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12 de outubro de 2013
  Os labirintos do amor - e da moral

Os labirintos do amor - e da moral


Comecei a ler o novo romance de Ricardo Lísias, Divórcio (Alfaguara, 237 págs) com uma expectativa enorme. Não teve jeito: comecei a julgar o livro pela capa, que é ao mesmo tempo intrigante, profunda e repleta de palavras, mesmo mostrando alguém sem condição de esboçar qualquer gesto.


Imagine a situação: você casou por amor, com alguém que espera ficar junto até a velhice. Um dia, inadvertidamente, diante da lembrança de que precisa pagar uma conta, abre uma gaveta. Lá, além da conta, você vê algo que parece um diário. Um diário que pede para ser visto. Não porque você gosta de bisbilhotar as coisas de quem quer que seja, mas porque, vivendo numa casa com seu cônjuge e ninguém mais, ele parecia gritar um LEIA-ME, tal como o vidrinho de Alice clamando, BEBA-ME. E você o faz. Sem acreditar nas palavras, você descobre que aquela pessoa com quem se casou tem opiniões a seu respeito que, até dois minutos atrás, você ignorava completamente. Não, você não se casou com uma atriz. Mas, com certeza, com um ser humano sórdido e absolutamente dissimulado. Numa antevisão do abismo no qual você mergulhará nos próximos dias e meses, você sai de casa e faz cópias de todas as páginas, inconscientemente sabendo que precisará de cada uma delas para curar sua dor através da escrita, da literatura que, pra você, é a única coisa capaz de salvar você de si mesmo.


Digamos que este seja o mote inicial. A partir daí, o leitor é jogado dentro de um labirinto, tal qual o Minotauro de Creta, e, assim como ele, é levado a devorar. Ao contrário do animal metade touro, metade gente, que devorava humanos, nós seguimos engolindo páginas, a fim de compreender não onde a trama vai dar – afinal, isso está explicitado desde o título –, mas na transformação por qual passará Ricardo Lísias ao final. O que saiu daquele imbróglio de sentimentos?


Não é por acaso que cada capítulo é descrito como um "quilômetro". O protagonista começa a correr como forma de expurgar determinadas energias de dentro de si, e tentar dar um sentido aos seus pensamentos. Acompanhamos Ricardo Lísias neste processo, e sua evolução constante nos treinamentos leva à sua própria evolução. A alguém que começa a seguir o fio do novelo de lã deixado à porta do labirinto, rumo à saída.


A sensação, entretanto, é a de estar afundado num romance onírico, em que o sonho/pesadelo é confundido com os tons de uma pretensa realidade. Kafka manda lembranças. 


Ao longo do livro, as frases curtas do autor incomodam. Parece que ele tem medo de ir adiante e fazer frases longas, expor longos pensamentos. Não. É o reflexo de um homem que perdeu não apenas a esposa, mas a crença em quase tudo, e as frases curtas são, também, o reflexo desse homem sem chão: ele não tem condição de escrever longamente e, por conseguinte, consegue dizer muito em pouco.


Não se pode afirmar que tudo ali tenha acontecido – eis aí onde entra a história do "romance". O próprio autor já andou dizendo que não procurem-no verdadeiramente no livro: ele, ali, é um personagem. (Aliás, esse é outro pensamento-labirinto do personagem: a sensação de estar sendo um personagem de uma história sua). E é por essa sensação (também), que o livro vai se construindo dentro do leitor. Tal como alguém perdido num ambiente desconhecido, as informações vêm e vão. Coisas ditas anteriormente são repetidas, dentro de outros contextos. Trechos do diário publicados editadamente são acrescidos de detalhes mais adiante, com as informações anteriores repetidas. É como ler um conto de Borges, em que tudo explica os detalhes, e os detalhes formam o todo. As informações são circulares.



