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1 de agosto de 2012
Mitos Amazônicos (Históricos) da Tartaruga

Mitos Amazônicos (Históricos) da Tartaruga


Os indígenas não sabiam quanto colaboravam para o trabalho da literatura popular comparada (Câmara Cascudo)



Mitos. É disto que trataremos, ou tentaremos tratar, seria melhor dizer, a seguir. Para ser mais claro, iremos apresentar a vocês o livro intitulado Mitos Amazônicos da Tartaruga, escrito por Charles Frederik Hartt, e publicado pela primeira vez em português em 1875. Mas, quem é Charles Hartt?

Charles Frederik Hartt chegou ao Brasil por convite de Louis Agassiz, Mestre de Cambridge (Massachusetts), para fazer parte de uma expedição, que incluiria o Nordeste brasileiro até o coração do Norte do País – a Amazônia. A expedição visava pesquisas voltadas para a Ictiologia no Brasil, mas fora isso Hartt se apaixonou por outros assuntos chegando à terra brasílica.


Em 1867 e em 1870, Hartt volta ao Brasil. No ano de 1870 decide ficar. Foram de suma importância as pesquisas realizadas pelo americano para o conhecimento etnológico e etnográfico da região amazônica. Dirigiu a Comissão Geológica do Império, 1874 a 1878, sendo dissolvida em 1878, com a morte de Hartt por febre amarela.

Você deve estar se perguntando: O que isso tudo tem a ver com Literatura? Tem a ver que a partir dos estudos, pesquisas e expedições realizadas por Hartt, pôde ele conhecer os mitos que cercavam a existência de um “pequeno” animal – o jabuti ou a tartaruga – através das estórias que eram contadas pelos indígenas, aos quais ele tinha apreço. E foi com ajuda de Câmara Cascudo que os Mitos Amazônicos da Tartaruga puderam vir a ser contados para o povo brasileiro por uma voz norte-americana.

No livro são contadas oito estórias, que envolvem sempre o jabuti e outro animal, podendo ser ele uma cobra gigante, uma anta, um pássaro lendário, uma baleia, um veado, um tigre. O que é “engraçado”, diria eu sutil, de se ver, é que em todas as estórias quem se dá bem é o jabuti. 

Hartt conta no início do livro, como um prefácio, que fora muito difícil conseguir reunir essas poucas estórias, pois os índios não a contavam quando perguntados sobre qualquer estória ou quando solicitados que contassem alguma dessas estórias, e sim apenas quando se sentiam à vontade, como por exemplo, à noite ao lado de uma fogueira. Diz Hartt acerca disso:

Vi logo que o mito indígena era sempre contado sem esforço mental, sendo o seu fim simplesmente agradar, como uma balada, e não comunicar informação; e que quando o índio, não estando perto da fogueira, cercado de ouvintes noturnos, nem de posse de todas as circunstâncias que tornam a narração conveniente e agradável, é friamente convidado a relatar uma estória mitológica, mostra-se incapaz do esforço mental necessário para lembrar-se dela e, por isso, pronta e obstinadamente alega ignorância. (p. 20-21)
Mas como o convívio de Hartt com os indígenas fora longo e profícuo, conseguiu através de Maciel, seu fiel piloto em suas expedições, entender as estórias, que eram sempre contadas em Língua Geral – segunda língua indígena desenvolvida no Brasil.

O jabuti nas estórias contadas por Hartt é tido como um animal astucioso, vingativo e até mesmo “malandro”, pois fora os animais citados, aos quais ele enganou, conseguiu enganar até o maior de todos, conseguiu ludibriar o possuidor da Razão: o homem. Câmara Cascudo, em suas notas, lembra-nos que nesse tipo de estória "os animas mais feios, desajeitados, vagarosos, visivelmente incapazes de um sucesso ao lado do competidor são sempre os vitoriosos".

Câmara Cascudo
Com os mitos amazônicos podemos realizar uma comparação entre outras estórias, não apenas da Europa, mas da África e até mesmo dos países orientais. Nas notas de Câmara Cascudo podemos observar que existem variantes da mesma história, sendo modificado apenas os animais; isso também é destacado pelo próprio Hartt.

Cascudo realiza uma breve comparação entre os mitos mencionados com a de outros países, demonstrando que enquanto numa estória se utiliza o jabuti, noutra se utiliza o caramujo, noutra o sapo. Essa comparação nos faz perguntar até que ponto povos que tiveram o mínimo de acesso intercultural pudessem possuir tantas estórias tão parecidos, tão iguais.
O livro me trouxe sorrisos com estórias tão singulares, que podem ser até consideradas fábulas (e há estórias que são comparadas com alguma dos irmãos Grimm). Andando entre as muralhas de livros desses sebos de minha cidade natal foi como encontrei esse pequenino livro, espremido entre tantos outros gigantes. Já que os animas feios, desajeitados e pequeninos podem ser astuciosos, por que não o seria esse livro de Hartt? Termino então com palavras do Cascudo sobre a pesquisa “mitológica” realizada por esse norte-americano:

Hartt não somente fixara o conto com fidelidade e nitidez como escrevera comentários bem vivos e curiosos, estabelecendo confrontos, sugerindo aproximações temáticas, discutindo e sugerindo interpretações. Era, incontestavelmente, um precursor, veterano do folclore, no plano mais claro, preciso e ágil da sistemática. (p.54)


Livro: Mitos Amazônicos da Tartaruga. Tradução e Notas de Câmara Cascudo. Editora Perspectiva – Coleção Elos. 2ª edição revista e aumentada. 1988.

Link 1 : Hartt



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