Golpe Haikai: Poesia letal, espada de samurai.
por Dassayeve Lima
Pode até ser difícil de acreditar, mas a imagem acima é de uma
das poesias mais importantes do oriente, e a mais famosa do Japão, escrita há
mais de 300 anos por Matsuo
Bashō.
Bashō, considerado o pai do Haikai e poeta mais importante do
Japão, nasceu no ano de 1644, em Tóquio no
Japão, e faleceu em 1694, em Osaka, no mesmo país, tendo durante sua vida,
vários seguidores, que buscavam a essência da poesia Haikai, e do estilo de
vida Zen. Foi um samurai que virou um monge Zen, e fez da poesia uma
prática "DÔ", ou seja, uma atividade ligada ao budismo Zen do Japão.
Os “Dôs” são caminhos utilizados pela prática Zen budista. O ritual do Chá, por
exemplo, é o “Cha-dô”, ou “Caminho do Chá”, e é uma tradição de cunho
essencialmente social, no qual um indivíduo prepara a cerimônia que pode durar
até quatro horas, como uma demonstração de respeito e honra aos seus
convidados.
No caso do Haikai, o caminho é o “Haiku-Dô”. No Haiku-Dô, a
poesia não é utilizada no uso meramente literário: ela tem como objetivo
facilitar a iluminação espiritual. Através da interrupção do pensamento formal,
o Haikai permite que o praticante Zen possa apreender conteúdos que normalmente
seriam inacessíveis à razão, como se fossem pequenos insights. Essa
característica específica da escrita é chamada de Koan.
Esse tipo específico de poesia, o Haikai, na sua forma
clássica, segue algumas formas pré-estabelecidas. O Haikai não pode ser em sua
forma original, uma poesia que expresse algo
pessoal. Geralmente, é interpretado como um tipo de fotografia em texto, que
capta um instante fugaz, geralmente fenômenos da natureza, no qual se utiliza
apenas 17 silabas (três versos de 5-7-5), ou seja, se utilizando da velocidade
e da simplicidade. É como descrever um momento, experiência ou acontecimento,
utilizando o mínimo possível de sílabas para isso. Rápido e letal, como um
golpe samurai. O Haikai não utiliza rimas, e segue a seguinte estrutura:
X X X X X - 5
X X X X X X X - 7
X X X X X - 5
Como se diz, “toda tradução é uma traição”, e
no Haikai, isso é radicalizado. A tradução de um Haikai para outro idioma,
sempre implica uma pobreza no sentido, quando não, uma alteração dele, já que
nosso Alfabeto (ABC...), e modelo de escrita na horizontal, da esquerda pra
direita, (“Gutemberguiano”, como diria Leminski) não dá conta da experiência
estética e escrita quase que artesanal do Haikai. O Haikai não é só escrito,
ele é também desenhado.
No Brasil, para se ter uma ideia, foram feitas
várias traduções da poesia acima, conhecida como a “Antologia da Rã”, que pode
parecer aparentemente simples, caso o que seja levado em consideração seja o
"texto" (Mas um Haikai nunca é só um texto).
FURU IKE YA
KAWASU TOBIKOMU
MISU NO OTO
KAWASU TOBIKOMU
MISU NO OTO
Uma das
traduções mais conhecidas é a de Paulo Leminski:
"Velha
lagoa
O sapo salta
O som da água”
O sapo salta
O som da água”
No entanto, por incrível que possa parecer, essa é apenas uma das dezenas de traduções de uma das poesias mais famosas do oriente. Ela aparenta ser simples, mas como dizia Paulo Leminski, de poesia e de Zen, não se deve entender, se deve experimentar. Algumas das traduções da Antologia da Rã são:
VELHA
LAGOA
LAGOA
UMA
RÃ
MERG ULHA
UMA RÃ
MERG ULHA
UMA RÃ
AGUÁGUA
Décio Pignatari
“O velho tanque
rã salt’
tomba
rumor de água”
Haroldo de Campos.
rã salt’
tomba
rumor de água”
Haroldo de Campos.
“Um templo, um tanque
musgoso;
Mudez apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água. Mais nada...”.
Mudez apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água. Mais nada...”.
Wencelau de Moraes
“Velho tanque abandonado ao silêncio...
lança-se a rã num mergulho:
quase inaudível som da água.”
lança-se a rã num mergulho:
quase inaudível som da água.”
