Seduzido pelo título
Você julga um livro pela capa?
Provavelmente sim, mas vai dizer que não, porque a
pergunta acima também pode ser lida como metáfora, e em tempos em que o limiar
entre o aceitável e o condenável são muito tênues não convém dizer que as
aparências são um fator determinante pra você fazer isso ou aquilo – e o
adjetivo mais bonito que você corre o risco de ser chamado(a) é de fútil.
Mas há um fator que tem o hábito de me atrair para um
livro, e que até hoje nunca me trouxe arrependimentos: o título.
Se você é daqueles que entram numa livraria como quem vai
comprar a lista de material escolar dos filhos, então você seguramente não
entenderá nada com nada do que eu quero dizer. Mas se, ao contrário, você é
daqueles que vai a uma livraria como quem vai a um lugar onde sabe que vai
rever velhos amigos e onde existe a real possibilidade de fazer novos, uma espécie
de nirvana na terra, então o caminho é por aqui:
Existem títulos os mais variados e para todos os gostos.
Há aqueles que causam [uma certa] indiferença, como, por exemplo, aqueles que
têm um artigo e uma palavra só. Por que um título como A Cabana chamaria a atenção de qualquer ser vivente, não fosse a
(má) fama que ele teve? Outros, já dizem a que vêm, como os títulos voltados
para jovens, excluindo leitores fora desse nicho. E, dependendo do leitor,
alguns podem causar repulsa, despertar o afeto, cantar, desde a capa, alguma
beleza. E há aqueles que arrebatam, simplesmente. Sem maiores explicações.
O último que me seduziu como uma sereia foi o título de
um livro francês, em sua edição em espanhol: La gente feliz lee y toma café (As pessoas felizes leem e tomam café),
de Agnes Martin-Lugand. De quem, aliás, eu nunca tinha tido a mais singela
notícia. Mas como não querer ler imediatamente
um livro com um título desses? Comprei sem nem saber do que se tratava, e só
quando o exemplar chegou foi que eu fiquei sabendo que se trata de uma história
meio estilo David Foenkinos (outro francês que une humor e tragédia numa obra
só e que recentemente teve um romance seu, A
Delicadeza, transformada num filme com Audrey Tautou) e que o romance
começa com uma epígrafe do texto Luto e
melancolia, do Freud. Huuuum...
instigante.
Antes disso, ano passado, a espanhola Rosa Montero tinha
me fisgado com o seu La ridícula idea de
no volver a verte (A ridícula ideia de não voltar a te ver), que é um
título a um só tempo longo, belo e intrigante. E poucos meses depois, comprei
também El frio modifica la trayectoria de
los peces (O frio modifica a trajetória dos peixes). Sabe-se lá por que,
mas achei esse título lindo, e este foi outro que comprei pela internet sem
fazer ideia do que se tratava.
Mas o título de uma obra não nos chama a atenção apenas por
aquilo que consideramos belo esteticamente na junção de uma palavra com a outra.
Os três títulos mencionados acima, provavelmente, tornaram-se mais bonitos
porque esbarraram pelos meus olhos em espanhol (que, apesar disso, é uma língua
pela qual não tenho lá muito apreço). Assim é que, algumas vezes, um título
também pode chamar a atenção pela sua musicalidade, pelo seu senso poético. Dentro de ti ver o mar, da portuguesa
Inês Pedrosa, é um exemplo disso. O título parece letra de fado – e é mesmo.
Um que me chamou a atenção porque me pareceu meio
paradoxal (inicialmente), foi A Elegância
do Ouriço, da francesa Muriel Barbery. De onde ela tirou que um ouriço tem
elegância? Aí você acha aquela arrumação entre adjetivo e substantivo sem nexo,
pega o livro, começa a ler e de repente, se descobre diante de um dos melhores
livros da literatura contemporânea. De qualquer país.
Quer um que chama a atenção logo de cara justamente porque faz você ficar entre
uma reação de nojo e um ponto de interrogação? Secreções, Excreções e Desatinos, livro de contos do Rubem Fonseca.
O que esperar de um livro de contos do Rubem Fonseca com um título desses?
Escatologia? Histórias envolvendo problemas psiquiátricos? Fica a dica para os
curiosos.
