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17 de março de 2014
Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno

Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno



Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. […]
Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.


O Malhadinhas é uma obra de referência da literatura em língua portuguesa. E aconselha-se a todos os que gostam de ler, mesmo aos que gostam de se vangloriar das suas leituras alternativas, conceito vago aqui atribuído aos textos que acompanham bem um cabelo despenteado com cuidado, umas calças rotas com desvelo ou a ligação a um coletivo (sim, coletivo) de produções orgulhosamente pouco assistidas. O Malhadinhas não é uma obra alternativa. Faz parte das correntes principais do bem escrever, do bem ler e do bem fazer literatura.

A narrativa acompanha a vida de um homem, António Malhadas, desde os tempos em que quer casar até à sua morte. Valores como os do amor, da lealdade e da fidelidade são abordados por António Malhadas, narrador-protagonista, que conduz o leitor pelos caminhos difíceis de montes, vales e conceitos que dão sal e sabor à vida humana. Para o leitor, no entanto, fica a parte da análise mais difícil e profunda. Afinal, é sempre o leitor que coloca o sal, a malagueta, a canela e o açúcar na confeção artística do escritor. Também por isto se pode medir a qualidade da escrita e da obra literária. Diga o leitor, por gentileza, que o que foi acabado de ser escrito não é verdade. Coloque todo o sal e toda a malagueta, alguma canela, um pouquinho de açúcar. Se, para este artigo, houver sal e malagueta, açúcar e canela, o que não é certo. Certo é que para esta obra de Aquilino Ribeiro tão conhecidos ingredientes existem e deverão ser usados. Com toda a certeza.

Aquilino Ribeiro não foge de expressões regionais para elevar a língua portuguesa a um nível de qualidade apenas ao alcance dos que escrevem muito bem. António Malhadas, «provido de lábia muito pitoresca», inicia a narração com um exemplar parágrafo do que acaba de ser constatado:

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra ─ eu cá nunca me avistei com ele ─ mas a verdade é que a neve vinha, com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

Depois da difícil tarefa de se casar, que envolveu fugas e ameaças de violência, António Malhadas viaja pelo norte de Portugal desenvolvendo a sua atividade de almocreve, enquanto se vai envolvendo em brigas e disputas, consequência do seu espírito conflituoso e do seu sentido de justiça.
O leitor de O Malhadinhas que conhece o obra de um outro Ribeiro, João Ubaldo, não deixará de se lembrar de Sargento Getúlio, do seu monólogo e de um comportamento que, podendo ser criticável, se guia por um código de honra e por um sentido de justiça próprio de quem tem a lealdade como princípio norteador da vida. A ação de António Malhadas e de Getúlio dos Santos Bezerra pode ser criticada? Pode e deve. Coloque nelas o leitor o sal e a malagueta que achar conveniente. Alguma canela. Talvez algum açúcar. Qualquer um dos autores deixou obra para ser saboreada. Com diferenças, com parecenças, com qualidade e com armas.
António Malhadas, entre muitas referências a armas de fogo e armas brancas, ensaia comparação com a espada mitológica que Rolando recebeu de Carlos Magno:

Que a minha faca era afiada e leveira … Se afiada a trazia muitas vezes tive pena de não ter à mão a catana de Durandarte. Há encontros na vida e pendências que um homem honrado não provoca nem espera, e que só se resolvem de pulso rijo e botando as unhas a uma arma. A faca, mesmo assim, nunca a saquei para homem cordo de génio e liso nas contas, nem para jagodes pobre do juízo ou com água chilra nas veias.