Através do livro ficamos sabendo de onde vem a família de Ricardo Lísias. Fotos são utilizadas esparsamente, durante todo o romance, sem nenhuma conexão aparente. As fotos são inteiras, mas funcionam como peças de um quebra-cabeça: o que é a ideia de família pra este narrador e, mais do que isso, qual a importância que essa ideia tem? Pois este é mais um recurso utilizado pelo autor para nos dizer, Toma. As peças estão no chão. Agora sente aí e monte. Dono de opiniões fortes sobre fidelidade, ética e moral dentro de um relacionamento, o narrador jamais volta atrás, nem mesmo diante da dúvida. Há um momento em que ele afirma que, ao fazer uma espécie de lista com tudo aquilo que o maltratou durante o período pós-casamento, ele não escreveu a palavra mulher. Ou seja, sua crença no amor possível, na finitude de um relacionamento ocasionada apenas pela morte permanece firme, ainda que não tão fortes, talvez. Não naquele momento.


O fato é que é impossível sair incólume deste livro a um só tempo onírico e tão calcado na realidade. Ricardo Lísias, o escritor, escancara não apenas com a tenuidade dos valores morais (e profundamente humanos), e não apenas com a falta de moral de determinada classe de profissionais e grupo de pessoas. Ricardo Lísias, o escritor, e o narrador, arregaçam para nós, leitores, que viver é andar em campo minado o tempo inteiro. Viver é intimidador, e a vida – Vida – vai sempre trazer mais motivos pra gente chorar do que pra rir. Mas que, nem por isso – e é aí onde reside a boa notícia – percamos aquilo a que se pode chamar de fé no Outro. Ou, simplesmente, a vontade de fazer com que as coisas funcionem num relacionamento. Qualquer que seja ele.


Divórcio é, afinal de contas, não unicamente um livro sobre uma ruptura inevitável. É, seguramente, um livro sobre a importância de perder-se para achar caminhos, a necessidade do sim, para que outros sins possam ser ditos com ainda mais convicção. São 237 páginas em que o personagem se reconstrói a partir do quase nada que se tornara, para que, a partir dali, possa ser, inequivocamente, não apenas outra coisa. Mas outras. Porque abrir-se para a vida, compreendemos ao final, é viver a pluralidade, é permitirmo-nos o olhar sobre o simples. 


Divórcio talvez seja, em essência, uma ode ao homem comum. Ao homem que compreende sua finitude – e que, por isso mesmo, compreende e valoriza cada pequeno momento. Porque uma vida com significado é uma vida, afinal, vivida com amigos, familiares... mas tornar-se ainda mais dignificada se vivida a dois, com os prazeres e achaques, sim. Mas compreendendo que cada dia é exatamente isso: um dia para ser vivido. Eis que, depois do emaranhado de tessituras narrativas, nos despedimos do romance com um pedido do narrador feito àquela que ele constantemente chama de "transtornada": "Esqueça-me".


Ela pode até conseguir. O leitor, este se lembrará do Ricardo Lísias, personagem e escritor, ainda por um longo tempo após a leitura deste livro, misto de romance e confessionário. E que, como todo bom romance, não tem fim.



por Marco Severo
NOTA
O texto aqui publicado faz parte de uma parceria entre o LiteraturaBr e o Blog Qual é a tua obra?.

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15 de outubro de 2012
Eu amo o mundo, disse Quintana

Eu amo o mundo, disse Quintana





     Constatei, com a leitura deste livro, que realmente sou um apaixonado pelos poemas do velho alegretense (que até na origem traz uma sinonímia de alegria). Poderia usar as mesmas palavras que o poeta utiliza no poema Simultaneidade, tamanha a minha alegria ao ler o livro:


– Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!
  Eu creio em Deus! Deus é um absurdo!
 Eu vou me matar! Eu quero viver!
– Você é louco?
– Não, sou poeta. (p.169)

O poeta em A vaca e o hipogrifo se faz presente em vários dos textos (crônicas, poemas, aforismos, e até mesmo tudo isso misturado em um texto só), digamos, quintanescos.

