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13 de fevereiro de 2014
Poemas de Dércio Braúna

Poemas de Dércio Braúna



FALAS LAVRADAS

DIÁLOGOS [1]

INQUIRIDOR:
“Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?”*

INQUIRIDO:
O deus havido no mundo, ao contrário do gastado dizer dele como “artesão do universo”, nunca foi capaz de compreender a artesania. Sua mecânica de existir é da ordem da fabricação: deus faber, não deus laborans. Isto faz dele o que é: uma instrumentalidade suprema.

“Aqui é realmente verdade que o fim justifica os meios; mais que isso, o fim produz e organiza os meios. O fim justifica a violência cometida contra a natureza para que se obtenha o material, tal como a madeira justifica matar a árvore e a mesa justifica destruir a madeira.”**

Aqui o homem é, a um só tempo, o material a coisa violentada para sua obtenção.


__________
[*Herberto Helder, Ofício cantante: poesia completa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009p. 441]
[**Hannah Arednt, A condição humana. 11 ed. rev. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010p. 191]


FALAS LAVRADAS

DIÁLOGOS [2]

INQUIRIDOR:
“Um poeta desvia-se do seu precursor ao ler o poema do seu precursor executando um clinamen [“má leitura”, “desvio”] em relação a ele.”*

INQUIRIDO:
Eis a “pedra de tropeço [que] quebra o sono dogmático”.
Sem intermédio nem remédio, sem o receituário dos herméticos feiticeiros em suas cúpulas à entrada do poema; sem mapa nem rota (enfiar “um pé aquém e o outro pé além”); sujar-se nas estradas de aldeias, carregar nas unhas dos pés o pó dos antigos; enlamear-se numa tarde fêmea e madura em que troveja “o espanto e a surpresa” depois do sol adâmico: em suma, fazer um desvio – mas com o gozo de quem atravessa por dentro o poema.**

UMA TEORIA:
Deslocalizar uma história pura em favor de uma “história conectada”***.

UMA POÉTICA (PELA TEORIA):
Unir o homem só sob a marquise da cidade imensa ao maxilar inferior dos mortos carregados pelos primitivos.****


_________
[*Harold Bloom, A angústia da influência: uma teoria da poesia. 2 ed. Trad. Miguel Tamen. Lisboa: Cotovia, 1991p. 25]
[**Sob a influência “luterana” de Wally Salomão, Pescados vivos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 43]
[***Sanjay Subrahmanyam, Impérios em concorrência: histórias conectadas nos séculos XVI e XVII. Trad. Marta Amaral. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2012, p. 17]
[****Na arqueologia de Carlos Drummond de Andrade, Antologia poética. 51 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002p. 232]



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24 de janeiro de 2014
Sobre ossadas e ironias (ou As boas perguntas que a literatura faz)

Sobre ossadas e ironias (ou As boas perguntas que a literatura faz)




