Por escrito, de Elvira Vigna
No
rastro dos escritores que começaram a tomar tom, cor e forma nos idos dos anos
90 até os dias de hoje, Elvira Vigna se situa numa posição sui generis.
Primeiro porque é injusto dizer que ela começou a deixar de ser uma massa
amorfa para existir nos anos 90, uma vez que a literatura parece sempre ter
feito parte da vida da escritora, que começou a publicar na virada dos anos 70
para os 80 e não parou desde então. De lá pra cá, tem sido uma ativa escritora
(inicialmente de livros infantis), ilustradora e tradutora. Mas apesar de um
Jabuti por sua literatura infantil, tem sido desde que ela se consolidou como
escritora de livros para adultos que seu nome vem sendo mais notado. Segundo
porque, tal como sua obra, ela está e não está no meio literário. É um repleto
perdido em lugares abstratos, onde a vida passa de maneira fugaz (e nem por
isso menos atroz).
Por
Escrito (Companhia
das Letras, 312 páginas) não foge a esse amplo universo vigniano, que no fundo
nada mais é do que o que existe de mais multifacetado dentro de nós mesmos, num
juntar de peças que pode ou não resultar em alguma coisa. O que importa em sua
obra - e sua mais recente traduz precisamente isto - parece ser o percurso, a
trajetória, e o deserto que nos habita.
["...
eu precisava de um nome para o personagem principal que era uma mulher
completamente idiota, muito fácil de ser machucada pelos outros".]*
Por
Escrito é
narrado sem qualquer pacto com a linearidade. A autora abarca vários períodos
(de transformação) da sua protagonista, com idas e vindas no tempo, mutações,
mudanças, que exigem um leitor atento. Os personagens parecem se esconder de
quem percorre olhos e dedos pelo livro. E o fazem através de uma linguagem que
parece fazer de conta que é romance, que é relato, experimentando formas e
caminhos de forma errática, mas nunca desviando o leitor da viagem para os
recônditos dentro de si mesmo.
["...
minhas histórias são sempre coisas que de fato aconteceram".]
Valderez,
a narradora, é essa mulher de meia-idade que já viveu muitas vidas além da sua.
Trabalha para uma empresa que lida com café, produtos de café, máquinas de
café, e este emprego exige que ela esteja sempre de passagem pelos
cantos-fugazes, pelos vazios abarrotados de aeroportos, carros com motorista
que só se vai ver uma única vez e mais nunca, quartos de hotel, corredores e
stands de eventos chatérrimos. E mais lá pra frente ela perde este bendito
emprego. Até aí, sem grandes precipitações, porque
["Nunca
pude assumir tamanha fragilidade, essa facilidade com que as vezes me
machuco".]
o
"por escrito" que justifica o título na verdade é a forma que a
narradora tem de tentar se entender. Ou não enlouquecer. Ela gosta de anotar as
coisas, e resolve fazer este relato contemplativo para o amante, com quem tem
uma relação de muito amor e algum desprezo. Ou de muito desprezo e algum amor,
quem decide é o leitor.
["No
papelzinho em que tomo nota do que se passa nessa manhã está escrito que não há
pinheirinhos na Paulista em primeiros de janeiro. Também não há pinheirinhos
nos outros dias do ano. Então, o que tomo nota no papelzinho é na verdade uma
ausência de uma ausência. A condição de sem-pinheiro não seria notada,
não é para ser notada, já que essa ausência de pinheiros é a presença
estabelecida, esperada, no cenário em questão. Mas sei por que tomo nota das
ausências, eu sei. É isso, isso aqui que escrevo. É isso, isso aqui que
escrevo. É uma questão do que está na nossa frente e nem notamos, o que está
ausente mas presente. Qual dos ontens será o amanhã."]
Ao longo do romance, e ao unir as pontas soltas que a narradora vai deixando, podemos compreender essa imensidão dentro do não-lugar, que chega a ser quase um portal para quem está diante da hesitação, dos equívocos, do ir-ou-não-ir, do fazer-ou-não-fazer, dentre tantas outras efemérides que compõem a vida e o viver. E além disso, ou ainda dentro disso, temos também o que pode ou não ter sido um crime.
["O Deserto Vermelho, de 1964, é um clássico do neo-realismo italiano. (...) Nele assim como no meu livro, as personagens aparecem ou desaparecem, sem que se veja exatamente quando, apesar de todos os detalhes estarem lá. (...) Em O Deserto Vermelho, como no meu livro, as pessoas estão sempre em lugares que não são os delas: de passagem, por acaso, ou simplesmente perdidas".]
Segundo a própria autora [Por Escrito] "é esse incômodo de você às vezes perceber que está vivendo algo que não está lá. Que a tua vida pode não ser o que você acha que é.".
["Tive na minha vida essas viagens que nunca acabavam nem começavam, de e para lugar nenhum, e onde eu passava a maior parte do tempo sem fazer nada, andando nas ruas, sentada em cadeiras pré-moldadas, deitada em colchas de hotéis baratos, olhando o negro das janelas de metrôs, o branco das janelas dos aviões, falando frases que não eram minhas. Desse período, tão longo, ficaram uns poucos dias. Uns porque nunca acabaram, outros porque nunca existiram, o anterior se debruçando sobre o novo que não conseguiu se instalar."]
["Tem
uma coisa que aprendi trepando, porque fico bem mesmo trepando, ou seja,
abrindo mão de qualquer defesa, qualquer controle, me permitindo uma integração
completa com o que (quem) está perto de mim. E o que aprendi é o seguinte. Que
é assim que se goza. E isso vale também para os que acham que estão no
controle. Porque justamente não estão. São só mais frágeis. (...) O homem (no
meu caso é homem porque trepo com homem) precisa inventar que tem o controle, o
poder, que está lá dono da situação e que pode fazer o que quiser. É ele o mais
frágil. É ele quem precisa de mais garantias, todas fictícias, para poder
relazar e gozar. Se você fantasia o poder e o controle, você é muito, muito
mais frágil. E isso serve mesmo quando não se está trepando."]
Elvira Vigna se entrega sem pedir permissão. Sem condescendência. E é por isso mesmo que seu Por Escrito invade, adentra sem antes bater. E é por isso que merece ser lido.
* Os
trechos entre colchetes foram retirados do vídeo de apresentação do livro na página
oficial da escritora, do texto de apresentação do romance escrito pela autora e
de trechos do próprio livro.
SORTEIO
O LiteraturaBr dessa vez irá sortear o livro
“Por escrito”, de Elvira Vigna, que foi editado pela Companhia das Letras. Pra
participar é muito fácil, presta atenção pra saber como concorrer.
Antes, alguns lembretes: a promoção é válida apenas para fan-amigos da fan page do LiteraturaBr e que têm residência no Brasil. A responsabilidade pelo envio do livro é nossa! O sorteio será realizado lá pelas 17h00m do dia 09 de novembro de 2014. O ganhador deverá entrar em contato com a fan page do LiteraturaBr para oficializar os trâmites para a entrega.
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2. Marcar dois amigos nos comentários e compartilhar o sorteio;
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Este sorteio também pode ser lido aqui: https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/400425
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