Antônio Nojiri
“Embaixo do tanque
Não encontro o que procuro
Uma rã me assusta.”
Não encontro o que procuro
Uma rã me assusta.”
Clóvis Moreira dos Santos
“Rã
No lago, mergulha
uma rã... Na água, a manhã
verde-azul borbulha...”.
No lago, mergulha
uma rã... Na água, a manhã
verde-azul borbulha...”.
Cyro Armando Catta Preta
No entanto, nem só de Japão e Zen vive o Haikai. O estilo
ganhou adeptos no mundo todo, e é venerado por escritores de diversos estilos e
movimentos literários. Jack Kerouac, por exemplo, eterno ídolo do movimento
beatnick, autor de clássicos como “On the Road” (Pé na Estrada) e “The Town and
the City” (Cidade Pequena, Cidade Grande), se aproximou da cultura oriental e
do Zen budismo no final de sua vida, e dessa aproximação surgiu sua paixão pelo
Haikai, que deu origem a um tipo de Haikai ocidentalizado, e por que não dizer:
“Haikai Beatnick”. Em sua última entrevista, publicada na The Paris Review, em
1968, cedida a Ted Berrigan, Kerouac explica um pouco sobre o que é o Haikai, e
como ele escreve os seus.
TED BERRIGAN — Você disse que haiku (Haikai) não é escrito espontaneamente, mas
trabalhado várias vezes e revisado. Isso se aplica a toda a sua poesia? Por que
o método para escrever poesia se diferencia do método para escrever prosa?
KEROUAC — Não, primeiramente, escrever em haiku fica melhor quando se revisa
e trabalha várias vezes. Eu sei, eu tentei. Deve ser completamente econômico,
sem floreios e linguagem rítmica, deve ser como uma simples foto com três
linhas. Pelo menos foi assim que os mestres mais velhos fizeram, gastando meses
em três linhas, e dizendo:
No barco abandonado,
O granizo
Bate violentamente.
Isso é Shiki. Mas para o meu verso regular em inglês, eu fiz como uma
prosa corrida, e para obter isso, usei um caderno do tamanho do manuscrito
original de “Vanity of Duluoz”. O rolo é feito de um papel fino de centenas de
metros, para a forma e comprimento do poema, assim como um músico de jazz tem
que colocar sua letra numa determinada quantidade de barras, dentro de um
refrão, que se repete ao longo do texto, mas neste caso o refrão não para
quando a folha termina. E finalmente, na poesia você pode ser completamente
livre para dizer o que quiser, você não precisa contar uma história, pode usar
trocadilhos secretos.
TED BERRIGAN — Como você escreve Haikai?
KEROUAC — Haikai? Você quer ouvir Haikai? Veja, você tem que comprimir em
três linhas uma história enorme. Primeiro você começa com uma situação Haikai —
então você vê uma folha, como eu tinha dito a ela (Stella) outra noite, caindo
nas costas de um pardal durante uma forte tempestade de inverno em Outubro. Uma
grande folha cai nas costas de um pequeno pardal. Como você pode comprimir isso
em três linhas? Agora, em japonês você tem que comprimir em 17 sílabas. Não
precisamos fazer isso em inglês, pois não temos o mesmo sistema silábico que o
Japonês. Então você diz: “Pequeno pardal” — você não tem que dizer “pequeno”
todo mundo sabe que um pardal é pequeno, então você diz:
“Pardal
Com grande folha em suas costas —
Tempestade”
Não está bom, não funciona, esqueça.
“Um pequeno pardal
Quando repentinamente uma folha toca suas costas
Do vento.”
Ah, assim que se faz. Não, está um pouco longo. Viu? Já está um pouco
longo, Berrigan, entende o que quero dizer?
TED BERRIGAN — Parece haver uma palavra extra. Que tal tirar o “quando”? Ficaria:
Um pardal
Uma folha de outono repentinamente toca suas costas —
Do vento!
Ei, isso está bom! Acho que “quando” era a palavra extra. Você pegou a
ideia aqui, “Um pardal, uma folha de outono de repente”— não temos que dizer
“de repente” não é?
“Um pardal
Uma folha de outono toca suas costas —
Do vento!”