por Dércio Braúna
À propósito de narrar a estória de um jovem que, no princípio do século XVII, parte de Luanda para o sul do território em busca da ossada de Diogo Cão, navegador português do século XV [1440-1486] que estabeleceu as primeiras relações de Portugal com o reino do Congo, um romance segue por outras trilhas e, ao seu fecho, indaga: “À propósito de relevâncias, Diogo Cão, onde param as tuas ossadas?” O romance em questão é A sul. O sombreiro, do escritor angolano Pepetela. (PEPETELA, 2011, p. 358)
Trata-se de escrita construída sob a marca da ironia potente e da lucidez leitora (características já reconhecidas do autor, assente-se aqui). Não é qualquer romancista que, à propósito de narrar uma estória, nos leve a perceber (tendo sempre ao fundo seu riso irônico e desafiador) os alinhavos da escrita de outra história: a história de Angola.
Ou, melhor dizendo: a história de Angola lida a partir dos registros deixados pelo colonizador português. Mas numa leitura (redigo) regida pelo poderoso gesto irônico e questionador de tomar registros documentais do passado e os reler provocativamente, desse modo lançando novas possibilidades interpretativas sobre esses registros históricos.
Não é à toa nem inocentemente que se toma tão vultosas e históricas ossadas de um passado (sobretudo quando imperial/colonial, pertencentes ao panteão de uma nação que “deu mundos ao mundo”) para tirar-lhes a canônica relevância de que historicamente se revestiram e lhes propor outras relevâncias, para narrar outras histórias (menos grandiloquentes, menos maiúsculas). Não é à toa nem inocentemente que se principia uma narrativa desta ordem (já em sua primeira linha e com todas as letras) a dizer que um certo senhor, que teve vida no século XVII, nobre e conquistador, um vulto da história, “é um filho da puta” (PEPETELA, 2011, p. 7).
O dito homem chama-se Manuel Cerveira Pereira, um administrador colonial português que exerceu o cargo de Capitão-General na Capitania-Geral do Reino de Angola (entre 1603 e 1606; e  entre 1615 e 1617).
Mas não é este vulto da história o centro da narrativa empreendida por Pepetela. A sul. O sombreiro narra (por meio de muitas vozes narrativas) os percalços da busca pela conquista de Benguela (terra mais a sul de Luanda, com sua baía em forma de sombreiro mexicano) por Cerveira Pereira, é certo; mas conta mais, bem mais. Conta de um tempo em que Portugal encontrava-se sob domínio espanhol; também das conspirações e intrigas entre governantes e ordens religiosas (sobretudo franciscanos e jesuítas); conta ainda sobre os temíveis guerreiros jagas, tidos por canibais; conta, sobretudo, a saga do mestiço Carlos Rocha, que em sua busca por um lugar seu segue sempre a sul, sendo essa sua busca (pelo sul) a costurar todas as estórias que se contam.
Nesse romance, como se disse, temos uma multiplicação de vozes e, com ela e por ela, temos já aí uma exploração das possibilidades de verdade que os registros do passado permitem. São diversas as vozes narradoras de que faz uso Pepetela: o sacerdote Simão de Oliveira, o governador-geral Manuel Cerveira Pereira, o mestiço Carlos Rocha, Margarida Sottomayor (filha do ouvidor André Velho Sottomayor), o narrador propriamente dito (assim digamos), além do próprio autor, podemos dizer, que faz questão de se colocar, de modo contundente, no texto: “aproveito assim a ocasião para meter solenemente minha farpa afiada [...]” (PEPETELA, 2011, p. 15); “aproveitando a deixa, adianto a dizer que [...]” (Ibid., p. 29); “aviso desinteressado aos leitores: inútil procurar os nomes num mapa [...]” (Ibid., p. 41). Segundo o historiador Diogo Ramada Curto em texto sobre A sul. O sombreiro, no qual destaca essa “multiplicação das vozes”, esse ato escriturístico de Pepetela provoca um descentramento do discurso colonial “como se a memória do passado colonial não tivesse um centro” (CURTO, 2013, p. 206).
Algo de fundamental importância em se tratando de um espaço como Angola, que esteve longo tempo sob domínio colonial, pois, como sabemos, pelo menos desde as postulações dos estudiosos da(s) chamada(s) teroria(s) pós-colonial(ais),
“O império produz textos (relações administrativas, tratados geográficos, estudos linguísticos e etnográficos, leis, decretos, livros de viagens, ficções) e, por sua vez, tais textos podem ser considerados como veículos da autoridade imperial, ou como suportes de inscrição de autoridade.” (VEGA, 2003, p. 15. Tradução nossa")”
Textos afiançadores de verdades, em suma se pode dizer. Verdades com as quais se escreveu a história das partes do mundo que estiveram sob o julgo imperial, o mais das vezes como mero apêndice dessas histórias imperiais (as ditas “histórias ultramarinas”).
