Doce Amianto
por Tito de Andréa*
Amianto é uma esfinge. “Decifra-me
ou me devora”, me disse Amianto. Não sei se fui capaz de um ou de outro.
Amianto é indecifrável. Seus olhos de sofrimento eterno e sua tentativa
incansável de se manter erguida não passaram despercebidos. Sua trajetória circular
e suas doze mil quedas no caminho não passaram despercebidas. Amianto é doce.
Sempre doce. Muito doce.
Poder-se-ia confundir a história de
Amianto com uma história de amor. Para mim, certamente, trata-se da história da
busca do amor, das tangentes do amor, da periferia do amor. O amor aparece
aqui, logo ali o amor é a lama. O amor aparece aqui, logo ali o amor é o beijo
em outra, tão outra que poderia ser a própria Amianto. Ou é Amianto que é tão
outra que poderia ser a que está ali agora? Amianto é a procura do amor.
Destrutivo caminho de pedras.
Doce Amianto conta a história de alguém em busca, em busca de
tudo. Não consegui me iludir pelos trejeitos adocicados e exagerados de
Amianto, ali está alguém que vive no mundo da extrema solidão. É um filme de
extrema solidão. Doce Amianto Solitária. A busca pela completude,
talvez seja o que a mova. Talvez seu sentimento de dever amar e ser amada seja
o que a mova. Talvez sua desesperadora solidão a leve a qualquer lugar em que
ela saiba certamente onde e por quê. “Decifra-me”, diz a Esfinge Amianto.
“Devora-me”, diz a Esfinge Amianto. Sempre com o mesmo tom. Sempre sozinha.
Nunca decifrada. Nunca totalmente devorada.
Talvez o grande peso esteja nos
gestos às vezes artificiais de Amianto. Em sua natural canastrice, em seu
comportamento espalhafatoso de diva. Seus gestos em tentativa de descontração.
Seus gestos em tentativa de conforto. Seus gestos-tentativa, nunca acertando
alvos, errando-os em errante trajetória. Sua amiga morta e única companheira. Única
a saber de Amianto quem é. A única a oferecer companhia. A única a estar lá,
Blanche, querida…
Mas não consigo pensar Blanche como
um delírio. Semi-delírio, talvez. Blanche acontece com potente imagem poética.
Blanche é real em Amianto. Blanche segue sua própria trajetória, se configura
como outra, a única a quem Amianto poderia se apegar. Blanche está morta.
Talvez em sua morte mais presente do que antes. Sempre ali, a fada madrinha, a
dizer o que se quer ouvir. Blanche, dançarina ao sol. Presente. Mas todos os
espíritos seguem seu caminho e até mesmo Blanche deve ir. Agora Blanche é vento
e estará em toda parte. Amianto está mais só do que nunca, mas eternamente
acompanhada. Aquilo que se ganha jamais poderá ser perdido. Mas não há otimismo.
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| Amiando e Blanche |
Não há otimismo algum, ali. O fim,
o encontro, o reencontro… Sabemos não poder confiar. A história não termina
ali, não termina nunca. Estará Amianto em seu caminho, com seus fantasmas, com
sua solidão e os cães da rua passando em frente à sua porta, eventualmente
entrando, sempre saindo, em círculos, à esquerda, à esquerda, à esquerda, à
esquerda. Mas estamos sabidos. Ora o amor: ora a lama. “Decifra-me…
Devora-me…”. Oh…
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O texto foi publicado anteriormente no site SuburbanaCo.
*Tito de Andréa é escritor e performer, em 2013 publicou o
livro O ano da serpente, pela editora Penalux. Nasceu em 1989, em Salvador, na
Bahia. Mudou-se em 2000 para Fortaleza onde mora até hoje. Nasceu de dez meses
e lutou até o fim.



