Saudade, por Fabiano Oliveira
Olhos
pesados, pensamento pesado, sono pesado. Ainda assim, acordo. A poltrona
pequena conseguiu suportar meu cansaço. Nem tão bem, é verdade – precisei ficar
com uma perna sobre um braço e a cabeça caída sobre o outro. Nem deu tempo de
tirar a roupa, mais uma vez. Meu sono sempre vem assim, arredio quando preciso
dele e sedutor quando menos espero. Começa com uma prostração e o coração fica
mais sereno. Levanto, me estico, tomo um copo d’água e abro a janela para
sentir o cheiro da noite, que não é muito diferente do dia, a não ser pela
temperatura. O vento me beija. Não é comum ventar por aqui. Se ainda fosse
perto do mar ou da serra eu entenderia, mas aqui não, as montanhas fazem
questão de deixar o ar pesado, parecendo espesso demais para ser inalado. O alumínio
assovia e a brisa invade a sala. Volto a sentar, minha cabeça pende para o lado
e despenco antes de me certificar que perdi mais uma batalha desta guerra
inglória. Não sei quanto tempo se passou, mas deve estar perto de amanhecer. A
televisão ligada mostra um filme dos anos noventa do qual ninguém (a não ser
algum homem de meia-idade com o rosto engordurado e cheirando a mofo) se
lembra. No lado direito da minha calça uma mancha persiste em existir. Um
amarelo claro difícil de ser percebido no jeans quase bege, que deveria ser
branco. Gostar de mostarda é uma responsabilidade. O pior é que a mancha me faz
lembrar Elisa. Sinto falta dela. Falta não, saudade mesmo. A boa e velha
saudade tão conhecida do idioma português, com quem tem um relacionamento
monogâmico e satisfatório desde sempre. A mancha é o meu pensamento dela,
minhas memórias nostálgicas e indeléveis do que foi e, mais ainda, do que
poderia ter sido. Um conjunto de situações, fatos e acasos cambaleantes que não
se juntaram no meu caminho, ou eu me desviei, não sei. Só tenho consciência que
estou semideitado numa poltrona velha e, muito provavelmente, sem consciência. Tínhamos
ido a um restaurante caro, desses que tocam músicas bem baixinho, geralmente
jazz, apenas para ambientar as conversas e principalmente os olhares. Ela havia
pedido sem nenhum motivo aparente para ir lá e eu não entendi por quê. Não vivo
uma vida relaxada financeiramente, mas às vezes posso me dar ao luxo de
aproveitar os excessos do nosso sistema. Ela pediu para nos encontrarmos já no
restaurante. Pendendo sobre minha barriga, um livro de páginas amareladas e
aberto antes da metade está prestes a cair. Conta a história de um homem sem
história que, na avidez de construir um passado, acaba negligenciando o
presente. Antes de começar a ler, contei o que sabia da obra para Elisa, que se
interessou e acabou lendo antes de mim. Ela terminou num domingo. Eu assistia
ao jogo quando senti um peso sobre meu colo. “Fim de merda” foi o que ela disse,
com os olhos ainda inchados e úmidos, depois de arremessar aquele bolo de
páginas mal encadernado. Sempre sentimental e impulsiva. Essas características
me assustavam e, naquele momento, eu não sabia o que dizer e nem se tinha
alguma culpa na tristeza dela. “Como assim? É muito ruim?”, “Ele se mata para
viver só no passado e não ter que lidar com o presente”. Ótimo, ainda estragou
a surpresa do livro, me deixou com raiva de duas coisas com uma só frase.
“Precisava me contar o final? E, além disso, para que tudo isso? É só um
livro”. Antes de terminar de pronunciar a última palavra, já sabia que não
deveria tê-las dito, mas não tive o reflexo mental necessário para reagir a
tempo. Os olhos dela ficaram colericamente mais arregalados do que já estavam e
a boca abriu-se quase formando um ângulo de 180°. Puxou o ar, mas não disse
nada, virou à direita e num rompante fez o caminho de volta para o quarto que
era nosso, mas, naquele momento, supus ser só dela. Olhei para o meu
companheiro de sono: a capa é de um vermelho intenso, quase vinho tinto. Foi
isso que chamou minha atenção e me fez levá-lo para casa. Pena a atração de
suas páginas serem inversamente proporcionais à exuberância externa. Elisa
usava um vestido preto na altura dos joelhos com pedrinhas que brilhavam à luz
dos faróis do trânsito confuso de um sábado à noite. Mas o que chamou a minha
atenção foram suas unhas: escarlates. O contraste com a pele era hipnotizante.
