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21 de fevereiro de 2014
As avós, de Doris Lessing

As avós, de Doris Lessing



Quatro anos antes de receber o prêmio Nobel de Literatura, e já contando 84 anos, Doris Lessing (1919-2013) publicou um livro chamado The Grandmothers: four short novels (As Avós: quatro romances curtos). Aqui no Brasil, retiraram o romance que dá título à coletânea e publicaram de forma independente. Assim é que As avós (Companhia das Letras, 104 páginas) chegou ao leitor brasileiro em 2007, numa tradução execrável de Beth Vieira, que eu custo a acreditar que tenha sido aprovada pela Companhia das Letras, mas sobre isso falo mais adiante.

Sempre tinha ouvido falar nessa escritora, mas nunca tinha me atentado verdadeiramente para os seus escritos. Em mais de 60 anos de carreira, Doris Lessing fez-se pública ao mundo nas mais diversas formas: romances, contos, novelas, peças. Sua verve, ao que parece, conseguia conceber desde tramas que descrevem lugares comuns, a tramas de ficção científica - pelo que foi enormemente criticada.

Era também conhecida por ser uma mulher que não esperava se fazer ouvir somente quando publicasse algo: suas declarações, muitas das quais polêmicas, deixaram marcas em sua carreira. Por exemplo, quando comentou que o ataque sofrido pelos Estados Unidos em setembro de 2001 como algo que "não foi tão terrível assim, se comparado aos estragos causados pelo Exército Republicano Irlandês por décadas". Ou, em 2007, quando chegou em casa, viu um amontoado de repórteres na frente da sua casa, desceu do carro meio claudicante, no que um repórter enfia um microfone no rosto e pergunta: "A senhora não está sabendo da notícia?", ao que ela responde, lacônica e confusa: "Não". "Você ganhou o prêmio Nobel de Literatura", informa o repórter a ela. Sua reação: "Oh, Cristo!", e acrescenta: "Eu não dou a mínima".

Ela não fazia polêmica por fazer. Era uma mulher engajada social e politicamente. Fez discursos contra o sexismo, a guerra do Vietnã, e praticamente todas as questões de seu tempo, além dos diversos fatores envolvendo as questões religiosas do seu país de origem, o Irã (na época em que nasceu, Pérsia), apesar de ser filha de britânicos.

As avós me foi sugerido por uma amiga, e vendo sua empolgação, voltei quanto à minha declaração a mim mesmo de que não iria lê-la tão cedo (não lembro de ter demonstrado essa falta de interesse a mais ninguém e, além do mais, quem se importa?).

O romance gira em torno de duas mulheres, Roz and Lil, que são amigas íntimas desde a infância. A relação que têm uma com a outra é a mais duradoura e mais forte da vida de ambas, sobrevivendo aos seus próprios dilemas domésticos.

A trama começa numa praia idílica, dando ênfase a um personagem - uma garçonete de um café que fica nas cercanias do local - cuja relevância na trama é justamente ser esse olho externo observando o que se passa, como se fosse o olhar do leitor. Na verdade, o leitor passa a ser aquele personagem. A cena envolve as duas senhoras, duas garotinhas e dois homens mais jovens, todos à beira da praia. Enquanto a garçonete olha o que se passa, ela vê uma mulher caminhando furiosamente na direção do grupo com uns papéis na mão, pegar as duas crianças, dizer umas coisas com as mulheres e sair dali. Do lado de cá da página, o leitor é capaz de sentir o ódio fulminante da personagem. Ao invés de nos contar o que aconteceu, a autora corta a cena e nos leva ao momento em que Roz e Lil se conhecem, na pré-escola, e todos os seus caminhos a partir daí, como a escolha dos esposos, a compra de casas vizinhas e até o nascimento de seus filhos em datas aproximadas.

Doris Lessing consegue descrever, num parágrafo, grandes momentos da vida das protagonistas, e torná-las personagens críveis. E é assim, de um parágrafo para o outro, que compreendemos por que o marido de uma delas resolve sair de casa, o que acontece com o marido da outra, abrindo espaço para uma nova intimidade na relação das amigas, e também para o que acontece em seguida com todos os personagens.

A trama me pareceu um pouco previsível, o que não é importante. Não se trata de um romance de mistério, afinal. O que acontece aos personagens não é se não consequência dos seus próprios atos, desejos e maturidade - ou falta dela. Doris Lessing construiu avós firmes, dínamos capazes de agir conforme suas vontades, ao mesmo tempo em que também descreve seus medos e incertezas.

O romance, lido num só ou em poucos fôlegos, seria uma leitura ainda mais preciosa, não fosse a péssima tradução, que macula a obra e faz o leitor se esforçar pra entender traduções literais de expressões idiomáticas do inglês, por exemplo. A tradutora carrega na literalidade, e demonstra seu total desinteresse e falta de compromisso com a obra. Não compreendo como a editora conseguiu dar o aval para uma edição tão bonita sair com uma tradução tão mal-feita e inescrupulosa.
  
