Entrevista com Eduardo Lacerda (Editor da Patuá), por Nathan Matos
Conheci a
Editora Patuá vasculhando novas editoras pela internet. Percebi que o catálogo
girava em torno, principalmente, da poesia. Fiquei espantado. Nunca tinha visto
alguma editora dar tanta ênfase a este gênero. Timidamente enviei um e-mail
para os editores e depois de um tempo o Eduardo Lacerda me respondeu. Mantivemos
contato, e ele sempre se mostrou muito aberto aos assuntos da editora. Isso me
surpreendeu, uma vez que é preferível esconder o que se faz para que não haja
novos concorrentes.
Conversando com
o Eduardo, percebi que ele achava mais importante divulgar informações e manter
o diálogo aberto para novas ações em torno da Literatura do que olhar para o
próprio umbigo.
Sempre me questionei até que ponto
a Poesia pode “salvar” um homem. E parece que Eduardo Lacerda vive nessa
relação de estar sendo salvo e que ao mesmo tempo salva esse gênero, muitas
vezes, esquecido, contribuindo, também, para a salvação-publicação de autores
estreantes ou não.
A Editora Patuá, em quase 3 anos de
vida, e com mais de 100 livros em seu catálogo chega, em 2013, a ser finalista
em dois prêmios: o primeiro com o livro “Vário Som”, de Elisa Andrade Buzzo, no
Prêmio Jabuti na categoria Poesia; o segundo com o livro “Desnorteio”, de Paula
Fábrio, no Prêmio São Paulo de Literatura. Dois dos mais importantes prêmios literários
do país. Isso se dá ao trabalho incansável de um homem que acredita que além da
poesia é essencial beber para que se possa manter uma editora de portas
abertas.
NM – Eduardo, de onde veio a ideia de criar a Patuá?
EL – A ideia (ou necessidade) de criar
a Editora Patuá foi uma consequência
natural de trabalhos anteriores que realizamos. A partir de 2001, quando entrei
no curso de letras da USP, iniciei a edição de uma revista e de alguns eventos
literários, essa revista se transformou em um jornal chamado O Casulo, que chegou a ter patrocínio da
Prefeitura de São Paulo, com esse apoio foi possível a impressão de tiragens de
30 mil exemplares, com distribuição gratuita em escolas públicas, bibliotecas,
centros culturais, cinemas etc. Também participei da organização da FLAP! –
Festival de Literatura, que desde 2005 realiza, anualmente, encontros, debates,
leituras públicas, entre outras atividades para discussão sobre literatura,
edição, produção cultural, tradução.
Montar uma
editora que pudesse reunir os autores que circulavam por essas atividades se
tornou uma necessidade, mas, no início, não fazíamos ideia de como viabilizar o
projeto. Passamos quase 2 anos, entre 2008 e 2010, pesquisando como montar uma
editora. A Editora nasceu, como empresa, em outubro de 2010 e publicamos nosso
primeiro título em fevereiro de 2011.
NM – No cenário atual, para se abrir uma editora é preciso ter coragem.
Qual a importância das editoras independentes no mercado editorial brasileiro?
EL – Acredito que para abrir uma
editora não é preciso ter coragem, tenho acompanhado, durante todos esses anos,
a criação de dezenas de projetos e editoras. O início é trabalhoso, mas fácil,
não tenho dúvidas. É preciso ter coragem para continuar durante muitos anos,
depois que se descobre o tamanho dos problemas, das frustrações, decepções.
Claro, quando um projeto é mais consistente, muitas coisas boas também vão
acontecer, mas no início pensamos apenas que tudo será bom. Não é.
As editoras
independentes atuam de diversas formas, por isso têm diversas ‘importâncias’
diferentes. Nós descobrimos jovens autores, redescobrimos autores premiados,
mas que estavam sem editora, damos chances a projetos ousados, que não
encontrariam nenhum apoio em editoras maiores. Mas, acredito, o maior mérito de
uma editora independente é promover o encontro entre as pessoas e o encontro
das pessoas com os escritores e seus livros. Tenho defendido que não acredito
em uma literatura que não promova o encontro entre as pessoas.
NM – O catálogo da Patuá, em sua ampla maioria, foca a Poesia. Poucos
são os editores que apostam neste gênero. O que você vê que outros não veem?
EL – Talvez eu beba mais cerveja que os
outros editores! Mas, falando sério, a poesia pede um amor, uma dedicação e um
desapego que muitas pessoas não estão dispostas ou interessadas. Eu tenho muita
fé nos autores que publiquei ou ainda publicarei, acredito neles, na
importância deles. Que não é uma importância capitalista, nem financeira. É
humana. Eu publico autores que acredito.
NM – Você acredita que a poesia ainda é pouco lida pelo leitor
brasileiro?
EL – É importante dizer que a poesia é
pouco lida pelos leitores do mundo inteiro. E é pouco lida desde a antiguidade.
No livro A arte de amar, de Ovídio, o
autor já diz que a poesia não é mais uma honraria, que mesmo Homero, se vier
com versos, mas sem presentes, não será bem recebido. Ele já afirma isso então
há dois milênios? Sim! As pessoas têm uma tendência ao pessimismo sem
conhecimento. Queremos acreditar que nossa época (e todos são assim, em todas
as épocas) é decadente, é pior. Talvez para justificar fracassos pessoais.