Com o salto alto ela ficava do meu tamanho, nunca me incomodei com isso e ela
também gostava de não ter que ficar na ponta dos pés para me beijar. Pés que não
combinavam com o chão preto e sem vida da calçada. O chão da sala é até bonito.
Apesar dos riscos, a madeira ainda não perdeu a vida e o brilho sempre atraiu
minha atenção nas manhãs ensolaradas. É verdade que já acumula algumas manchas,
principalmente de cerveja, cujas garrafas fazem a ornamentação. Mas uma marca me
persegue, no canto direito da sala, embaixo da janela. Era um desses muitos
jantares de amigos que costumava receber quando ainda não morávamos juntos. Eu
tinha feito um peixe assado e escolhi um vinho no supermercado. Não era dos
mais caros, mas não chegava a ser dos piores. Levei quatro garrafas. Quando fui
abrir a primeira, percebi que tinha esquecido de comprar um saca-rolhas novo. O
antigo tinha quebrado e só restava um com menos engrenagens e que exigia uma coordenação
motora e força incrivelmente maiores. Abri a primeira até com facilidade e fui
aplaudido. Segui o mesmo caminho com a segunda. Na terceira, pequei pela
soberba. Fui para a sala na tentativa de mostrar minha mais recente habilidade,
mas nem cheguei a enfiar o metal na rolha. A garrafa já suada deslizou pelos
meus dedos, que estavam certos da vitória, se espatifando em milhares de
pedaços minúsculos embebidos no líquido desperdiçado. Desde então sou obrigado
a ver o que restou e lembrar os acontecimentos. Ela pediu um salmão com alcaparras
e eu um medalhão com molho de mostarda dijon. Enquanto os pratos eram feitos –
o que eu supus que demoraria uns quarenta minutos - me ocupei bebendo um vinho
dos mais baratos. Sabia que Elisa odiava meu hábito de beber sem motivo, mas
nunca quis agradá-la nesse ponto. Já esperava uma repreensão, que não veio. Ela
me olhava nos olhos de vez em quando de uma maneira mais furtiva do que de
costume e com um semblante que misturava pena e indecisão. “Não vai reclamar?”,
soltei. “Não, vou deixar você ter seus últimos momentos comigo em paz”. Com a
taça ainda suspensa, franzi a testa e lancei um olhar inocentemente inquisidor.
Ela ficou em silêncio, não falaria mais nada se eu não perguntasse. “Como
assim?”, “Vou me mudar, depois de amanhã viajo para a França”. Reclamei
incrédulo, pensando se tratar de uma brincadeira, mas sua expressão linearmente
séria me deixou a par da realidade, dura como a mesa de mogno onde, apoiado
sobre os cotovelos, deixei cair o peso do meu corpo, que parecia levar o mundo
nas costas sem conseguir soltar. “A gente já não dá certo há um tempo”, e assim
ela foi explicando a derrocada do nosso relacionamento, desde as festas que eu costumava
ir com meus amigos até a minha dificuldade em dar alguma brecha emocional,
passando pela nossa recente separação e volta, morando em casas separadas -
obviamente ela se esqueceu do seu ciúme crônico. Não parava de falar e eu
consentia olhando para a quina de uma parede qualquer, a visão até desfocada,
não importava, eu só queria desaparecer para algum lugar onde os conflitos
caíssem no esquecimento. Olhei as horas – já tinham se passado cinquenta
minutos – “sábado é foda” pensei baixo o suficiente para Elisa não ouvir minha
mente. Se pelos menos a comida chegasse logo ela pararia, eu acho. Entre as
reclamações ela foi soltando uma informação ou outra. Disse que a passagem está
comprada e que acertou com a conhecida de uma amiga, que mora em Paris, para
ficar na casa dela até arrumar um lugar. Vai com visto de turista, uma mala e
só. Tive vontade de chorar. “A maldita vai me abandonar aqui, nessa cidade
tosca do cada um por si”, pensei. Claro que o relacionamento não foi de todo
ruim. Tivemos momentos genuinamente felizes, talvez mais pela ignorância do que
pelo conhecimento do que acontecia. A princípio nenhuma briga era importante
demais para ser levada em consideração quando pensávamos sobre os rumos de nós
dois juntos. Ela reclamava se eu olhasse para outras mulheres na rua, mesmo que
de soslaio. Internamente, eu não achava válido, mas aceitava as vociferações de
uma maneira passiva e confiante que o amor seria maior. Enquanto isso, ela
insistia em não me dar espaço e eu contestava a falta de privacidade que me era
imposta no âmbito mais cotidiano. Ela não se incomodava com minhas palavras
contrárias e a vida seguia seu curso, nós juntos parecia o mais natural. E o dia
a dia era realmente agradável. Nunca fui uma pessoa comunicativa, pelo
contrário, nutri durante a infância e a adolescência um medo crônico de gente.