          Não muito diferente do Caderno H, o livro traz assuntos recorrentes da poesia de Quintana, como a morte, o silêncio, o cotidiano; porém, há novidades. Deus será um tema presente em várias das crônicas-poéticas do autor, e alguns textos em forma de diários surgem após alguns pequenos aforismos ou reflexões.

Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede lugar à idade das reflexões – terá sido a sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice. (p.189)



A cada página virada, de A vaca e o hipogrifo, o poeta sorridente nos faz parar para pensar ou para deixar que os nossos lábios se estiquem para um canto da boca, deixando-nos mostrar um sorriso malicioso ou displicente com o conteúdo que encontramos.

Deus criou o mundo “e viu que era bom”. Desde então, nunca faltou um poeta que igualmente criou algo e também viu que era bom. Mas trata-se de poetas medíocres... (p.119)

Esses poetas medíocres, que Deus criou, são presentes nos textos encontrados em A vaca e o hipogrifo e chamados pelo poeta à ação. Notei que Mario possui uma grande preocupação entre o poeta-poema-leitor. Em vários poemas põe a culpa no leitor, em outros diz que a poesia não há de ser entendida, mas sentida. Tenta também dar algumas das características do poema e da poesia, sempre mostrando as qualidades, e que o erro está em quem lê, que sempre quer achar algum sentido interpretando o poema, ao invés de sentir o poema. Como no poema Intérpretes:


Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação. (p.71)


Questiona também a “arte da leitura”, colocando-nos como seres decadentes pelo não-entendimento da poesia:

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos... A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas. A poesia é irredutível. (p.79)

Mario, em 1977, traz como título desse poema 2005, a certeza do que vemos hoje no mercado editorial. Os grandes romances, como Guarani e Dom Casmurro, de José de Alencar e Machado de Assis respectivamente, são exemplos do que é dito no poema. E a poesia, poderá ser ela transposta para os quadrinhos? A resposta de Mario é contundente: A poesia é irredutível (!).
           
São muitos os poemas e não podemos tratar de todos, devido, obviamente, a extensão do livro, mas podemos terminar sobre essa questão, poeta-poema-leitor, relatando o Pequeno esclarecimento que o poeta nos traz sobre isso:

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês. (p.140)

E esse silêncio era importante para o autor já que é ele “que torna tão impressionante – tão de outro mundo – uma rua numa tela”.
            
Os textos que incorporam A vaca e o hipogrifo foram retirados da coluna intitulada Caderno H, que possuía no jornal Correio do Povo de Porto Alegre e refletiam, por vezes, o que autor pensava ou com o que se preocupava diariamente. A partir das suas crônicas-poemáticas, ficamos sabendo quais eram algumas de suas leituras, pois em seus textos ele trazia referências como Metamorfose de Kafka; os personagens Cecília e Peri de José de Alencar, assim como As Minas de Prata do autor cearense; os contos de Guy de Maupassant; os fantasmas de Hamlet e de Yorick.


Tudo isso sai de dentro da caixola do autor Mario Quintana, que sempre nos faz sorrir ou até mesmo temer a morte. A opinião ferrenha do autor em defesa do poema encontramos não só nesse livro como em outros nos parece ter sido uma postura defendida por ele até os seus últimos dias. A sua escrita não é como um martelo nas mãos de um ferreiro, mas como um machado nas mãos de um lenhador. Lapida de forma ágil e simples, numa velocidade inconstante, que com o tempo só tende a ficar mais certeira ainda, precisando de poucas palavras para exprimir o muito que, em alguns momentos, não compreendemos.
          
Assim se faz a escrita desse poeta alegre, desse poeta quisto pelos leitores que se iniciam na poesia, por ter nas palavras dele o “fácil”, enganador, sentimento de entendimento sobre o mundo e sobre o homem. Mario Quintana é feito um ser mitológico, mas, que ao invés de ser onívoro como o Hipogrifo, prefere a ruminação de prosas e poemas como a vaca. 



Livro: A vaca e o hipogrifo. Mario Quintana. Editora Objetiva (Alfaguara). 2012. R$ 30,00. (Comprei por R$ 10,00 em promoção)
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