Outros Haikais de Kerouac, que ilustram o seu estilo “Haikai
Beatnick” são:
“Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.”
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.”
“Desci da minha
torre de marfim
E não achei mundo nenhum”
torre de marfim
E não achei mundo nenhum”
“No meu
armário de remédios
a mosca de inverno
está morta de velhice.”
a mosca de inverno
está morta de velhice.”
“Café e
cigarro
Meditação Zen
Pra quê?”
Meditação Zen
Pra quê?”
Em terras
brasileiras, o Haikai da “América do Sul, do sal e do sol”, teve como destaque,
três escritores que se dedicaram à produção desse gênero poético: Millôr
Fernandes, Alice Ruiz e Paulo Leminski. Milton Viola Fernandes, mais conhecido
como Millôr Fernandes, carioca, nascido em 1923, sob o signo de Leão, foi desenhista,
humorista, dramaturgo, escritor, tradutor, e jornalista brasileiro. Sob sua
inserção no universo da escrita Haikai, Millôr afirma:
“Meu
interesse pelo Haikai como forma de expressão direta e econômica começou em
1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro. Passei a compor alguns
quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não
me preocupando com o número de sílabas.”
Novamente, nota-se um tipo diferente de Haikai, que
diferente do original japonês, não se preocupa com o número de sílabas. Uma
característica marcante de seus Haikais, é que geralmente eles têm um toque de
humor, e muitos deles, são versos rimados, preocupação esta que não existe no
Haikai tradicional.
“Olha,
Entre um pingo e
outro
A chuva não
molha.”
“No ai
Do recém nascido
A cova do pai.”
“Prometer
E não cumprir:
Taí viver.”
“Esnobar
É exigir café
fervendo
E deixar
esfriar.”
Alice Ruiz, por sua vez, é poeta e tradutora, e aos 26
anos já publicava seus poemas em jornais e revistas, lançando seu primeiro
livro “Navalhanaliga”, em 1980, aos 34 anos. Foi casada com o também poeta
Paulo Leminski. Até agora, Alice Ruiz tem 21 livros publicados, entre poesias,
traduções e uma história infantil. Selecionar alguns Haikais de Alice Ruiz, não
é tarefa fácil, no entanto, estes são alguns:
“Quem
ri quando goza
é
poesia
até
quando é prosa.”
“Você
deixou tudo a tua cara
Só
pra deixar tudo
Com
cara de saudade.”
“Travesseiro
novo
primeiras
confissões
a
história do amigo”
“Amigo
grilo
sua
vida foi curta
minha
noite vai ser longa”
“En
la lucha de classes
Todas
las armas son buenas
Piedras,
noches, poemas”
Leminski se aperfeiçoou no Haikai, e o fez como nenhum outro escritor brasileiro. Conseguia dizer em três linhas, o que talvez nenhum “Poema Sujo” tenha dito, e sabia dominar e brincar com as palavras como ninguém. Dizia que todos os idiomas e técnicas que aprendeu, todos os livros que leu, tudo o que aprendeu sobre a escrita e a poesia, foi para que, com o tempo, aprendesse a escrever uma poesia letal, que atingisse o leitor num só golpe. Todo o aprendizado de Leminski foi para aprender a diminuir. Escrever menos, falando mais. Obviamente, não poderia e nem pretendo dar conta da escrita e da poesia de Leminski, mas deixo aqui alguns de seus Haikais.
“Isso de querer ser
Exatamente aquilo que a gente é
Ainda vai nos levar além”
“Tudo dito
Nada feito
Fito e deito”
“luxo saber
Além destas telhas
Um céu de estrelas”
“Ameixas
ame-as
ou deixe-as”
ame-as
ou deixe-as”
Tudo dorme
Menos teu nome.”
Por fim, este que considero o melhor Haikai escrito por
Leminski, e um dos melhores Haikais nacionais. Ainda hoje, consigo lembrar a
sensação que tive ao ler esses três versos. Acredito que nenhum romance tenha
me dito tanto, ou causado tanto impacto:
Vazio agudo
Ando meio
Cheio de tudo
O Haikai é a poesia da
experiência, do impacto, é o insight,
fotografia em texto, é Koan. Haikai é
um/o golpe letal.
Ai dos meus ais!
Se não fossem
Meus haikais.