Contudo, foi um bom começo, já que este foi meu primeiro livro de 2014. Infelizmente, Doris Lessing traduzido por Beth Vieira, nem de graça.


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12 de fevereiro de 2014
Nu, de botas - de Antônio Prata

Nu, de botas - de Antônio Prata



A infância retratada de forma despudorada e perspicaz pelo olhar de um dos nossos melhores cronistas contemporâneos

A leitura desse livro começou com um equívoco.

Eu ando acompanhando relativamente de perto - ou não tão perto assim, como ficará claro daqui a pouco – a trajetória da série Amores Expressos, polêmico projeto que enviou autores brasileiros para os mais diversos lugares do mundo - Berlim, Tóquio, Lisboa são só alguns deles. A ideia inicial era utilizar o patrocínio da Lei Rouanet, o que acabou não acontecendo depois de tanta confusão na mídia. Eles deveriam voltar desses lugares e escrever uma história que tratasse de algum tipo de amor. Lá eles também foram acompanhados por uma câmera filmando sua interação com a cidade, e havia – ou há, não sei ao certo – a ideia de que alguns dos livros possam virar filmes.

O certo é que eu havia lido em algum lugar que o Antonio Prata era um dos que haviam ido e que Nu, de botas (Companhia das Letras, 140 páginas) seria sua primeira obra de ficção, a sair pela tal série, em sua totalidade lançada pela Companhia das Letras (desde que o livro fosse aprovado, e já se sabe que nem todos foram, fora os autores que, mesmo tendo ido, abandonaram o projeto de escrever um livro sob encomenda).

Só que a coisa não foi bem assim. Eu comprei o livro certo de que era o tal livro dele da série. Acontece que, pelo que tenho observado, a Companhia das Letras tem buscado fazer duas coisas nos últimos tempos: ajudar a revigorar certos gêneros meio adormecidos no Brasil: a crônica e a poesia. Assim, tem publicado vários autores desses dois gêneros, que até bem pouco tempo não eram muito a seara da editora (e eles até diziam isso em textos e vídeos institucionais).

Quando o livro chegou, nada d'eu encontrar referência alguma à série na capa, na última capa, nada. Quando abri o livro, li lá nas informações técnicas: "Crônicas brasileiras". Pois bem: então eles convidaram o Antonio Prata, que tem sido apontado como um dos grandes novos nomes em se tratando de crônica brasileira, para publicar um livro de crônicas, e não o tal romance... Tudo bem, então! "Tudo bem" porque eu já tinha lido uma coletânea dele, tinha achado bastante interessante, e depois passei a lê-lo na internet - e foi o que fez com que Nu, de botas pulasse vários outros livros da fila e fosse lido com o cuidado e o prazer que o pequeno volume merece.


Antonio Prata

Não me arrependi. Pelo simples motivo de que é impossível. Com humor, delicadeza, grande sensibilidade e espirituosidade, Antonio Prata nos leva a revisitar cada momento porque passamos durante a infância. Os amigos que vamos conquistando, as brigas com esses mesmos amigos, com os irmãos ou pais, as férias, os avós, as descobertas da infância, o excesso de imaginação, o primeiro amor, o desejo, as frustrações. Está tudo lá.

Há, claramente, textos melhores que outros, mas não existe uma só crônica ruim. Aliás, como todo o livro encerra o mesmo tema - a infância - é complicado saber onde termina a memória e começa a invenção. Nem poderia ser diferente, já que as crônicas (disfarçadas de contos, ou contos disfarçados de crônicas; ou ainda crônicas-contos) resgatam lembranças de quando o autor tinha três, quatro anos, até uns dez ou onze. Não há como lembrar claramente todos os episódios narrados, é claro, e o próprio autor já declarou isso.

A beleza da sua arte reside justamente aí. Ler Nu, de botas equivale a minutos gastos neste lugar onde tantos reclamam de não poderem mais estar (o que não é o meu caso: eu não voltaria nem por meia hora à minha própria infância). A coletânea, entretanto, não tem tom nostálgico, bucólico nem saudosista; é, antes, uma reunião de textos que celebram um período a um só tempo mágico, fantástico e surreal - e que diz tanto sobre a nossa realidade enquanto adultos.

Eis aí, na nova obra de Antonio Prata, um livro para ser lido não apenas por quem gosta do gênero, mas por todos aqueles que são capazes de olhar com leveza e perspicácia para dentro de si mesmos e ainda assim serem capazes de encarar o mundo sorrindo.


