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9 de abril de 2014
Golpe Haikai: Poesia letal, espada de samurai.

Golpe Haikai: Poesia letal, espada de samurai.



 por Dassayeve Lima

Pode até ser difícil de acreditar, mas a imagem acima é de uma das poesias mais importantes do oriente, e a mais famosa do Japão, escrita há mais de 300 anos por Matsuo Bashō.

Bashō, considerado o pai do Haikai e poeta mais importante do Japão, nasceu no ano de 1644, em Tóquio no Japão, e faleceu em 1694, em Osaka, no mesmo país, tendo durante sua vida, vários seguidores, que buscavam a essência da poesia Haikai, e do estilo de vida Zen. Foi um samurai que virou um monge Zen, e fez da poesia uma prática "DÔ", ou seja, uma atividade ligada ao budismo Zen do Japão. Os “Dôs” são caminhos utilizados pela prática Zen budista. O ritual do Chá, por exemplo, é o “Cha-dô”, ou “Caminho do Chá”, e é uma tradição de cunho essencialmente social, no qual um indivíduo prepara a cerimônia que pode durar até quatro horas, como uma demonstração de respeito e honra aos seus convidados.

No caso do Haikai, o caminho é o “Haiku-Dô”. No Haiku-Dô, a poesia não é utilizada no uso meramente literário: ela tem como objetivo facilitar a iluminação espiritual. Através da interrupção do pensamento formal, o Haikai permite que o praticante Zen possa apreender conteúdos que normalmente seriam inacessíveis à razão, como se fossem pequenos insights. Essa característica específica da escrita é chamada de Koan.




Esse tipo específico de poesia, o Haikai, na sua forma clássica, segue algumas formas pré-estabelecidas. O Haikai não pode ser em sua forma original, uma poesia que expresse algo pessoal. Geralmente, é interpretado como um tipo de fotografia em texto, que capta um instante fugaz, geralmente fenômenos da natureza, no qual se utiliza apenas 17 silabas (três versos de 5-7-5), ou seja, se utilizando da velocidade e da simplicidade. É como descrever um momento, experiência ou acontecimento, utilizando o mínimo possível de sílabas para isso. Rápido e letal, como um golpe samurai. O Haikai não utiliza rimas, e segue a seguinte estrutura:

X X X X X - 5
X X X X X X X - 7
X X X X X - 5

Como se diz, “toda tradução é uma traição”, e no Haikai, isso é radicalizado. A tradução de um Haikai para outro idioma, sempre implica uma pobreza no sentido, quando não, uma alteração dele, já que nosso Alfabeto (ABC...), e modelo de escrita na horizontal, da esquerda pra direita, (“Gutemberguiano”, como diria Leminski) não dá conta da experiência estética e escrita quase que artesanal do Haikai. O Haikai não é só escrito, ele é também desenhado.

No Brasil, para se ter uma ideia, foram feitas várias traduções da poesia acima, conhecida como a “Antologia da Rã”, que pode parecer aparentemente simples, caso o que seja levado em consideração seja o "texto" (Mas um Haikai nunca é só um texto).

FURU IKE YA
KAWASU TOBIKOMU
MISU NO OTO

Uma das traduções mais conhecidas é a de Paulo Leminski:

"Velha lagoa
O sapo salta
O som da água”

 No entanto, por incrível que possa parecer, essa é apenas uma das dezenas de traduções de uma das poesias mais famosas do oriente. Ela aparenta ser simples, mas como dizia 
Paulo Leminski, de poesia e de Zen, não se deve entender, se deve experimentar. Algumas das traduções da Antologia da Rã são:

VELHA
LAGOA
UMA RÃ
MERG          ULHA
UMA RÃ

AGUÁGUA
Décio Pignatari

“O velho tanque
                                  rã salt’
                                          tomba
                                                   rumor de água”
                        Haroldo de Campos.