São essas histórias e suas verdades canônicas que as literaturas pós-coloniais africanas, já há tempos (pelo menos desde a década de 1960), vêm pondo em questão. Independentes do julgo colonial na segunda metade do século XX, as jovens nações africanas, por meio de seus intelectuais, entre os quais não se furtaram os literatos, tomaram a si a tarefa (ética, estética) de reler as escritas (literárias, históricas, etnográficas, missionárias, etc.) que disseram o que África era. Havia uma urgência em falar por própria voz, uma luta a ser travada pelo “direito humano à narração” (BHABHA, 2007, p. 25).
As literaturas africanas fizeram (fazem) parte dessa procura de si. Como enfatizam seus pesquisadores, em seu processo formativo elas foram-se constituindo como um modo de contestação de uma ordem (política, social, cultural) estabelecida: a ordem colonial. Não admira, pois, a tenuidade existente entre arte e militância em seu desenvolvimento, sendo esta uma das “mais marcantes características” da literatura produzida em África no século XX, como destaca Ali A. Mazrui no capítulo dedicado à literatura na História Geral da África (volume VIII), obra de referência nos estudos sobre o continente, enfatizando ainda a “justa medida dos laços internos [da literatura] com a história geral da África” (MAZRUI, 2010, p. 664).
Laços que, nas literaturas africanas mais contemporâneas, se destacam justamente pelo gesto irônico de desreverenciar as verdades postuladas pelas escritas do passado. Não por meio de uma simples negação reducionista, mas pela estratégia de explorar as “brechas” (as ambiguidades, os mal-entendidos, as incompreensões culturais) que a documentação histórica deixa ler. O desreverenciar das verdades se dá, nessa perspectiva (metaforicamente falando), pela dissecação de suas vísceras, pela exumação de suas ossadas operada pelo (irônico) gesto escriturístico do romancista, pela “introdução de critérios diversos de relevância”, como propõe María José Vega:
“Se se pode falar, pois, de uma teoria ou uma crítica poscolonial, não é, a meu ver, por oposição à teoria literária ‘tradicional’ ou ‘europeia’ ou ‘metropolitana’, mas pela renovação de interesses, pelo deslocamento do ponto de vista do observador, ou pela introdução de critérios diversos de relevância.” (VEGA, 2003, p. 14. Tradução nossa.)”
Quem dá relevância ao quê? Eis a questão, eis a indagação que sobressai da leitura de A sul. O sombreiro. Nessa obra, há um perguntar-se, epistemologicamente desafiador, acerca da construção dos fatos históricos, sobre “quem os elege para integrá-los na história?” (GUNHA, 2002, p. 17. Tradução nossa). Há um colocar em evidência “a maneira como fabricamos ‘fatos’ históricos a partir de ‘acontecimentos’ brutos do passado” (HUTCHEON, 1991, p. 12-13), desse modo expondo, aos olhos leitores, a constatação, epistemologicamente instigante, de que “os fatos não são preexistentes, e sim construídos pelos tipos de perguntas que fazemos aos acontecimentos” (Ibid., p. 162). Uma escrita que é ciente das “conseqüências epistemológicas e ontológicas do ato de tornar problemático aquilo que antes era aceito pela historiografia – e pela literatura – como uma certeza.” (Ibid., p. 14).
Outra estratégia que encontramos nesse romance para a lida com a documentação histórica é o desreverenciar da pomposidade que nela se lê. Em A sul. O sombreiro Pepetela reitera um chamar de atenção ao leitor para o nomear das coisas, muitas vezes demasiado para a realidade que nomeiam:
“a chamada fortaleza era na verdade um muro de taipa mal amanhado em cima do morro” (PEPETELA, 2011, p. 169);
“Isto, um cercado de espinheiras no meio de pântanos ao lado da praia, é uma cidade? Pois chamam S. Filipe de Benguela à povoação imunda.” (Ibid., p. 302)
“tudo nomes demasiados pomposos [fortaleza, cidade, reino, etc.] para a mirrada realidade existente.” (Ibid., p. 302).
Como se lê, Pepetela deslegitima a grandiosidade que o “documento” dá às coisas do passado, repondo-as a uma realidade menos grandiloquente; escalpela a sacralidade que por vezes (muitas vezes) os registros históricos são lidos. Em sua faina criadora, despe a fina flor da pomposidade da letra lusitana dos textos para os mostrar por outras miradas. Senão vejamos:
“Manuel Cerveira Pereira resolveu desembarcar [na Baía da Torre, Baía das Vacas ou de Santo António] e fundar a cidade, para ser a capital do que ele tinha pomposamente chamado o ‘Reino de Benguela’. São suas as entusiásticas palavras para o rei, justificando a escolha do sítio ‘por não achar melhor porto, terra de mais salutíferos ares, fértil e abundante do mantimento da terra, como na abundância de muito e diverso peixe que há nesta baía, estando vizinho de dois rios que correm de excelente água.’” (PEPETELA, 2011, p. 227)
As palavras em destaque são de carta de Manuel Cerveira Pereira ao rei Filipe II de Espanha, de 06 de março de 1618, vorada por Pepetela do sexto volume da obra Monumenta Missionária Africana, cuja sua leitura logo a seguir ele nos participa, mostrando-nos o escalpelo de seu ato leitor:

