2 poemas de Felipe Garcia
O Plano
Tirei
o
chip
da
TIM
do
cel.
e
(acorda, Felipe!)
acessei
a internet
com
300 mg de limite.
Passei
noites acordado vendo cair e subir o sinal sem saber
se
iria acessar com sucesso.
Tenho
de escrever um longo ensaio
dentro
de um dia
se
não o processo
para
cancelar
minha
bolsa
será
encaminhado
ao
mecenas
lá
do sudeste
acabando
com
meus
planos
para
o céu
para
Moni/livros/cachorros quentes/batatinhas/
e,
catastroficamente,
à
beira do Ragnarok
encarar
a
poesia.
“Você
já disse isso mil vezes” –
vou
escrever o trabalho vou escrever o trabalho
amanhã
amanhã amanhã...
E
passam-se as horas de volúpia
de
antes de sentir o amargor
de
ter fracassado
adia,
adia, adia
mas
no fim conseguirei
fazer
o que
me
fez
ser
o mais recluso dos répteis
na
hora do frio noturno
quando
a costela
curvada
cobre
a tez
e
nem sequer se pode atingir
a
posição adequada para fotos
no
instante da tragédia efêmera
do
fogo
sobre
a
flor
de lótus.
Penso
muitas vezes
quando
viajo
para
as páginas da Bíblia
que
serei maior
do
que sou
e,
mais do que isso,
como
é mágico
ficar
durante meses
com
medo de ir para o inferno
rodeado
de fenômenos
paranormais
e
gritos de aleluia
até
imaginar andar com cristo!
Na
vias...
Mas
não posso dizer se realmente existo
quando
mudo
e,
mudo,
mudo
recolho
as palavras
e,
fatalmente,
rogo
em silêncio
pelo
verbo
que
será a porta
de
onde
sairei
e
tu me habitarás.
O
que engulho?
Bate
uma hora forte no rosto
noiva
em fuga
zíper
frouxo
a
hora do desespero
antecede
a
da
ruga
e
a queda de cabelos
é
só um sinal
de
que a cabeça não é mais
a
mesma, como a dos belos
gregos
– de onde sur-
gira
Atena. A Argentina
contra
o Brasil:
sem
grama/sem bola/sem craque/sem sina.
O
tempo atesta
maior
do que o crânio.
A plenos pulmões
verso
a verso
não
li
porque
a tradução só traz
a
garganta e a traqueia
e
eu, freático,
meneei
o
pináculo
como
um patife
no
catre
e
a cabeça a rolar no esquife...
Profundo
do mar
me
nado/minado/
explodi.
O Quarto está Congelado: Plath me Visita
com Ariel
Tí-
bio/vol-
tei
a
ser
criança
estupidamente.
O
meu coração
foi
perfurado nessa hora
porque
era de leite.
Noites Brancas – que me vi
precipitado
de cristais/e estranha nevasca
entupiu
as passagens
para
os cômodos
da
casa
Stasis in darkness.
Ou-
vi
trotes
de
anjos
no
es-
paço
como
casca
e
meu coração
acelerou
agoniado.
Do
leite que escorria no chão surgia
patas
de cavalo, ou pernas de mulher
saíam,
era uma asa
ou
uma fada/olhos de cavalo
o
assobio/um lobo
úmido,
escorrendo
lactose
na pele
vias,
dorso,
perfumes/
luz,
cumes
esforço
para
criar
era ela – no auge, a mulher perfeita
a
visão
me
congelou a alma
quebrando
estalactites de gelo
so-
bre
a
car-
ne
do
me-
u
cor-
po.
Plath
senta
a meu lado e re-
cita
poemas
para
mim
feridas/de
casa
escorregões
na vida
risos/apertados-a-cara-rosada.
E
antes que ela ligue o gás
peço-lhe
continue
a
me costurar nos poemas
há cicatriz nos lábios e estigmas nas
paredes
ho-
ras de
des-
espero
se-
gundos
de angústia
para tirar
de mim
a gota única
que se
esgota
no meu sangue
compondo
a distinta
túnica
que me
despe e ma-
ta
nu
cuspo ossos pedras cascos
para me fazer sumir
como
a
poesia
no
poema
e
me misturar
à
luz
ser
o
opaco
obstruir
o
espaço
onde
vivi
e
ver
surgir
no
mais frio
dos
dias
mais
frígidos
o
calor
do
teu bafo
que
estertora
ar-
ranques
estoura
sinos
desenterra/corpos
reanima
mortos
– me entra
por
fora
e
me
escreve:
a-
corda
a imagem
ela é
a porta
que abre
e a palavra
a besta
que
fecha.
