O que é a literatura brasileira contemporânea?
por Ricardo Russano
Há algum tempo, um ótimo texto do Marcelo Coelho – que até a chegada do
Michel Laub era o único colunista da Ilustrada que eu me animava a ler – sobre
a Granta fez com
que eu me interessasse muito sobre o que é produzido na literatura brasileira
atualmente.
Não discutirei a coluna longamente
aqui, mas no que tange aos textos literários presentes na antologia, a opinião
do colunista é favorável àquilo que ele vê – e com o que eu concordo em partes
– como uma forte mudança na temática literária dos jovens autores brasileiros:
“Saem
de cena os motoqueiros atropelados, o pequeno traficante morto pela PM, o
barraco, o boné e o “busão”. Também desaparecem as estratégias do choque, do
surrealismo e do grotesco. Nada de anões búlgaros decapitados na fila do INSS,
de contorcionistas lésbicas entaladas no vaso sanitário, de papagaios
cocainômanos atuando em filmes pornô de baixo orçamento. (…) Quanto ao
antigo padrão da prosa regionalista, seus coronéis e jerimuns, nem pensar –por
mais que ainda pululem, nos concursos de contos, as imitações de Guimarães
Rosa.”
Concordo com a ideia geral do texto:
é realmente bom ver os modismos literários, sejam eles a violência explícita, o
sexo como único tema de um romance de 300 páginas, a visão
extremamente estereotipada de um sujeito urbano sobre o campo etc.
desaparecendo. Mas mesmo nessa afirmação dois pontos me parecem passíveis de
discussão.
O primeiro ponto – que está
intimamente ligado ao segundo – diz respeito ao tema dos textos presentes na
antologia e mesmo nas obras anteriores desses escritores. A quantidade de
textos em 1ª pessoa narrando fatos cotidianos de sujeitos da classe média
urbana sugere um caráter fortemente autobiográfico dessa “nova literatura
brasileira”. O biografismo, que pode ir de uma simples escolha narrativa à
alienação do escritor perante o mundo e naquilo que costumo chamar (peço
desculpas e sinta-se referenciado quem já utilizou o termo) de “conto-diário”,
parece ser algo comum em muitos países hoje, especialmente no produtor da
literatura muito lida – e traduzida – pelos autores presentes na antologia: a
literatura norte-americana. Estaríamos, portanto, diante do abandono de
modismos ou simplesmente da mudança destes?
O segundo ponto diz respeito ao
próprio livro analisado. Os tais modismos começam a sumir da literatura
brasileira ou simplesmente sumiram da coletânea? É possível dizer que a seleção
de 20 autores por 7 jurados representa a literatura brasileira feita
atualmente? Não imagino que Marcelo Coelho pense assim, mas é interessante perceber
como essas coletâneas feitas a partir de concursos influenciam em muito a visão
que se tem da literatura nacional feita hoje. Esquecendo rapidamente os
escritores da Granta, fica a pergunta: quem são os jurados? Qual o critério de
sua escolha?
Não abordo esse assunto para fazer a
crítica já tão pisada – às vezes de maneira ótima, outras transbordando
recalque – da escolha feita pelos jurados escolhidos pela Granta. Gosto de
grande parte dos autores presentes e não acho – e não acharia sem provas – que
a escolha se deve a círculos de influência, favorecimento ou qualquer coisa
assim. Acho que há, sim, enormes problemas nessa seleção que diz reunir “os
melhores jovens escritores brasileiros”: os mesmos problemas que podem ser
vistos em outras áreas no Brasil. Como num país com 26 estados (mais o DF), que
representa quase 50% do território da América do Sul e com diversidade cultural
enorme apenas três siglas – RJ, RS, SP – podem representar grande parte do
universo da Granta, seja dos textos, dos autores ou dos jurados? Entendo que a
Granta esteja interessada no lucro comercial – ou ficaremos apenas achando que
ela faz parte de um esforço internacional de propaganda das diversas faces da
literatura? – e não em esquadrinhar e ser justa com a diversidade da literatura
brasileira. Mas não posso deixar de cobrar uma coletânea que pretende desde o
título ser a vitrine do que há de melhor na produção literária nacional.
Ninguém precisa explicar o caráter mercadológico do nome dado à coletânea, mas
também não se pode deixar de lado o fato de que, já que a Granta propagandeia a
si mesma como a portadora dos textos dos melhores autores nacionais, que pelo
menos se esforce em chegar o mais perto possível desse trabalho – o que
obviamente englobaria a preocupação com a diversidade das fontes criadoras.
Retorno ao texto de Marcelo Coelho
para fazer um último questionamento: estaria a literatura brasileira mudando,
ou simplesmente estamos utilizando o corpus errado? De maneira mais específica:
será a prosa regionalista (e não hesito em afirmar aqui que essa expressão me
parece mais do que discutível), por exemplo, que está desaparecendo ou
simplesmente o modismo atual nas altas rodas literárias que já não concerne
essa vertente como algo digno de nota?
Ainda que a Granta seja um importante
meio para analisar a produção literária no país atualmente (por isso disse no
começo do texto que concordava em partes com o colunista), parece ainda mais
importante para analisar aquilo que já parece, mais do que uma herança, uma
realidade dura de deixar para trás no Brasil: a centralização – ou centrismo –
cultural.
Para finalizar, deixo aqui um
infográfico sobre a literatura brasileira contemporânea, feito por Niege Borges
com base nos dados levantados em pesquisas de Regina Dalcastagnè, autora
do recente Literatura brasileira contemporânea: umterritório contestado.
O texto
acima foi publicado originalmente em seu blog no dia 20/02/13.