Quanto menos contato e olhares cruzados, melhor. Com ela eu me sentia
diferente, gostava de senti-la e captar suas emoções pelas janelas da alma. “Fui
fazer a barba logo hoje”, pensei enquanto esperava os pratos chegarem. Sempre
odiei raspar os pelos do rosto, mas fazia por pressão de Elisa, que dizia ter a
pele hipersensível. Nunca achei que isso fosse verdade. A barba pinica o meu
peito, pressionado contra o queixo. Isso me incomodaria se estivesse acordado. Estranhamente
tenho muito mais barba nesse ponto do rosto do que em qualquer outra parte da
face. Esse tempo todo querendo saber que horas são e não me dei conta que tenho
um relógio no pulso esquerdo. Ele deslizou e está praticamente na minha mão. Postergo,
desde que o ganhei de presente, uma ida a qualquer relojoaria para ajustá-lo. Está
convenientemente virado para mim, mas um pouco longe. Forço a vista, sempre
tive uma visão de dar inveja e me gabava de não precisar de óculos. Penso em
Elisa. Tive vontade de perguntar que horas são para ela, gostava de fazer isso
quando tinha preguiça de pegar o relógio. Ela deve estar falando francês muito
bem agora. Sempre foi melhor do que eu. Nunca viajamos juntos de avião. O
último passeio foi a uma cidade pequena do litoral, para onde tivemos a infeliz
ideia de ir durante o carnaval. Depois de seis horas presos no carro chegamos a
uma típica casa de veraneio dessas que as pessoas descrevem de viagens que não
deram certo. Geladeira corroída pela maresia, uma televisão velha e um forte
cheiro de mofo no quarto. Depois de três dias, o resultado: quatro brigas, dois
pratos quebrados e reclamações dos vizinhos por excesso de barulho. Poderia
tê-la amado mais, perdido mais horas de sono em conversas inúteis de madrugada,
ao invés de rolar para o lado depois de transarmos e roncar. Meus olhos
poderiam tolerar mais os pais dela e meus ouvidos não precisavam sentir tanta
repulsa ao ouvir as besteiras que eles diziam sobre o fato de estarmos juntos. Ela
viajaria para fazer um mestrado e eu iria com ela, vivendo de algum dinheiro
que acumulei e trabalhando no próximo livro. Teria uma influência europeia, os
leitores gostam disso. Pode ser um lixo, mas se tiver uma roupa chic e não
chique eles adoram e consomem nem que seja só a embalagem. Eu conheceria a banlieue francesa, o Vaticano, lugares
sobre os quais meu conhecimento é formado metade por filmes e a outra metade
por imaginação. A gente se casaria longe da nossa família, numa cerimônia
apenas com nós dois. Mandaríamos algumas fotos para nossos pais. Nosso filho
teria um nome em língua estrangeira e falaria outros idiomas melhor que eu, mas
sem deixar de aprender o português. A vida teria suas dificuldades, mas estas
não se comparariam com os prazeres do companheirismo e pareceríamos viver
sempre sob o som de uma composição leve de Mozart. Nada nunca nem poderia ter
sido. Meses depois cá estou eu, sem ter notícias dela, a não ser por um e-mail.
Ela disse que chegou bem. Deve ter se sentido solitária na primeira noite. Esse
traço de insegurança nunca a abandonou. Um país diferente e, mais do que isso,
uma língua diferente, assustam qualquer pessoa normal. A saudade de ouvir a
melodia do português pode se tornar uma doença crônica. Mas nunca se sabe.
Nesse exato momento ela pode estar tomando café da manhã com algum francês que
vai dizer, ou já disse a ela, um baise-moi
com mais convicção do que qualquer palavra já saiu da minha boca. Enquanto isso,
eu sigo aqui, com os mesmos conhecidos e os mesmos poucos amigos. O ponteiro
menor não se move, o dos minutos também se recusa. O vento não sopra, a cidade
dorme. Será que não está na hora de acordar? Daqui a pouco os trens vão começar
a passar aqui ao lado. Despertadores vão tocar e corpos pesados levantarão
para, cada um a sua maneira, deixar as ruas um pouco mais barulhentas. Ainda
nada. O dos segundos está como eu na poltrona: estático. Lá fora parece uma
pintura, nem as nuvens se mexem. O sol deve ter se esquecido de aparecer e eu
não vou despertar. O livro continua onde está, parecia que ia escorregar, mas
não o fez. Eu parei. O tempo parou e eu não percebi.