Um templo, um tanque musgoso;
Mudez apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água. Mais nada...”.
Wencelau de Moraes

“Velho tanque abandonado ao silêncio...
lança-se a rã num mergulho:
quase inaudível som da água.”
Antônio Nojiri

Embaixo do tanque
Não encontro o que procuro
Uma rã me assusta.”
Clóvis Moreira dos Santos


No lago, mergulha
uma rã... Na água, a manhã
verde-azul borbulha...”.
Cyro Armando Catta Preta

No entanto, nem só de Japão e Zen vive o Haikai. O estilo ganhou adeptos no mundo todo, e é venerado por escritores de diversos estilos e movimentos literários. Jack Kerouac, por exemplo, eterno ídolo do movimento beatnick, autor de clássicos como “On the Road” (Pé na Estrada) e “The Town and the City” (Cidade Pequena, Cidade Grande), se aproximou da cultura oriental e do Zen budismo no final de sua vida, e dessa aproximação surgiu sua paixão pelo Haikai, que deu origem a um tipo de Haikai ocidentalizado, e por que não dizer: “Haikai Beatnick”. Em sua última entrevista, publicada na The Paris Review, em 1968, cedida a Ted Berrigan, Kerouac explica um pouco sobre o que é o Haikai, e como ele escreve os seus.

TED BERRIGAN — Você disse que haiku (Haikai) não é escrito espontaneamente, mas trabalhado várias vezes e revisado. Isso se aplica a toda a sua poesia? Por que o método para escrever poesia se diferencia do método para escrever prosa?

KEROUAC — Não, primeiramente, escrever em haiku fica melhor quando se revisa e trabalha várias vezes. Eu sei, eu tentei. Deve ser completamente econômico, sem floreios e linguagem rítmica, deve ser como uma simples foto com três linhas. Pelo menos foi assim que os mestres mais velhos fizeram, gastando meses em três linhas, e dizendo:
 No barco abandonado,
O granizo
Bate violentamente.

Isso é Shiki. Mas para o meu verso regular em inglês, eu fiz como uma prosa corrida, e para obter isso, usei um caderno do tamanho do manuscrito original de “Vanity of Duluoz”. O rolo é feito de um papel fino de centenas de metros, para a forma e comprimento do poema, assim como um músico de jazz tem que colocar sua letra numa determinada quantidade de barras, dentro de um refrão, que se repete ao longo do texto, mas neste caso o refrão não para quando a folha termina. E finalmente, na poesia você pode ser completamente livre para dizer o que quiser, você não precisa contar uma história, pode usar trocadilhos secretos.

TED BERRIGAN —  Como você escreve Haikai?

KEROUAC — Haikai? Você quer ouvir Haikai? Veja, você tem que comprimir em três linhas uma história enorme. Primeiro você começa com uma situação Haikai — então você vê uma folha, como eu tinha dito a ela (Stella) outra noite, caindo nas costas de um pardal durante uma forte tempestade de inverno em Outubro. Uma grande folha cai nas costas de um pequeno pardal. Como você pode comprimir isso em três linhas? Agora, em japonês você tem que comprimir em 17 sílabas. Não precisamos fazer isso em inglês, pois não temos o mesmo sistema silábico que o Japonês. Então você diz: “Pequeno pardal” — você não tem que dizer “pequeno” todo mundo sabe que um pardal é pequeno, então você diz:

“Pardal
Com grande folha em suas costas —
Tempestade”

Não está bom, não funciona, esqueça.

“Um pequeno pardal
Quando repentinamente uma folha toca suas costas
Do vento.”

Ah, assim que se faz. Não, está um pouco longo. Viu? Já está um pouco longo, Berrigan, entende o que quero dizer?

TED BERRIGAN —  Parece haver uma palavra extra. Que tal tirar o “quando”? Ficaria:

Um pardal
Uma folha de outono repentinamente toca suas costas —
Do vento!

Ei, isso está bom! Acho que “quando” era a palavra extra. Você pegou a ideia aqui, “Um pardal, uma folha de outono de repente”— não temos que dizer “de repente” não é?

“Um pardal
Uma folha de outono toca suas costas —
Do vento!”




Outros Haikais de Kerouac, que ilustram o seu estilo “Haikai Beatnick” são:


“Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.”

Desci da minha
torre de marfim
E não achei mundo nenhum”

“No meu armário de remédios
a mosca de inverno
está morta de velhice.”


“Café e cigarro
Meditação Zen
Pra quê?”

