Dicionário de bolso, de Oswald de Andrade
Falar de Oswald de Andrade e não mencionar alguns dos seus feitos na “era” modernista não é fácil. O autor paulistano no meio literário virou ícone e não pode, assim como não é, ser deixado à margem da Literatura Brasileira, como ocorre com tantos outros grandes escritores.
Apesar de ser um nome bastante conhecido entre os leitores, Oswald ainda não possui a atenção devida sobre suas obras. Homem de linguagem, por vezes, “desconexas” dificulta a leitura de alguns livros e sob a difícil luz da interpretação não consegue dar vazão aos pesquisadores e estudiosos.
Apesar disso, Maria Eugenia Boaventura, pesquisadora da vida e da obra de Oswald e do antropofagismo, foi organizadora do Livro Dicionário de Bolso. É ela quem na introdução do pequeno livro nos indica alguns caminhos para uma “melhor” compreensão da obra.
O livro é preenchido por inúmeros verbetes, que foram encontrados em alguns manuscritos esquecidos de Oswald. Os verbetes são “explicados” a partir de nomes que vão surgindo no livro, conhecidos por nós e pela História. O criador de Serafim Ponte Grande fala desde o primeiro burguês, Caim, até os políticos brasileiros. Desde Aristóteles até Einsten, sempre utilizando um teor irônico em quase todos os verbetes. Boaventura nos diz como se deu a escolha dos nomes existentes no Dicionário de bolso:
"Oswald não esclareceu o critério adotado na escolha dos nomes, bem como em sua montagem. Figuras históricas e bíblicas, nomes ligados à tradição greco-latina, representantes do pensamento universal, políticos, grandes escritores, estrelas de cinema se misturaram de modo aleatório nas páginas do exótico dicionário." (p.8)
Ao ver da crítica, Oswald, apesar de não deixar às nossas vistas que caminho ele teria trilhado, ele possuía um objetivo, o qual ela entendia ser “reescrever sucinta e fragmentariamente a história, a partir de um pequeníssimo dicionário de bolso”. Diz ela:
"Começou por Caim – “o primeiro burguês” – e fechou o círculo, concluindo seu texto com o Proletário – “quem se revolta afinal e desencadeia no mundo a revolução que o fará coveiro de atitudes e de lutadores em prol da melhoria social da humanidade”. Em sentido inverso, garimpou, ao longo da história, as personalidades que inspiraram e apoiaram o surgimento da divisão de classes, da exploração do trabalhador e do homem simples." (p.09)
O nome do livro não foi sugestão de Oswald, mas da organizadora, que viu em Serafim Ponte Grande, no personagem José Ramos, que era autor de um dicionário de bolso inventado, a possibilidade de não fugir dos pensamentos do autor.
O engraçado-interessante do livro é que nos faz rir e ao mesmo tempo nos faz parar para verificarmos quem são esses “ilustres” que o autor menciona. Tive que recorrer às “enciclopédias” virtuais inúmeras vezes e ler algo sobre eles para tentar entender o que Oswald quis dizer com aquele seu chiste.
De fato, o pequeno livro possui uma ampla abertura para a busca de um conteúdo vasto, pois sem querer acaba por nos direcionar sobre um "Breve Estudo da História". Se o leitor tiver a paciência devida e o tempo necessário verá que alguns dos nomes-verbetes mencionados, em determinados momentos, estão ligados, intimamente ou não, a fatos da história. Os filósofos, que vão sendo mencionados, possuem aos seus pensamentos e suas contraposições de ideias a partir do que o modernista criara utilizando-se das teorias de terceiros. É incrível como com poucas palavras pode-se dizer muito e com conteúdo.
Tentei investigar mais acerca sobre o livro, mas a fundamentação teórica dele é muito limitada e o que se pode melhor encontrar sobre ele foram textos e livros da própria organizadora, já mencionada aqui. O que se pode ver também é que o autor tinha como foco a revolta social, a revolução, a crítica à igreja, daí, apesar de toda a sua ironia, o livro continha e contém uma preocupação com o meio em que vivíamos e em que vivemos.
Vale a pena ler Oswald de Andrade, e Dicionário de Bolso, livro póstumo do autor, pode vir a ser uma ótima porta de entrada para os novos leitores. Deixamos alguns dos verbetes para saciar a sua sede:
Freud
Diretor espiritual da burguesia.
Aporeli
O homem que ri.
Lampião
Vírgula na História do Brasil.
Einstein
Passa-tempo perdido no espaço.
Mário de Andrade
Macunaíma traduzido. Autor de uma canção para fazer o seringueiro dormir em vez de se revoltar. De outra, para quando encontrar o capitão Prestes, emgabelá-lo com nomes de peixes e atrapalhar assim a revolução social.
Livro: Dicionário de Bolso. Oswald de Andrade. Organização, introdução e notas: Maria Eugenia Boaventura - 2ª Ed. - São Paulo. Globo. 2007. R$ 27,00