Esta viagem pela vida do «ti Malhadinhas», com a sua linguagem de cariz popular, é bem real. Tão real que chegou ao fim. A morte já a sentia António Malhadas quando, doente na cama, lamentou a recusa da mulher, Brízida, em lhe chegar a arma: «Nem da espingardinha me deixas despedir. Olha que a não levo para a tumba, alma de Barbazu!»
Se não foi desta que morreu, foi passado algum tempo. Não muito, mas o suficiente para se enfurecer com quem já o dava por morto e ele a sentir-se ainda «para lavar e durar». Mas uma tarde …

Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho do marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E ─ o justo juiz lhe perdoe as facadas que as não deu em nenhum santo ─ nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem para a outra do negro rio.
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5 de fevereiro de 2014
Rompendo o silêncio, de Alice Walker

Rompendo o silêncio, de Alice Walker


por Raquel da Silva Barros

Meu primeiro “encontro” com a escritora afro-americana Alice Walker aconteceu com a leitura de sua obra-prima, A Cor Púrpura (1982), romance que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer de Ficção, sendo a primeira escritora negra a auferi-lo, e a adaptação cinematográfica homônima, dirigida por Steven Spielberg. Os laços que construímos nesse diálogo inicial foram suficientes para que uma amizade surgisse. A partir daí, abracei a missão de difundir sua escrita, que denuncia, principalmente, a discriminação gênero-racial, evidenciando a mulher negra e sua trajetória de luta.

Conhecida por sua atuação militante contra os diversos tipos de opressão, Walker já fez várias viagens nas quais testemunhou o sofrimento de pessoas que tiveram seu cotidiano abalado pela violência humana. Em 2006, ela foi a Ruanda e ao Congo, com a Organização Women for International Women, e em 2009, viajou para a Palestina/Israel com o grupo pacifista CODEPINK. Os relatos dessa dolorosa excursão aos “umbrais dos infernos” são apresentados em um de seus livros mais recentes, Rompendo o Silêncio, publicado no Brasil em 2011 pela Editora Bertrand Brasil.

Tal como Coração das Trevas, de Joseph Conrad, Walker elabora uma espécie de diário de viagem, no qual tenta traduzir em palavras as histórias que escutou e a tristeza nos olhos de quem vivenciou o horror. Através dessa conexão literária, a escritora busca vincular nosso tempo ao do escritor de origem polonesa, mostrando que a discussão sobre questões polêmicas, tais como o genocídio, não está desatualizada. Pelo contrário, ela deve ser reforçada, uma vez que esse assunto costuma “estar fora das lentes da grande mídia e, principalmente, dos governos”, como afirma Walker em entrevista. Com o objetivo de alcançar o maior público possível, a escritora elabora um livro em formato curto e de rápida leitura. Mesmo não escrevendo sobre tudo aquilo que viu, ouviu e sentiu, ela destaca a importância de disseminar as situações de violência e de sofrimento pelo mundo.

Genocídio no Congo

Nas primeiras páginas, Walker fala de uma visita feita a uma jovem mulher (trinta e seis anos na época), chamada Generose, que estava em um hospital local. Ela habitava em uma aldeia no Congo que fora aterrorizada pelos membros do Interharmwe (uma das milícias armadas responsáveis pelo genocídio em Ruanda), fazendo com que muitas famílias dormissem na floresta ou se escondessem em seus próprios campos, quando não eram brutalmente assassinadas. Certa noite, estando em casa com os dois filhos e o marido doente, Generose teve sua casa invadida por tais assassinos que exigiam comida. Irritados com a pouca provisão alimentar, eles esquartejaram seu marido e a amarraram junto aos filhos. Depois, cortaram um pedaço de sua perna e fritaram-na. Quando parecia cozida, ofereceram às crianças, obrigando-as a comer a carne da própria mãe. O menino, que se recusou a tal prática, foi morto a tiros, sem nenhuma hesitação. A menina, por sua vez, temendo o mesmo destino do irmão, arriscou morder um pedacinho. Se ela sobreviveu ou não, Generose não pôde afirmar, pois conseguiu se arrastar para longe – e lutar pela vida –, não presenciando os demais acontecimentos daquela noite sangrenta.

Diante dessa história, Walker adoeceu e teve que recorrer ao círculo budista do qual faz parte. Diante dessa história, é impossível não se emocionar e perceber o quanto somos pequenos e impotentes frente à brutalidade e à ignorância humana. Por causa dessa história, já presenciei diversos “Nossa!”, “Que terrível!”, além das várias expressões faciais, que misturam horror e espanto. E é por essa história, por Generose, e por tantas outras famílias vítimas da violência física e psicológica, que a escritora escreve e anseia conscientização.