Em terras brasileiras, o Haikai da “América do Sul, do sal e do sol”, teve como destaque, três escritores que se dedicaram à produção desse gênero poético: Millôr Fernandes, Alice Ruiz e Paulo Leminski. Milton Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernandes, carioca, nascido em 1923, sob o signo de Leão, foi desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor, e jornalista brasileiro. Sob sua inserção no universo da escrita Haikai, Millôr afirma:

“Meu interesse pelo Haikai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro. Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas.

Novamente, nota-se um tipo diferente de Haikai, que diferente do original japonês, não se preocupa com o número de sílabas. Uma característica marcante de seus Haikais, é que geralmente eles têm um toque de humor, e muitos deles, são versos rimados, preocupação esta que não existe no Haikai tradicional.


“Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.”


“No ai
Do recém nascido
A cova do pai.”

“Prometer
E não cumprir:
Taí viver.”


“Esnobar
É exigir café fervendo

E deixar esfriar.”


Alice Ruiz, por sua vez, é poeta e tradutora, e aos 26 anos já publicava seus poemas em jornais e revistas, lançando seu primeiro livro “Navalhanaliga”, em 1980, aos 34 anos. Foi casada com o também poeta Paulo Leminski. Até agora, Alice Ruiz tem 21 livros publicados, entre poesias, traduções e uma história infantil. Selecionar alguns Haikais de Alice Ruiz, não é tarefa fácil, no entanto, estes são alguns:

“Quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa.”
  
“Você deixou tudo a tua cara
Só pra deixar tudo
Com cara de saudade.”

“Travesseiro novo
primeiras confissões
a história do amigo”

“Amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa”

Por último, Paulo Leminski, virginiano, nascido no ano do macaco em 24 de agosto de 1944, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico, compositor, faixa preta de judô e boêmio. Como um típico filho de Virgo, tentava levar cada uma das atividades que se dedicava à perfeição. Como biógrafo, escreveu as biografias de Bashō, Cruz e Souza, Jesus e Trotski com uma identidade de escrita inconfundível. Impossível não reconhecer Leminski nas análises que este fazia da poesia do simbolista e erótica de Cruz e Sousa, no processo de humanização que este deu à Jesus Cristo, no amor que este tinha ao escrever sobre o Haikai, Bashō e a cultura Zen, e no entusiasmo que ele tinha ao escrever sobre a revolução russa e seu herói: Trotski.

“En la lucha de classes
Todas las armas son buenas
Piedras, noches, poemas”
  


Leminski se aperfeiçoou no Haikai, e o fez como nenhum outro escritor brasileiro. Conseguia dizer em três linhas, o que talvez nenhum “Poema Sujo” tenha dito, e sabia dominar e brincar com as palavras como ninguém. Dizia que todos os idiomas e técnicas que aprendeu, todos os livros que leu, tudo o que aprendeu sobre a escrita e a poesia, foi para que, com o tempo, aprendesse a escrever uma poesia letal, que atingisse o leitor num só golpe. Todo o aprendizado de Leminski foi para aprender a diminuir. Escrever menos, falando mais. Obviamente, não poderia e nem pretendo dar conta da escrita e da poesia de Leminski, mas deixo aqui alguns de seus Haikais.

Isso de querer ser
Exatamente aquilo que a gente é
Ainda vai nos levar além”

“Tudo dito
Nada feito
Fito e deito”

“luxo saber
Além destas telhas
Um céu de estrelas”

“Ameixas
ame-as
ou deixe-as”

“A noite – enorme
Tudo dorme
Menos teu nome.”



Por fim, este que considero o melhor Haikai escrito por Leminski, e um dos melhores Haikais nacionais. Ainda hoje, consigo lembrar a sensação que tive ao ler esses três versos. Acredito que nenhum romance tenha me dito tanto, ou causado tanto impacto:
  
Vazio agudo

             Ando meio

Cheio de tudo

O Haikai é a poesia da experiência, do impacto, é o insight, fotografia em texto, é Koan. Haikai é um/o golpe letal.

Ai dos meus ais!
Se não fossem
Meus haikais.