“O espantoso nesta carta e em muitos outros relatórios de igual proveniência é o fato de o Cerveira sempre referir o clima como argumento decisivo na escolha [...]. O governador chegou em maio de 1617, tendo desembarcado no mesmo 17, altura do ano mais fresca e sem chuva, mas com aqueles restos de humidade que fazem o capim estar ainda verdinho, dando a ideia, com muito boa vontade, de prados da Europa. Compreende-se o erro. Mas designar ares salutíferos os respirados no meio de pântanos já é mais difícil de aceitar. E que os dois rios, Cavaco ou Maribombo e Corinje, corram com excelente água é a mais deslavada das mentiras, pois só tem água nos últimos séculos (e os arqueólogos geológicos poderiam apontar para milénios, para tanto não me arriscando eu) durante três ou quatro dias por ano, numa enxurrada de água barrenta depressa absorvida pela secura dos leitos. Quase sempre, para beber é preciso cavar cacimbas e rezar. Terá sido assim desde os primeiros vestígios, não havendo razão para alterações, pois se desconhece a existência de falhas geológicas, vulcões, furacões ou outros fenómenos modificando bruscamente o clima ou roubando a água de rios.” (PEPETELA, 2011, p. 227)
Nas mais de trezentas páginas do romance, esse ato herético, desreverenciador, é reiterado. Mais documentação histórica é vorada, mais a imaginação-escalpelo do autor nos faz ver o quão necessário se faz desreverenciar o passado, desnudar a sacralidade das linhas (sobretudo linhas de uma escrita conquistadora) que, no caso de uma terra como Angola, disseram o que ela era “autenticamente”.
O poder de dizer o que o outro é: eis outro questionamento que nos salta das páginas de A sul. O sombreiro. Para Pepetela, parte dessa problemática deve-se à “péssima audição dos portugueses para as nossas línguas” (PEPETELA, 2011, p. 41), daí a problemática na nomeação dos lugares e das gentes. Aos jagas, por exemplo, chamaram “yakas ou imbangala ou benguelas ou... ou...” (Ibid., p. 38).
E aliada à “péssima audição” lusitana, temos um fator ainda mais considerável: a incompreensão cultural ante o encontro com “o outro”. Algo que para o historiador indiano Partha Chatterjee constitui-se num marco na relação entre a Europa e seus “outros” nesses últimos cinco séculos. E, para Chatterjee, “a questão ainda está em aberto”. Ela ainda modela e talvez distorça “até mesmo o entendimento supostamente científico” desses “outros” (caso da sua Índia, mas não só) “nas disciplinas modernas do conhecimento social”, incluindo-se a história (CHATTERJEE, 2004, p. 20).
A esse tocante, em A sul. O sombreiro, Pepetela, vez mais, é irônico: “sejamos condescendentes com os modos e hábitos dos europeus, para não parecermos copiar a falta de compreensão e mesmo desprezo que sempre mostraram pelos nossos costumes.” Diz isso a respeito da incompreensão dos portugueses em relação ao modo de herdar dos “selvagens”: “O próprio governador se dizia chocado, quando conversava entre amigos, pela nossa falta de educação, pois aqui o filho nunca herda do pai mas sim do irmão mais velho da mãe. E refilava, bando de selvagens, consideram mais próximo o tio que o pai.” Logo adiante, Pepetela esclarece a razão da lógica “selvagem”: “[...] o sobrinho é de certeza do mesmo sangue do tio materno, enquanto o filho provém obviamente da mãe, mas qual a certeza no pai?” E esta interrogação é colocada pouco depois de termos lido que, no tocante à Europa, “nenhuma nação podia se gabar, o meu rei é do meu puro sangue. Os reis muitas vezes nem sequer falavam a língua do país governado.” (PEPETELA, 2011, p. 15) A questão que fica, ironicamente colocada, é a de saber quem, afinal, seriam os “selvagens”.