“O que aconteceu com a humanidade? [...] Porque, o que quer que estivesse acontecendo com a humanidade, estava acontecendo com todos nós.
Não importa se a crueldade está oculta; não importa se os gritos de dor e terror estão distantes. Vivemos em um único mundo. Somos um único povo.”

Constantemente reforçado no livro, a percepção do mundo como o lar de uma única e grande família – a humana –, em que todos têm os mesmos direitos e deveres, independente de raça, cor, religião, é o principal impulsor da escrita e da prática ativista de Walker. Utopia? Talvez. Mas é a crença na mudança que faz com a autora continue testemunhando, escrevendo e denunciando. Assim, ela leva ao mundo a realidade dos locais aonde muitos não podem ir.

Destruição na Faixa de Gaza

Do Congo à Faixa de Gaza, Alice Walker, recuperada do primeiro choque, enfrenta, mais uma vez, a cruel realidade de seus “irmãos”. Antes mesmo de chegar ao destino, sendo mantida na fronteira por cerca de cinco horas, a escritora se vê obrigada a se habituar aos constantes bombardeios.

“Eu nunca havia estado tão perto de bombas sendo lançadas e aproveitei a oportunidade para questionar minha vida. Será que tinha vivido da melhor maneira possível?”

Durante sua estadia nos territórios da Palestina/Israel, ela rememora a situação de opressão racial nos Estados Unidos da América, da qual foi vítima. Sentindo-se em casa, devido ao “sabor de gueto” que a Cidade de Gaza lhe proporcionara, ela vê em cada história, em cada escombro e em cada lágrima derramada, o seu próprio passado. Assim, cria conexões entre as violências atuais e a difícil história de vida do povo negro estadunidense.

“Lembrei-me em voz alta, já que éramos do Sul, da minha raiva diante das humilhações, dos atentados e dos assassinatos que, durante séculos, fizeram do pranto uma atividade sem-fim para os negros, e de como, quando finalmente íamos a um tribunal que deveria oferecer justiça, o juiz nos culpava pelo crime cometido contra nós mesmos, chamando-nos de chimpanzés por estar fazendo estardalhaço.”

Hoje, verdadeiramente, Walker quer fazer “estardalhaço”. Por isso, ela escreve Rompendo o Silêncio com a linguagem “apropriada” para narrar/denunciar as situações desumanas dos países que visitou. Não há camuflagem. O leitor se depara com um texto difícil de ser digerido, porém sincero. Consciente das críticas, a escritora não se permite transformar em um conto-de-fadas a história de homens e mulheres assolados pelas consequências de guerras e de conflitos políticos. Afinal, quando fala da opressão, ela fala pela alma de quem já passou pela “sombra do véu” – metáfora criada por W.E.B. Du Bois para se referir à discriminação que ele viveu desde pequeno.

Rompendo o Silêncio representa, enfim, outro passo dado por Walker em direção à mudança e à conscientização das pessoas. Mais do que um simples diário de viagem, ele é a prova de que somos uma só família; de “que ferir propositadamente qualquer um de nós significa prejudicar a todos nós”.  Evidência disso é a mistura de povos, tempos e lugares que a escritora apresenta nessa instigante leitura. Além de proporcionar o acesso a uma realidade, por muitos, desconhecida, em função do poder conservador da mídia, o livro de Walker nos desafia a fazer parte desta marcha, para a qual é preciso ser ousado e destemido.

“Ainda que o horror do que testemunhamos em lugares como Ruanda e Congo e Burma e na Palestina/Israel ameace nossa própria capacidade de falar, nós falaremos. E, como quase todos no planeta agora reconhecem nossa marcha coletiva contra o desastre global, a menos que mudemos profundamente nossos métodos, nós seremos ouvidos.”

O grito de Walker alcançou os meus ouvidos e eu resolvi atendê-lo. Se ela acredita na mudança através de um livro de cento e nove páginas apenas, eu ouso acreditar que um simples texto como esse possa contribuir na adesão de novos leitores e, principalmente, de novos militantes a favor da salvação da humanidade.




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