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17 de janeiro de 2014
A escrita de Charles Bukowski

A escrita de Charles Bukowski



por Dassayeve Távora Lima

Muito já foi dito sobre Charles Bukowski, inclusive, grande parte dita por ele mesmo. Romancista, contista, poeta e com algumas incursões pelo mundo do cinema, Bukowski nasceu em Andernach, Alemanha, no ano de 1920, e adotou Los Angeles como cidade natal, apaixonado pela vida boêmia que encontrava ali. Bukowski é tido até hoje como um “beat honorário”, título que sempre recusou, pois ele mesmo afirmava que fazia questão de não participar de nenhum movimento literário. Odiava falar sobre literatura e guardava um ódio especial pelos escritores em geral, chegando até mesmo a recusar-se a falar com William Burroughs, um dos grandes escritores beats, em uma determinada ocasião, afirmando que não tinha interesse nenhum no que ele tinha a dizer. Sua escrita foi marcada por três características principais: o teor autobiográfico, a simplicidade da escrita e o ambiente underground onde eram vividas as suas estórias.

O que torna o teor autobiográfico de sua escrita atrativo em alguns aspectos, é que Bukowski, encarnado em Henry Chinaski, se torna uma espécie de “sobrevivente do cotidiano”. O escritor consegue nos mostrar o óbvio aniquilador dos nossos dias, que talvez por ser tão óbvio, sequer conseguimos enxergar. Exemplos disso são seus romances “Factótum” e “Misto Quente”, no qual é apresentada uma sequência de sua vida. Misto Quente narra o sofrimento de sua infância e juventude, vivida no período da Grande Depressão americana, atormentada pelo pai violento, uma mãe passiva, poucos ou nenhum amigo, busca por afirmação, problemas com acne e consequentemente, repúdio por parte das meninas de sua idade. Obviamente, isso não é lá tão anormal ou fora da realidade de muitos, mas o cotidiano descrito de forma tão bem humorada, clara, fria e objetiva, nos faz ver como a vida em si é quase que “kafkiana”. Factótum, por sua vez, narra a continuação da vida do seu alterego, Henry Chinaski, pulando de emprego em emprego, todos eles miseráveis, enquanto tenta sua grande chance como escritor. Nas horas vagas, bebe e transa e bebe.

A simplicidade de sua escrita já teve muitas explicações. Escrita de protesto ao rebuscamento literário, vocabulário pobre, herança beatnick, até mesmo explicações astrológicas que dizem: “Bukowski tem Vênus em Virgem, isso explica sua escrita simples e pragmática”. No entanto, o que com certeza parece ser crucial, seria a “criação” da sua “escola literária”. Charles Bukowski interessava-se por tudo e sempre leu de tudo. Ele mesmo dizia que muitas vezes, como não tinha para onde ir, passava o dia na biblioteca pública, folheando todos os tipos de livros, dos grandes romances aos livros de biologia, enquanto matava o tempo para ir ao bar à noite. Dessa vasta literatura, com certeza dois nomes se destacam: Ernest Hemingway e John Fante, sendo este último, o escritor mais influente para ele. No prefácio, escrito por Charles Bukowski, em “Pergunte ao Pó”, de John Fante, ele afirma:

Uma biblioteca era um bom lugar para se estar quando você não tinha nada para comer ou beber e a senhoria estava à procura de você e do aluguel atrasado. Na biblioteca, pelo menos, você podia usar os toaletes. Eu via um bom número de outros vagabundos ali, a maioria dormindo sobre os livros.

Eu continuava dando voltas na grande sala, tirando livros das estantes, lendo algumas linhas, algumas páginas, e depois os colocando de volta.

Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.

Hemingway


Bukowski encontrou em Fante e em Hemingway a coragem e a simplicidade. John Fante, autor de “Espere a Primavera Bandini” e “Pergunte ao Pó”, é também conhecido por sua escrita simples. No seu primeiro romance, Espere a Primavera Bandini, sua narrativa é tão clara (e por que não dizer honesta?), que quase se acredita que quem o escreveu foi mesmo Arturo Bandini, a criança que protagoniza o romance. Tão objetivo que chega a ser infantil, mas nem por isso, um romance seco e pobre.  Ernest Hemingway, autor de clássicos como “O Sol Também se Levanta” e “O Velho e o Mar”, também tinha preferência por uma escrita simples. O boxeador das palavras, como diria Bukowski, escrevia quase que de forma descritiva; fotografias em formas de palavras, sem muitos simbolismos, sem adornos, sem linguagem poética desnecessária, sem mensagens subliminares, apenas a estória que lhe envolve pelo simples fato de ser uma estória envolvente. A descrição é a parte que cabe ao escritor. Inclusive, Hemingway é conhecido por ter escrito o conto mais curto do mundo. A lenda diz que o escritor foi desafiado a escrever um conto com apenas seis palavras, e assim o fez.