Eras
para
tu ires
assim
na
boca
de
uma
for-
nalha
antes
de se des-
pedir
do
sono
para
acordares
como
todos nós
após
outro
dia
no
paraíso?
Eras mais do que capaz para poemas.
Sabias
que
tu
quebraste
a
película
de
a-
crílico
dos
meus lábios
fugiu/correu
e
encheu
de
beijo
o
cor-
po
que
morre
todos
os dias
à
noite
antes
de
se
desfazer
em
diversas
po-
si-
ções.
Teu olho frio me arrancou a fome/e a
perdi
não
te esqueças
de
mim
que
o
teu
amor
não
passe
como
meu corpo
que
se
foi
na
escuridão
fraturado
em
tantas
peças
nem
teu
passo
me
aperte
no
chão
quando
eu
estiver
gemendo
as
dores
que
pari
na
vida.
Não,
o
destino
não
serve
para
nós/
há
só
um abismo
que
nos cerca
e
abre uma fenda
entre
o
céu
e
o
pensamento.
Acaricia
o
ven-
to
descabele-se
noite
a
dentro
e
ouça o meu uivo
nos
dias de
lua
cheia/
que
eu
sou
a
saída
falsa
que
procura
a
tua
alma querida:
tambor
solto
na
carroceira/a
rolar
a
inefável dor
de
possuir
bra-
ços
frouxos
peito
empolado
pernas
de
pino
arreios
falsos/atrelados
ao
cavalo que pousa na xícara
para
saciar
a
sua
rapidez
Ariel me olha/bafeja e beija os meus pés.
Nos
olhos
do
cavalo
a
despedida
sangrenta
do
Nada
nos
olhos
de
Plath a felicidade
intrusa/maçã
verde
para
a
vida
a-
massada.
Ela
sorriu
a
derreter
a
fri-
aldade
da
noite
com
poemas
misturados
ao
éter
e
na mesma hora sumiu
com
Ariel
pelas
brechas do dia
dissipados.
Eu
me desfaço
em
poesia
todos
os
dias
me
deparo
com
o outro
e
a
só
pergunto:
a tua vida não é o maior
que isso?
Formei
a
paralisia
no
espelho
e
quem escreve
se
é
homem
menino/fantasma
cavalo
ou
braço
não
sei
porque
se um dia
chover na
minha terra
digam que
já não preciso
mais dela
há
um corpo lá fora esmagado/e uma criança que chora no quarto.
Felipe Garcia de Medeiros nasceu a 1989,
em Imperatriz - MA. Praticamente nasce, pois desde cedo, passou a infância em
Tocantins, conhecendo a sua beleza bucólica, as lendas, mitos, e o contraste
incessante entre cidade e natureza. Vivida essa experiência, habita residência
em Caicó, no Rio Grande do Norte. Desde de jovem, interessou-se por mitologia
grega e, após cursar Letras em Natal, descobriu a Literatura. A poesia virou
sua vida, sua paixão, seu corpo e seu habitar, pois, como dizia Drummond, esse
poeta é “uma casa sem raiz” e, por isso mesmo, aquele que se insere na
contemporaneidade contra a estagnação lírica de seu tempo. Em 2012, publica seu
primeiro livro de poemas, Frio Forte.
Com ele, dá início à sua produção poética desregrada, desterritorializada e
rizomática. A editora Penalux publica, novamente, a primeira obra de F.G.M., Frio Forte, no ano de 2014. Felipe
Garcia de Medeiros já preparou seu novo livro de poemas, Cápsula, que é a descontinuidade, um livro-poema, O Lobo
Afrontado do autor, que será publicado pela editora Kazuá ainda este ano.
Para mais informações, acessar o blog do poeta, que é: http://opoetafelipegarcia.blogspot.com.br/.

