Elogio à vingança
por Fred Caju
Se foi por delicadeza
que Rimbaud perdeu a vida, foi por vingança que eu ganhei a minha. Antes de
chegar no tutano do assunto já me vejo obrigado a abrir um parênteses como
prato de entrada. Perder e ganhar, nesse caso aqui, estou tratando em sentidos
idênticos e pouco tem a ver com excelência financeira. Até porque, concordo com
o aforista de Capuricinha, ao ver na gravata um sinônimo de morte; e modéstia à
parte, sair de casa de bermuda e chinelo sai bem mais caro que andar de paletó
de linho.
Parênteses fechado. E
vamos embora que o tema é sangue no olho. É pé no bucho e mão na cara. Aqui,
onde a insígnia da cruz estreita a mentalidade coletiva, a vingança é sempre
vista como algo a ser combatido ou superado, coisa do mal; é estigmatizada
pelas páginas policiais. Entretanto, usada com sabedoria, é uma das melhores
armas que o ser humano pode portar. O problema é que onde o aprendizado está na
mão dos reaças, o direito à vingança pode significar um discurso de ódio e
acabar com gente amarrada num poste sob os aplausos dos telejornalecos
prediletos da classe médica. Assim como a anulação dela é a total vitória do
passivismo.
E já que eu falei da
cruz, vou dizer um dos meus mitos favoritos do Jotacê. Aquele que dizem que ele
diz tem que oferecer a outra face ao inimigo. Muito boa essa. Não é apanhar
duas vezes, como algum tolo pensaria, é olhar pro opressor e dizer: “É isso, é?
Faz o seguinte tenta outra vez, mas agora bate mermo.” Não diz o ditado que é
um prato que se come frio? Pois bem, taí.
No caso da literatura,
vejo a vingança muito mais além do que desmoralizar personalidades com
personagens ou distorções do status quo pela ficção. É uma chama de
continuidade. Um novo livro é uma resposta à ignorância institucionalizada.
Cada linha escrita é pelo cachê atrasado, boicotado ou nem proposto. Cada sarau
organizado na tora é pra por na conta da indiferença dos gestores. Contos,
crônicas, ensaios e artigos? Tudo feito pra não ter que ficar de puxa-saquismo
em troca de migalhas. Anota aí, coração: cada verso feito não é pelo dinheiro.
É pela dignidade, porra!

