Desencanto, por Manhana Castro
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Ele
a convidou para sair, ela resolveu aceitar o convite. Ele sugeriu o shopping; ela,
um museu.
Ele
ficou sem entender por que um museu e, mesmo contrariado, resolveu aceitar a
sugestão. De maneira amável, ela disse que poderia ir ao shopping em outra
ocasião, mas gostaria de sair para um lugar um pouco diferente do comum.
Entraram
no museu.
Ela
ficou atônita diante de um quadro estilo Barroco, uma tela do séc. XVII.
A
pintura era uma mulher deitada sobre uma espécie de divã com um livro nas mãos.
O rosto dela tinha uma vivacidade quase real, daria para sentir as mesmas emoções
do seu olhar perdido sobre as letras. Os contrastes intensos de luz e sombras
causava uma epifania na outra moça.
Seus
olhos estavam embebidos em lágrimas. Ele, perplexo e aturdido, não compreendeu
o porquê daquela emoção “desnecessária”.
Ela
tentou explicar: Imagine que essa tela foi pintada no séc. XVII, como será que
a senhora se sentia no momento exato da pintura? Parece-me que o pintor revelou
essencialmente a consciência de uma mulher; é engraçado como a noção de tempo
varia de acordo com a visão de mundo de cada um, creio que essa tela do séc.
XVII poderia representar, muito bem, outra “figura feminina” do séc. XXI.
Ele
demonstrou certa estranheza com a fala da senhorita, não entendeu o significado
daquela emoção “sem sentido”. Na expressão facial ficou explícito certo
desprezo ou certo tipo de pensamento “natural”. Que bobagem tudo isso!
No
caminho ficaram mudos, em silêncio... Apenas uma pausa para ele reclamar sobre
o preço da gasolina. Ela meneou a cabeça
graciosamente.
Ele
a deixou em casa e disse que poderiam marcar outros encontros, ela sorriu sem
jeito e constrangida, sabia que não se encontrariam mais no século XXI.