NOTA

O texto aqui publicado faz parte de uma parceria entre o LiteraturaBr e o Blog Qual é a tua obra?
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10 de dezembro de 2013
A Invenção da Solidão, de Paul Auster

A Invenção da Solidão, de Paul Auster


Há alguns dias, terminei de ler A Invenção da Solidão, do escritor norte-americano Paul Auster.

Sedento por obras suas desde que terminei de ler Invisível, em 2010, e com várias obras suas na fila para serem lidas, acabei por escolher este, por se tratar de temas que me são muito caros: a ideia de família, das perdas, do que é ser pai, a solidão.

O livro de Paul Auster começa com um evento comum: seu pai, depois de um divórcio e de passar 15 anos vivendo sozinho em uma casa imensa, sem nenhum tipo de mazela aparente nem histórico de doenças, morre subitamente. Desde criança, a relação de Paul com o pai nunca foi das melhores. Extremamente ausente, a relação deles dois nunca passou de um sentimento desértico. A maior parte dos sentimentos de ambas as partes permaneceram silenciados, inarticulados, despercebidos.

Tendo sido criado por um pai que parecia incapaz de se importar com o filho, apesar dele fazer todo o possível para mostrar ao pai sua necessidade de ser notado, de ser querido e amado, não seria de admirar que Auster tivesse crescido e virado as costas para este cidadão. Mas ele não o fez, ainda que nada tenha mudado depois que Paul Auster tornou-se adulto. Ele compreendera que a vida do pai era a mais hermética, introspectiva possível. E tentar mergulhar nos sentimentos do pai era como tentar chegar a regiões abissais.

Ao se deparar com a morte inesperada do pai, Paul Auster passou a revisitar os sentimentos complexos que ele tinha em torno da figura de seu pai: o final abrupto da relação acabou por fazê-lo perfazer novamente o caminho de um vínculo frustrado, inexplorado e não desenvolvido. O sentimento o deixou perplexo não apenas pelo choque em si, mas também pela necessidade premente de investigar sua memória em torno do homem que o colocou no mundo, seus sentimentos a respeito da sua vida e da dele e traduzir tudo em palavras.

Não era algo que ele planejava fazer, naturalmente. Mas para o autor, se ele não fizesse rapidamente, tinha medo de que as lembranças esvanecessem e ele não fosse mais capaz de registrar seus sentimentos em relação ao pai, e àquilo mesmo que sentia e nutria por ele. E ele o faz ao narrar as condutas e esquisitices paternas, uma reconstrução, por sinal, feita de esboços mentais e impressões.

Ao desnovelar parágrafos curtos, Auster remonta sua própria história até chegar à história dos pais de seu pai. O que a princípio parece ser uma justificativa para o pai ser como se tornou depois de adulto, mostra-se ser algo bem maior e mais complexo. É a própria realidade, imiscuindo-se não apenas DNA adentro, mas também no cérebro e no coração. E este é um caminho que, muitas vezes, não tem volta.

O autor narra um crime que foi cometido na geração anterior a do seu pai, e como isso reverberou entre seu pai e os irmãos dele, como foi escondido pela família, e significa essa descoberta não para a redenção de seu pai, mas para a compreensão de um todo muito maior.

A segunda parte do livro, chamada de "O livro da memória", é bem diferente da primeira. Apesar de se notar uma escrita ambiciosa, vertiginosa, é também quando notamos a tentativa de um distanciamento da primeira parte, inclusive na forma narrativa. Ele decide referir-se a si mesmo na terceira pessoa, numa tentativa de ser mais experimental com a linguagem. E, mesmo tendo me acostumado a isso ao longo da segunda parte do livro, não posso afirmar que a leitura tenha fluído tão bem como na primeira.

O valor do livro reside no fato de Paul Auster fazer uma narrativa emocionada, despojada de amarras, de construir retratos de vidas e relacionamentos através do delicado olhar da percepção. Some-se a isso o fato de que o leitor tem o prazer de se deliciar com as comparações que o autor faz, utilizando-se de Pinóquio, do pintor Vermeer e de tantas outras expressões e obras artísticas.

Assim, enquanto descobrimos os motivos das andanças que Paul Auster fez pela França na juventude, suas descobertas, seus descaminhos, amores, casamento, sua própria exerção da paternidade... Compreendemos o que nos estava sendo dito nas entrelinhas: tudo na vida são apenas caminhos. Nós os percorremos e contamos nossa própria história, mas bem ou mal, sempre virão outros para contá-la, também. E que, quando você escolheu (?) ser escritor nesta vida e, portanto, viver várias vidas, os caminhos serão sempre plurais, múltiplos, e sempre haverá mais histórias a serem contadas do que tempo para fazê-lo. Eis aí a solidão que nos habita. A de sermos tanto e, tantas vezes, sermos sós, uma vez que há coisas durante uma existência para as quais você só resolve consigo mesmo, ainda que o resultado possa ser compartilhado com os outros.


E, inescapavelmente, acaba mesmo sendo.

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