Uma outra discussão, epistemologicante instigante, que Pepetela nos coloca diz respeito à problematização dos conceitos norteadores das verdades do saber-poder colonizador. No romance temos um incisivo chamar de atenção para a falta de partilha de conceitos que foram fundantes do saber (corporificado na escrita) europeu, isto se dando não apenas em relação ao passado, mas ainda persistindo em discussões no presente. Um exemplo lapidar desta questão está no encontro, mediado por uma “língua”, o escravo Nzoji, entre Cerveira Pereira e o “soba” Ebo-Kalunda, soberano das terras de Sumbe-Ambela (terra do povo sumbe), local que, nas expectativas de Cerveira Pereira, haveria de encontrar minas de cobre. A dada altura da conversa (mediada, traduzida) entre os dois, Cerveira Pereira indaga ao “língua” Nzoji: “– Quer proteção contra os jagas [temidos guerreiros] e fica vassalo do rei de Portugal, é isso?” Vassalagem, eis o conceito, tão presente e límpido em escritas coloniais, e no romance problematizado:
“Nzoji traduziu a pergunta e dá para desconfiar da interpretação do próprio língua, o qual, apesar do convívio constante com os portugueses, devia ter algumas dúvidas sobre o conceito de vassalagem à distância. O mais certo é o ato de vassalagem não ter sido sequer traduzido por inútil, pois a resposta do soba foi clara e rápida.
– Ele quer armas e soldados contra os jagas, vinho, missangas e dá escravos, marfim e mostra o sítio das minas.” (PEPETELA, 2011, p. 254)
São esses apenas alguns apontamentos que nos mostram o quão afiado é o gesto leitor-escriturístico de Pepetela em relação à escrita da história de Angola. O que nos faz voltar a ela mais desafiados pelas perguntas que sua invenção dispara à história. “À propósito de relevância”, nada mais relevante que esse gesto irônico, que esse riso à cara da história a fim de fazê-la ver (fazer-nos a nós vermos) as outras tantas histórias que ficaram olvidadas pelo peso mofento de uma história única (monumental) que tantas vezes se escreveu.
REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. Ética e estética do globalismo: uma perspectiva pós-colonial. In BHABHA, Homi K. et. al. A urgência da teoria. Trad. Catarina Mira et. al. Lisboa: Tinta da China/Fund. Calouste Gulbenkian, 2007.
CHATTERJEE, Partha. Quinhentos anos de medo e de amor. In ___. Colonialismo, modernidade e política. Trad. Fábio Baqueiro Figueiredo. Salvador: Edufba, 2004, pp. 15-42.
CURTO, Diogo Ramada. Para que serve a história? Lisboa: Tinta da China, 2013.
GUHA, Ranahit. Las voces de la historia y outros estudios subalternos. Trad. Gloria Cano. Barcelona: Crítica, 2002.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
MAZRUI, Ali A. O desenvolvimento da literatura moderna. In História geral da África – Vol. VIII. Brasília: Unesco, 2010, p. 663-696. Disponível em: <http://www.unesco.org/brasilia>. Acesso em: 28 jan. 2011.
PEPTELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos). A sul. O sombreiro. Lisboa: Dom Quixote, 2011. [Edição brasileira: São Paulo: Leya, 2012]
VEGA, María José. Imperios de papel: introdución a la crítica postcolonial. Barcelona: Crítica, 2003.

