontrou os olhos dela o espreitando. Então, com os olhos vidrados nele, a mulher se aproximou de Pablo, soltou a sacola no chão e o esbofeteou com a palma da mão bem aberta e estatelada na face esburacada de cicatrizes de espinhas e áspera de barba mal formada crescendo. Com o impacto, os óculos de armação retrô nerd de Pablo caíram no chão. Ele ficou atônito, sem reação. Em seguida, ela agarrou os cabelos ondulados, negros e oleosos de Pablo, puxando com toda força, enquanto ele se arqueava e gritava, paralisado pelas mãos femininas manufaturando a dor. Ele, que veio ao mundo pela dor, não segurou a estranha nem pediu que ela parasse. Pensou na agonia daqueles que arderam nas chamas da inquisição, e viu que a sua dor era fichinha perto disso – outro dia mesmo, experimentou a sensação de tocar, por acidente, a ponta do dedo numa panela ardente no fogão, e com certeza não suportaria aquele contato com o calor por mais de 1 segundo.

Pensou no ritual de flagelo da crucificação dos romanos, e achou que sua aflição era nada em comparação. Na verdade, já agradecia àquela mulher por não ser queimado na fogueira nem estar pregado na cruz. Pablo apenas sentia a dor como algo que devesse experimentar, como uma revelação ou rito de passagem.

Aquilo durou uns doze andares, até que ela largou o cabelo dele e o beijou. Forçou a boca contra a dele, abrindo espaço com a língua entre os lábios de Pablo, que cedeu finalmente ao toque úmido e quente da língua da desconhecida. O gosto agridoce da boca da estranha – mais cedo, ela tinha comido chocolates e fumado cigarros – se misturou ao cheiro extenuante de hidratante corporal que exalava da pele da mulher. Sugavam a boca um do outro com pressa e perigo.

Em seguida, ela afundou o nariz no pescoço dele, respirando o ar que pairava no vão entre suas narinas e os poros do pescoço branco e úmido de Pablo, passando os braços ao redor do abdômen dele e o apertando contra o corpo dela bem forte. Ela emitia um gemido de cólera enquanto enfiava as unhas na carne de Pablo sob a blusa dele, como se quisesse arrancar suas costelas, uma resposta ou mesmo sangue. Pablo fazia um som surdo de dor e pensava naqueles que tombaram com grandeza nos campos de batalha sangrenta de Montese, na II Guerra Mundial, e no modo como eles enfrentaram a dor e a morte numa guerra que eles não provocaram. Contudo, entre a guerra e o tédio, alguns preferem à primeira. Naquele momento, a coragem e a resignação de Pablo eram a mesma.

Ele olhou os números dos andares passando: 19, 20, 21. 
Enfim, o visor mostrava o número 22 – o último andar.
A porta se abriu.

Pablo olhou para baixo e viu os pés de tamanho 37 dela numa sandália rasteira preta com tiras incrustadas de tachas metálicas. Tinham o formato romano, em que o primeiro e segundo dedos têm o mesmo comprimento e, a partir do terceiro prodactilo, o tamanho dos dedos vai diminuindo progressiva e harmoniosamente. As unhas estavam pintadas com esmalte Hits preto. Pablo levantou os olhos para a mulher, que estava junto à porta do elevador de cabeça baixa, com uma sacola de tecido branca que segurava pela alça com as duas mãos rente ao abdômen. Pablo olhou para o visor digital que mostrava P em vermelho escuro. Baixou os olhos no painel de números dos andares e viu que as bordas dos botões 8 e 22 estavam fluorescentes em vermelho. A porta se fechou e subiram no silêncio. Pablo checou o celular, mesmo sem rede, com medo de encarar a estranha... 


Jeovane Cazer - Reside em Brasília, tradutor - graduado em Letras-Tradução pela Universidade de Brasília.
Gosta de literatura e de poesia pós-moderna. 
Fala pouco, por isso escreve muito. 
Mantém um blog com seus textos: http://www.recuo.wordpress.com


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30 de maio de 2014
Um índio & 1500, Porto Seguro

Um índio & 1500, Porto Seguro

por Jeovane Cazer


Um índio

(Tempo presente) 

Olha, um índio!

Gritava a criança, deslumbrada com o exotismo da cena, apontando o índio todo pintado de azul e vermelho com coque típico na cabeça sentado e conversando com um senhor de idade num banco de tábua rústica exposta à venda na feira da Torre de Brasília.

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1500, Porto Seguro

Olha, um índio!

Alarmava o capitão da Armada de Cabral, Nicolau Coelho, diante da visão do bravio, que se aproximava da costa, sem roupa, meio avermelhado, arco e seta nas mãos. Ao que tudo indicava, era o dono daquelas terras, pelo menos até aquela data.

Iberê, que estava ali junto dos seus, ficou assombrado com o quadro enorme que seus olhos tênues mal conseguiam encerrar - casas gigantescas de madeira, de onde suspendia um pano grande com tinta vermelha, que flutuavam sobre as águas trazendo aqueles homens pálidos com pelo denso no rosto vestindo roupas pesadas e estranhas. Inclinou a cabeça lateralmente com o olhar arrebatado para o homem branco. Pensou se esse seria o deus sol Maíra que chegaria sobre as ondas do mar, do qual há tempos profetizava o pajé Apuã...



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