Claudia Tajes, escritora gaúcha que vem ganhando mais e
mais os holofotes nas letras nacionais, por sua verve brilhante, seu humor
cortante e crítica nem sempre tão velada sobre determinadas características do
povo brasileiro, tem dois títulos que eu adoro: A vida sexual da mulher feia e Por
isso eu sou vingativa. O primeiro é aquele tipo de livro que te faz pensar:
isso é autoajuda? Não, não. Peraí.
Qual a mulher feia que iria comprar o livro, sendo aparentemente sacaneada logo
de cara? Então não, descartada a hipótese. É um livro de piadas? Também não,
mas muito bem humorado, e extremamente contemporâneo. O outro, que só pelo
título já diz a que veio, intriga logo de cara, também. Por que será que ela é vingativa?, pode se perguntar o leitor. E só
lendo, mesmo. Ou vendo a série da TV. Mas nada como ler o livro, claro. De
qualquer forma, o que importa: ambos os títulos são uns achados.
Tem também aquele tipo de título que você lê, não entende
nada, lê de novo, aí é que não entende nada mesmo. Lê a orelha do livro, a
última capa, e o título continua a fazer sentido ZERO, mas mesmo assim você vai
lá e compra o livro porque, afinal, se o título não faz sentido, alguma coisa ali dentro deve fazer, para
aquele livro ter saído com mais de trezentas páginas! É ou não é? Exemplos.
Pois bem: Coisas do diabo contra, de
Eromar Bomfim. Não tem uma continuação depois do “contra”. Não é algo como Coisas do diabo contra o grilo andaluz,
o que continuaria não fazendo sentido, mas pelo menos seriam coisas do diabo
contra alguém (ou algo). Mas não. E
mesmo assim, ali está o livro, na minha prateleira. Mas nada supera um livro
que andou circulando bastante nas resenhas mais... “alternativas”, digamos (ou
nem tanto): As visitas que hoje estamos,
de um escritor que fez questão de assinar o livro com seu nome completo, faltou
só RG e CPF: Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira. Não faço ideia de sobre o que
seja o livro (e parece que quem leu também não, o que contradiz minha teoria de
que, se o título não faz sentido, o miolo deve fazer. Quem sabe, nesse caso,
não foi a orelha que fez?). De toda forma, como não querer ler uma obra cujo
título te faz se sentir um leitor de Paulo Coelho, sem a menor capacidade de abstrair, entender o que está nas entrelinhas,
compreender o que não foi dito? Claro que a gente vai lá e compra. Não lê, mas
compra.
Outros livros nos pegam pela poesia que carregam em seus
títulos. Sente só que coisa linda: Reino
dos bichos e dos animais é o meu nome. Não dá vontade de correr e abraçar a
Stela do Patrocínio, que é a autora? Mas nem adianta querer, porque ninguém
abraça defunto (pelo menos que eu saiba, aqui por essas bandas). Stela era uma
escritora confinada a um hospício, e teve seus poemas gravados em fita e depois
transcritos, já que ela mesma nunca escreveu uma só linha. Mas só pelo título,
você quer logo a obra. Foi assim comigo.
Nessa mesma linha, tem um de um escritor que eu adorava
na adolescência, o Dean Koontz. O livro? Os
caminhos escuros do coração, olhaí, que coisa bela. E é mais poético ainda
no original: Dark rivers of the heart.
Lá não são “caminhos”, são rios. Quebra
qualquer insensibilidade e faz o leitor querer se jogar na leitura.
Outros fazem o leitor querer ler por possuírem títulos
que, além de intrigantes, parecem questionar alguma coisa: Como vivem os mortos, de Will Self; A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan; Teoria geral do esquecimento, do Eduardo Agualusa e A insustentável leveza do ser. É de se
pensar, de cara, que não são leituras tão “simples” assim. Mas que, ao final da
leitura, algo te foi acrescentado.
Seja lá o que nos leve a colocar as duas mãos numa obra e
querermos adquiri-la, ou pegá-la emprestado, o que importa é continuarmos
lendo, fazendo parte do elo transformador da leitura.
De todo modo, dentre tantos milhares de livros publicados
por ano, é sabido que, hoje em dia, o apelo comercial de um livro tem de estar
cada vez maior. Se o título ajudar a ser um chamariz nesse processo, tanto
melhor.
E vamos combinar que, assim como em pessoas, um título
que nos diz algo interessante é muito mais sedutor do que uma capa que só
revela, unicamente, ela mesma, ou seja: a aparência. E de aparência por
aparência, os photoshops, as revistas direcionadas a determinados públicos, a
vida, já estão cheios.