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2 de abril de 2013
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Sobre triângulos e constelações: Algumas considerações sobre os trânsitos literários no [dito] "espaço lusófono"



por Dércio Braúna*

I. "Esse mundo verdadeiro das coisas de mentira"

O fazer literário é um "lugar" onde se cruzam imagens, imaginários, histórias; onde essas "coisas" se emaranham, são recriadas; onde tempos são pensados, repensados, revisitados, inventados; onde tantas coisas mais se dão nesse "mundo verdadeiro das coisas de mentira"  para aqui usar da expressão da historiadora Sandra Jatahy Pesavento [PESAVENTO, 2002] —, que, contudo, diz muito sobre as aspirações e os embates de um dado tempo, de uma dada sociedade.

 No Brasil, há já algum tempo (sobretudo a partir do ano de 2003) que esse "mundo verdadeiro das coisas de mentira", escrito noutras partes do mundo, tem produzido debates e alentado discussões de modo mais presente. Refiro-me aqui à presença (e à ausência, como se verá) no mercado editorial brasileiro de obras de autores africanos, mais especificamente de autores oriundos dos países de língua oficial portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe.

E se aponto 2003, esse marco vem referir a promulgação da Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que alterou a lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei das Diretrizes e Bases da Educação – LDB). A nova lei acresceu à anterior a obrigatoriedade do ensino, nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país, de história e cultura africanas e afro-brasileiras. Num de seus parágrafos, estabeleceu ainda que os conteúdos dessas temáticas deveriam ser ministrados em todo o currículo, "em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura" [BRASIL, 2003. Grifo meu.]

Ora, mas de imediato uma questão contundente se coloca: "como ensinar o que não se conhece?”, como se (nos) pergunta o historiador Anderson Ribeiro Oliva [OLIVA, 2003]. Uma questão que ainda permanece (e que talvez permaneça por mais tempo ainda).

Atendo-me aqui ao propósito de pensar algumas questões acerca dos trânsitos literários de autores africanos do [dito] "espaço lusófono" ao Brasil, e na busca por dar a elas uma melhor imagem, uma que melhor propusesse seus dilemas, encontrei-a nas palavras do escritor moçambicano Mia Couto. Pronunciando-se, em julho de 2007, numa conferência em Lisboa, Mia nos diz:

Os lusófonos são pensados e falados do seguinte modo: Portugal, Brasil e os PALOP. Surgimos como um triângulo com vértices: um no Brasil, um em Portugal e um terceiro em África. Ora, os países africanos não são um bloco homogéneo que se possa tratar de modo tão redutor e simplificado. Não se pode conceber como uma única entidade os 5 países africanos que mantêm, entre si, diferenças culturais sensíveis. As nações lusófonas não são um triângulo, mas uma constelação em que cada um tem a sua própria individualidade. [COUTO, 2007. Grifo meu.]

Uma constelação em vez de um triângulo: eis a imagem mais adequada, segundo Mia Couto.

Mas é sabido que a mudança de uma imagem não muda as relações mesmas, não altera as realidades existentes, e, no que toca à literatura, não soluciona alguns impasses que se verificam no trânsito das escritas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe ao Brasil.

II. Os impasses do triângulo

O maior impasse nesse trânsito literário África-Brasil diz respeito ao fato de que, como propõe Mia Couto, ele ainda se dá triangularmente.

[PRIMEIRO VÉRTICE] – Primeiramente, há a produção, num pretenso e uno vértice: África. E há já aí alguns dilemas e impasses aos quais não se pode passar ao largo. Como o fato de que grande parte do mercado editorial nos países africanos de língua oficial portuguesa é de domínio de grupos editoriais portugueses (caso, por exemplo, dos grupos Porto Editores e LeYa), cujo foco de atuação é o mercado didático; nesse sentido, restringe-se o espaço para a produção literária, sobretudo de novos autores, uma vez que as pequenas editoras (muitas delas mantidas por associações de escritores) não dão conta de dar vazão à produção literária que poderia ser editada, caso houvessem maiores possibilidades de edição.

[SEGUNDO VÉRTICE] – Em seguida, põe-se em operação um "filtro" (que envolve universidades e suas produções de saberes, o mercado editorial, a crítica especializada, etc.), no qual se seleciona o que é "bom" e o que não é, o que tem "potencial de mercado" e o que não tem, o que tem "valor literário" e o que não tem, em suma, o que se irá publicar e o que não se irá num outro vértice do triângulo: Portugal. E aqui um fator é fundamental: o fato de que é por meio dos selos dos grandes grupos editoriais portugueses que os autores africanos de língua portuguesa chegam a Portugal; ou seja, há uma relação direta entre a atuação desses grupos e suas editoras em África e os autores que passam a ser editados (e, por conseguinte, reconhecidos, legitimados) em Portugal. E não só aí, pois que é Portugal, por meio de órgãos como o Instituto Camões, o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, o Ministério da Cultura e o Ministério dos Negócios Estrangeiros (a língua como negócio, atentemos) que, por meio de programas governamentais, apoia a edição de "autores lusófonos" no estrangeiro, inclusive no Brasil. A quem não passem despercebidos os pequenos detalhes, terá chamado atenção a presença da logomarca dessas instituições e o dizer "edição apoiada com o apoio do[a]..." na folha de rosto ou na contracapa de inúmeras edições de obras de autores africanos, como Mia Couto [A varanda do franfipani; O outro pé da sereia], Pepetela [Parábola do cágado velho], Ondjaki [Bom dia camaradas], Paulina Chiziane [Niketche: uma história de poligamia], Ruy Duarte de Carvalho [Os papéis do inglês], José Eduardo Agualusa [As mulheres do meu pai], entre outros.