“For sale:                                          “Vende-se:
Baby Shoes,                                       Sapatos de bebê
Never worn.”                                     Nunca usados.”

O menor conto do mundo se sustenta em grande parte pela sugestão. Um casal possivelmente preocupado com sua situação financeira, a possível gravidez desejada, meses de gestação, compra do enxoval, a felicidade de um casal, até que a morte do bebê, que nunca teve a chance de usar seus sapatos, surpreende a todos. Tudo isso em apenas sei palavras. Sobre sua escrita, Hemingway afirma:

Então há outro segredo. Não há nenhum S I M B O L I S M O. O mar é o mar. O velho é um velho. O garoto é um garoto e o peixe é um peixe. O tubarão é todos os tubarões, nem melhor nem pior. Todo o simbolismo de que as pessoas falam é besteira. O que está além é o que você vê além quando compreende.” (Trecho de uma carta de Hemingway para Bernard Berenson, 1952)

Esses escritores tinham em comum uma escrita sem muitos rodeios, direto ao ponto, falando da vida comum, comum a eles inclusive, falando da dor sem medo ou embelezamento demasiado dela. Escrita crua e viva.

Por esse gosto pela objetividade, sem abrir mão da beleza, Bukowski também foi um grande poeta, considerado, inclusive, o maior poeta americano por Jean-Paul Sartre. Afirmava que não via sentido escrever grandes romances, se o essencial podia ser dito em duas ou três linhas de um poema. Seus poemas em geral, não eram tão curtos, mas é como se houvesse uma espécie de “preparação” para o leitor em sua escrita, para um êxtase final, no qual o leitor deve estar preparado. Em “O Pássaro Azul” (Blue Bird), um de seus poemas mais conhecidos, o método se repete. O poema fala sobre sua relação com um pássaro que vive em seu peito, e no qual os dois mantém uma relação de amor e ódio. O pássaro a qualquer momento podendo foder com a vida do Bukowski e este constantemente inalando fumaça de cigarro e despejando uísque no pássaro. No entanto, o clímax é quando Bukowski, em poucas linhas faz a seguinte pergunta:

E isto é bom o suficiente para
Fazer um homem
Chorar, mas eu não
Choro, e
Você?
                       
Admito que muitas vezes quase chorei. São as poucas linhas que dizem mais que um romance.

Por último, falar do cenário de suas estórias é falar basicamente de três coisas: bares, corrida de cavalos e Los Angeles. Vários temas permeiam a escrita de Charles Bukowski: apostas, brigas, os falidos do mundo em geral, mulheres, bebida, sexo, drogas e música clássica. No entanto, o que surpreende nas suas narrativas, é que ele consegue tratar de quase tudo no mesmo cenário underground: as ruas de Los Angeles. Quase toda sua obra gira em torno de fazer apostas nas corridas de cavalos, fugir dos ladrões nos hipódromos, brigar em bares, beber em bares, viver em bares e, até mesmo, transar em bares. Tudo isso, sem precisar sair de sua terra adotiva. 


Bukowski soube como ninguém dar visibilidade ao submundo, aos esquecidos, e fez dos losers da sua realidade, verdadeiros heróis e anti-heróis. O herói de Bukowski não é somente aquele que vence uma luta travada no bar e como prêmio recebe os agrados de uma prostituta ou uma bebida de graça. O herói de Bukowski é também aquele que passa três ou quatro dias sem comer, é aquele que dorme na praça, é aquele que vive com um dólar por dia e é aquele que foge da senhoria, para não pagar a pensão. A saga heroica de seus personagens começa em L.A, termina em L.A, com pouco ou nenhum dinheiro, com pouquíssimas refeições, sapatos velhos, vinho barato e um maço de cigarros. No máximo, o grande herói de Bukowski tem como prêmio sobreviver o cotidiano, e ganhar dois dólares por hora de trabalho. Bukowski era um escritor que, munido de sarcasmo, coragem e sinceridade, escrevia a vida como ela é, sem enfeites, ainda que para isso, fosse preciso estar constantemente embriagado.
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