Aguenta um não?
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Luca Matti "Gli irretiti", 2000 |
Eu bem que avisei, mas ele levou na
brincadeira. Eu disse que não passava a mão, que a sinceridade era o que trazia
comigo há tempos. Li, não gostei e disse. Não foi assim, de supetão, foi com
calma, sereno, sem estardalhaço, porque um não é algo ruim de ouvir, mas ele se
emburrou, ficou sem falar uns dias, já teve até quem não falasse comigo durante
meses, até que depois, meio que sem jeito, vinha novamente pedir para ler outro
texto. Sempre estou de braços abertos, mente fresca, porém quando me tratam mal
dá desgosto de ler outro texto, novas frases.
Quem edita sabe que dar “não” não é
fácil, mas também ser recebido com pontapés quando isso acontece não é nada
agradável. E ainda há quem saia por aí dizendo que não entendemos nada, que
somos uns pedantes e que nos achamos os maiores críticos da casa da mãe Joana.
Bem, eu só tenho pena da Joana, porque deve receber muita gente por lá e uma
hora ou outra talvez lá não tenha mais espaço para novos críticos renegados.
A gente, que é metido a editor, como os
que recebem os não nos chamam, tenta apenas ser honesto com o nosso gosto, no
final das contas, mas também há de se entender que a gente lê muito e que pra
nos agradar fica até difícil se a escrita não tiver “jeito”. A gente tenta dizer
o que precisa ser melhorado, o que pode ser retirado ou posto à prova, numa
tentativa de melhorar o conteúdo, a forma, às vezes. Nunca é com pedantismo,
quer dizer, deve existir algum editor que se acha a bola sete, mas enfim, isso
existe em toda área.
Dar um não pra quem diz, desde o início,
que está aberto a críticas é sempre melhor, até o momento em que ela recebe a
resposta e descobrimos que ela não estava aberta coisa nenhuma para receber uma
negativa. É assim, pode ser qualquer editor, dar “não” não é tarefa fácil. Se
bem que já ouvi dizer que tem gente que está se especializando em negativas.
Dizem até que pagam bem, que recebe no cash, ali, por cada negativa bem dada. O
mercado profissional tá aí pra isso. Acho que vou fazer um desses cursos que
nos ensinam a dar nãos de maneira grosseira e fina, quem sabe assim eu consiga
conquistar mais inimigos ou mais locais de trabalho para engrossar a renda. E
quem sabe assim eu não fique com tanta preocupação em não querer dar “nãos” aos
escritores que se acham a mais pura essência da literatura.