[TERCEIRO VÉRTICE] – Após esse "filtro" em terras lusitanas (sob estreito interesse de seus grupos editoriais) é que o mercado editorial brasileiro tem acesso à produção literária africana em língua portuguesa. Os títulos e autores aqui editados são justamente aqueles que o "filtro" português julgou de qualidade e interesse. É em Portugal, e a grupos editoriais portugueses, que os direitos de edição de autores africanos são adquiridos para edição no Brasil. É por meio de editoras portuguesas e seus agentes que se traz ao Brasil "autores lusófonos" para participação em feiras e festas literárias. Em suma, não creio que seja demasiado dizer-se que, no que diz respeito ao trânsito literário de autores africanos de língua portuguesa ao Brasil, é Portugal (a ex-metrópole colonizadora) o vértice mais forte do triângulo, no sentido de que é aí que se operam os meandros de um processo ao final do qual resulta uma produção literária que nós, cá no Brasil, "consumimos" (e a palavra aqui tem sua razão de ser) e, por esse consumo, criamos a nossa imagem do que seja a "literatura africana de língua portuguesa".

III. O desejo de constelação

É ante esse processo triangular (do qual é ciente e se sabe participante) que Mia Couto (e não só ele; cite-se também José Eduardo Agualusa e Pepetela, a exemplo) tem expressado, em inúmeras oportunidades, o desejo de constelação. Qual seja: de que as relações literárias (e não só) entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe se processem noutra perspectiva; que cada país acesse a outros diretamente, que as produções literárias cheguem a todos os lados sem o "filtro único", hoje existente, feito em Portugal.

É claro que para que esse desejo se possa tornar uma prática, muito (muitíssimo) há ainda a se fazer. Questões que dizem respeito ao desenvolvimento econômico desses países, ao panorama de crise em Portugal, ao avanço dos índices de letramento em África, à formação de públicos leitores, ao desenvolvimento da crítica especializada em cada país, etc. Como se pode conjecturar, não são questões que num curto prazo possam dar uma guinada e passem a operar noutros patamares (como os desejados por Mia Couto). Há muito ainda a se fazer, é certo.

De modo mais imediato, num olhar mais próximo (temporalmente falando), o que se observa no Brasil é que tem havido um aumento no número de autores e obras do [dito] "espaço lusófono" aqui editados. Observa-se nas universidades brasileiras uma maior presença de estudos sobre esses autores, algo facilitado pela maior disponibilidade (de títulos e autores) no mercado.

Todavia, algumas considerações talvez se façam necessárias para uma melhor compreensão desse novo panorama.

Uma delas diz respeito ao fato de que muitos desses estudos atrelam a obra desses autores africanos à obra de autores brasileiros (como Guimarães Rosa, para as obra de Mia Couto e José Luandino Vieira, a exemplo). O que não se constitui num problema por si, obviamente, mas aponta ou faz sugerir dados interesses e preferências que são instigantes à reflexão. Não apontaria, essas escolhas, a certas "imagens de África" que temos, mais identificáveis em dados autores do que outros? A reiterarem-se (apenas) essas preferências, não deixaríamos de vislumbrarmos outras percepções de África? E os autores que não guardam laços (temáticos, estilísticos, etc.) com a literatura brasileira, não ficaríamos a desconhecê-los? Por que autores que tratam duma África urbana, cosmopolita, etc., não interessam tanto quanto aqueles que escrevem uma África mais interior, mais "misteriosa"? "Como se a modernidade que os africanos estão inventando nas zonas urbanas não fosse ela própria igualmente africana", como nos coloca Mia Couto [COUTO, 2005]. Não estaríamos, ainda que inconscientemente, a exigir dos escritores africanos provas de sua "africanidade", de sua "autenticidade"? Uma ficção científica ou um romance policial que se passe na China, na América, escrita por um africano, não é literatura africana? São reflexões que carecemos fazer.

E não é de somenos ponderarmos acerca do fato de que, em sua maioria, os autores aqui estudados são aqueles que passaram pelo "filtro" do mercado (e da universidade, da crítica especializada) em Portugal. E, como se sabe, nenhum "filtro" é gratuito. Toda seleção tem seus quês e porquês. Não se pode deixar de interrogar: que autores não passaram por esse "filtro"? Por que não passaram? Que questões podem ser levantadas ser pensamos essas problemáticas? Que África Portugal "consume" (literariamente)?