Psicologias à
parte, sou um homem de muita fé, muito otimista, mas muito realista. Temos trabalho
a fazer, de formação de leitores, de distribuição de livros, de encontrar
alternativas à lógica do mercado que quer excluir a grande maioria das pessoas.
Se os leitores lêem pouco poesia, temos que encontrar soluções. É o que
tentamos fazer todos os dias.
Na Patuá,
incentivamos muito a leitura entre os nossos autores. Não cobramos pela edição
e realizamos um trabalho de excelência, o mínimo que espero que um autor é que
se interesse minimamente pelo trabalho do outro. Que leia, que eventualmente
compre livros, que se encontrem e discutam a literatura. Isso é enriquecedor e
somente esse envolvimento pode ajudar (também financeiramente) uma editora
séria e honesta.
NM – Muitos comentam que a Literatura,
entre as artes, anda sendo a mais esquecida. E que há muito a se fazer quanto a
incentivar ações que promovam a leitura. Você concorda com isso?
EL – Todas as artes são igualmente
importantes, eu defendo a Literatura por trabalhar com ela e por ter uma
relação íntima. Acho que o esquecimento vem do descaso, principalmente dos
próprios escritores. Recebemos uma centena de livros por mês, considerando
outras editoras, maiores ou menores, são milhares de escritores espalhados pelo
país. Não são leitores? Por quê?
Concordo que
precisamos de ações de incentivo, mas elas devem ser coordenadas e contínuas.
Trabalhei muitos anos com produção cultural e com projetos de instalação de
bibliotecas públicas no interior do Estado de São Paulo, tenho experiência que
ações isoladas são muito importantes, mas de curto efeito e sempre submetidas à
vontades políticas. Precisamos, para aumentar o número de leitores, ações
educacionais, culturais, estéticas e financeiras.
Temos mais
escritores que leitores, mais editoras do que livrarias e bibliotecas. A lógica
está inversa, não está? Precisamos de mais leitores do que escritores, de mais
bibliotecas e livrarias do que editoras (e não quero reduzir o número delas,
apenas inverter a pirâmide). Há muito o que se fazer.
NM – Quais são as maiores dificuldades
enfrentadas pela Patuá?
EL – O maior problema é financeiro.
Fazer livros é maravilhoso, vende-los é uma tarefa constrangedora. Ao mesmo
tempo, se fosse fácil, acho que teríamos ainda mais editoras e menos leitores.
A dificuldade também preserva a literatura, faz com que exista um filtro.
Claro, não precisaria ser tão difícil. Precisamos de equilíbrio.
NM – Qual tem sido a recepção dos livros da
Patuá junto ao público?
EL – Excelente. Posso dizer que criamos
um novo padrão de qualidade para o mercado de editoras independentes. Fazemos
livros com muita qualidade, tanto gráfica quanto literária. Ousamos em
formatos, ilustrações, acabamentos.
Claro, conseguir
leitores e reverter essa qualidade em venda de livros ainda é difícil, mas está
sendo uma experiência incrível.
Além do público,
estamos conseguindo alguma repercussão entre críticos e recebido alguns
prêmios. Em 2012 recebemos um prêmio ProAC – Programa de Ação Cultural e este
ano uma de nossas autoras está finalista do prêmio Jabuti.
NM – O que fez Eduardo Lacerda se apaixonar
pela leitura?
EL – Eu sou um apaixonado pela leitura,
principalmente pela poesia. Não sei quando isso começou exatamente. Minha
primeira lembrança de leitura, de livro, foi uma leitura da minha mãe pra mim
de um livro do Paulo Coelho. Sim, Paulo Coelho. Meus pais são pais-de-santo da
Umbanda, sempre tiveram interesse por livros espíritas, esotéricos, de
iniciação religiosa. Eu tenho um interesse e carinho enormes pela religião,
embora, como literatura, isso não me interesse mais. E estou dizendo que apenas
não me interessa, não perco meu tempo dizendo que é ruim, que é lixo. Isso é
pedantismo.
NM – É fácil para você conciliar o processo
de criação com a vida de editor?
EL – Se você está se referindo à
criação literária, como poeta, sim, é difícil. Não sou poeta, eu escrevo alguns
poemas esporadicamente. Até acho que alguns são bons. Também acho que eu vivo
como poeta, na máxima do Piva, de que não existe poeta experimental sem vida
experimental. Certo, nesse sentido, não sou poeta, mas vivo como poeta. E é
exatamente por ser difícil conciliar que eu me permito viver como poeta e ser
somente editor. A edição é uma atividade criativa também, embora eu passe a
maior parte do meu tempo cuidando de burocracias. Eu faço a embalagem e a
entrega nos correios de todos os livros vendidos, eu vou a meia dúzia de bancos
diferentes todos os dias, faço notas fiscais, elaboro contratos, faço a
divulgação dos livros, atualização do site e até a edição (risos). Mas eu gosto
também disso, gosto de pensar que eu cuido dos livros em todas as etapas,
exceto as ilustrações e projetos gráficos, que são criados pelo artista
Leonardo Mathias, uma pessoa incrível, de talento sem igual. Temos também
outros parceiros para ilustração, como a Mila Botura, que está desenvolvendo a
arte de alguns de nossos livros, a Elis Nunes.




