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10 de dezembro de 2012
A Capital, de Eça de Queirós

A Capital, de Eça de Queirós




                                                                                                                    
por António Carinha

Artur Corvelo é tímido, desajeitado, sem qualquer aptidão para o mais simples relacionamento social e mau escritor. Afirmar que alguém é mau escritor pode ser constrangedor e tão desagradável como dizer que determinada pessoa é feia. Talvez o mais certo seja afirmar que determinado texto está mal escrito ou que determinada pessoa não está bonita em determinado momento. Mas Artur Corvelo é mau escritor. Sem constrangimentos.

Após avanços e recuos nas negociações com Ernesto Chardron, o editor que iria publicar A Capital, de Eça de Queiroz, cuja imaginação e método de trabalho faziam com que, muitas vezes, começasse uma obra sem ter terminado outra, abandonou, ou guardou, a história do aspirante a poeta e dramaturgo. Abandonada ou guardada, a verdade é que A Capital andou desaparecida durante muitos anos. Os seus manuscritos foram descobertos, pelos filhos de Eça, muitos anos após a sua morte. Decifrar foi a expressão usada pelo filho do escritor para transmitir o trabalho que implicou tentar ordenar aquelas folhas e descobrir o que elas continham. A estas folhas uniram-se outras, que estavam no Brasil, sob a forma de provas corrigidas e de mais originais, que o filho de Ramalho Ortigão encontrou entre os muitos papéis de seu pai, que lhe foram enviados de Lisboa para o Rio de Janeiro, onde residia.

Com tantos anos e tantas viagens passadas, foi necessário organizar partes do texto, eliminar repetições, e realizar um trabalho que ultrapassou a simples revisão, tarefa realizada por um filho de Eça. O filho não matou o pai. O complexo de Édipo não é para aqui chamado. Esta é uma obra de Eça de Queiroz. Apesar de não ser das obras mais celebradas do escritor, A Capital apresenta um conjunto de tipos e de costumes que não escondem a autoria. O Eça está ali com a crítica aos oportunistas de ocasião, aos falsos intelectuais, aos vícios de parte da sociedade que vive de expedientes menos honestos, mas que brilha em salões de festas e nos corredores do poder.

A Capital também pode provocar no leitor um sorriso de cumplicidade. A sensação de que Eça não esqueceu a Questão Coimbrã é forte em algumas passagens do texto. E não será Artur Corvelo um dos protegidos de António Feliciano de Castilho? Por um lado sim, já que o jovem aspirante a escritor usa de uma linguagem e de uma estética ultrapassadas, onde domina o formalismo vazio de conteúdo que Eça de Queiroz, Antero de Quental ou Teófilo Braga tanto criticaram. Por outro lado, Artur nunca seria um desses protegidos de Castilho. Afinal, o sucesso apenas passou pela sua vida em sonhos e delírios, e nunca teve ninguém verdadeiramente empenhado, mesmo que a troco de um elogio (Antero chamou ao grupo de Castilho e seus protegidos a «escola de elogio mútuo»), na edição da sua tão trabalhada obra poética e dramatúrgica. Mas, afinal, quem é Artur Corvelo?

Artur Corvelo nasceu em Ovar. E é em Ovar que a história começa a ser narrada, numa prolepse que remete o leitor para a fase da vida em que o sonho de glória na literatura e a falta de dinheiro constituem as principais preocupações de Artur

A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.

Esta é a fase da vida do aspirante a escritor, mas não da história. Para chegar lá, o leitor terá de passar novamente por Ovar, onde Artur nasceu, por Coimbra, para onde foi estudar e de onde veio sem sucesso académico e, por morte do pai, sem dinheiro, e pela sua conturbada vida em Oliveira de Azeméis, onde residiam as tias que lhe deram o apoio de que precisava, estando só e sem dinheiro.

Quando o comboio chegou, começam a ser descritos os falhanços e devaneios de Artur. O padrinho, supostamente de viagem para Lisboa, e que esperava ver quando o comboio parasse, não apareceu. Mas a viagem não foi em vão. Foi lá que Artur reparou na «senhora de vestido de xadrez».

Arthur então reparou n'ella; e pareceu-lhe tao linda, que ficou com os olhos pasmados n'um enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração: nunca vira aquella delicadeza fina de pelle, nem uma doçura tao tenra da linha oval; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco tristes, enterneciam (sic).

Após a morte do padrinho, que lhe deixa apreciável quantia de dinheiro, Artur parte para Lisboa em busca da glória literária. Na capital portuguesa, mantém a esperança de encontrar «ella».

Artur não se consegue livrar desse pensamento e dos amigos que arranjou. O leitor que gosta do autor de Esmaltes e Joias deseja-lhe, com certeza, inimigos. Com amigos como Meirinho, «estimado em todas as capitaes da Europa», Melchior, «um jornalista, um literato», Bento Correia, «uma celebridade antiga, quasi classica, jornalista, funccionario», e muitos mais que lhe surgem no caminho, Artur Corvelo não precisa de inimigos. Os seus companheiros da «pandega», mas não da divisão de contas no final das festas, bajulavam Artur com uma crueldade aterradora. Apenas a inocência e a desesperada vontade de publicar o seu livro de poemas e de levar à cena o seu drama Amores de Poeta se aproximam de uma justificação aceitável para tanta ingenuidade.

De esperança em esperança e contas em contas, a vida de Artur em Lisboa caminha para o desespero e, mais uma vez, para a pobreza. Sem nunca perder uma identificada bipolaridade, encontra na intimidade de Concha algum prazer e alegria. Esmaltes e Joias é publicado, mas o poeta não conhece a tão ansiada glória nem as vendas. Sem meios para sobreviver em Lisboa, acaba por regressar a casa das tias em Oliveira de Azeméis, onde também retoma a sua profissão de boticário.




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