Uma reflexão que não se coloca apenas em relação à literatura africana em língua portuguesa. Também as literaturas africanas escritas em outras línguas, adotadas como oficiais após as independências, têm permanecido algo circunscritas aos blocos linguísticos ("anglófono", "francófono") a que pertencem, e, por sua vez, também às ex-metrópoles colonizadoras e seus mercadores editoriais. Trata-se de uma problemática de já algum tempo, como nos lembra Ali A. Mazrui, em seu texto O desenvolvimento da literatura moderna, integrante do oitavo volume da História Geral da África. Para Mazrui, as "dificuldades econômicas e técnicas" têm "bloqueado e freado sobremaneira a produção literária"; dificuldades essas que dizem respeito à "escassez de gráficas, a falta de editoras de um porte razoável" e ao "oneroso custo dos livros" na maioria das regiões do continente [MAZRUI, 2011].

Ante tal quadro, os grandes grupos editoriais das ex-metrópoles colonizadoras, em sua atuação em África, privilegiam não os trânsitos literários no continente e deste com o mundo, mas os trânsitos nos espaços circunscritos pela língua da escrita, desse modo mantendo traços de domínios a que não podemos deixar de nominar de neocoloniais. Não é acaso que em não poucas livrarias portuguesas autores africanos como Mia Couto, Pepetela, Agualusa e tantos outros, estejam colocados nas prateleiras de "Autores de língua portuguesa". A ênfase (a determinação?) está na língua, segundo essa lógica. Será assim mesmo? É a língua o determinante da escrita desses autores? Não seria antes um certo olhar sobre o mundo, de quem viveu sob a opressão colonial, lutou por um país independente, testemunhou descaminhos no pós-independência, mas, acima de tudo, tem esses lugares (suas nações) e suas histórias (complexas) como aquilo que mais os leva à escrita, à criação literária?

São muitas as questões, é certo, sendo certo, ainda mais, a urgência de refleti-las. Penso que são elas, somente elas, que nos podem ajudar a pensar que África, que literatura africana nós, brasileiros, "consumimos". Sem essa reflexão, corremos o sério risco de assim permanecermos: pacíficos "consumidores", quando deveríamos (devemos) ser profícuos interloculeitores (à lá Mia Couto: a palavra e a ideia proposta).

por Dércio Braúna
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REFERÊNCIAS
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 10.639 de 09 de jan. de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília, DF, 2003.
COUTO, Mia [2005]. Que África escreve o escritor africano? In ___. Pensatempos: textos de opinião. Lisboa: Caminho, 2005, p. 59-63.
COUTO, Mia [2007]. Língua portuguesa, cartão de identidade dos moçambicanos. Alocução produzida na Conferência Internacional sobre o Serviço Público de Rádio e Televisão no Contexto Internacional: A Experiência Portuguesa, no âmbito dos 50 anos da RTP, realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dia 19 de Junho de 2007. Disponível em: <http://www.ciberduvidas.com/textos/lusofonias/10899#>. Acesso em: 23 fev. 2013.
MAZRUI, Ali A [2011]. O desenvolvimento da literatura moderna. In História Geral da África – Vol. VIII. Brasília: Unesco, 2010, pp. 663-696. Disponível em: <http://www.unesco.org/brasilia>. Acesso em: 28 jan.
OLIVA, Anderson Ribeiro [2003]. História da África nos bancos escolares: representações e impressões na literatura didática. Estudos afro-asiáticos, vol. 25, nº 3, Rio de Janeiro, 2003, p. 421-461 Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2006.
PESAVENTO, Sandra Jathay [2002]. Este mundo verdadeiro das coisas de mentira: entre a arte e a história. In Estudos Históricos, RJ, n. 30, 2002, p. 56-75.


*DÉRCIO BRAÚNA [1979] - É historiador, mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará, com estudos sobre as relações história/literatura e sobre questões pós-coloniais em África. É também poeta e contista, autor das obras: O pensador do jardim dos ossos [poesia], A selvagem língua do coração das coisas [poesia], Uma nação entre dois mundos [história], Metal sem húmus [poesia], Como um cão que sonha a noite só [Conto]. Tem ainda participação em diversas antologias.


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