Fingidores, de Rodrigo Rosp ou Fingir ou não fingir, eis a questão
É de sabedoria popular que
qualquer cidadão se utiliza de máscaras sociais para viver “bem”. E, pelo que
tenho vivido, acredito piamente nisso. Até as crianças, quando desejam algo que
não podem ter, usam das artimanhas mais fantásticas e diabólicas para conseguirem
seu objetivo.
Porém, em meio a tantas
máscaras que encontramos no dia a dia, há sempre o sujeito que “solta o verbo”,
que diz o que tem para dizer sem pensar nas consequências que pode trazer para
si. Caio, personagem de Fingidores,
é um sujeito assim.
Ao ter o livro em mãos,
pensei que se tratava de algum breve romance ou um livro de contos, até que vi
ao lado do enorme nome amarelado Fingidores o seguinte: comédia em nove cenas.
Parei, analisei e pensei que era brincadeira. Tirando Nelson Rodrigues, que
consegue me fazer rir quando tudo está totalmente deturpado, eu não imaginava
que ainda se publicava comédia no Brasil. Há tempos não lia uma. Apesar do
julgamento que ia fazendo ao passar as páginas, percebi que eu estava errado e
que Rodrigo Rosp, carioca de nascimento e gaúcho por fingimento, não estava
para brincadeira ou talvez esteja e eu é que estou levando tudo muito a sério.
No início, o diálogo travado
entre Caio e seu melhor amigo, Orteman, parece ser chato e mais um daqueles em
que o autor pretende mostrar todo o seu conhecimento sobre algum tema profundo.
Não sendo diferente, Rosp escolheu a morte. Mas, há uma diferença entre Rosp e
os autores que tentam ser engraçados, profundos; o tema, escolhido para ser
aprofundado e que serve como o eixo da comédia, tem sua razão e está muito bem
colocado na peça. Sem ele não seria possível existir os Fingidores. Sem ela, talvez,
Caio não pudesse ter a oportunidade de rememorar sete momentos de sua vida, com
início meio e fim; tendo conquistado esse direito conversando com uma “filial
da morte”.
A comédia em nove cenas se
concentra em vários momentos da vida de Caio, em que podemos perceber que,
provavelmente, tiveram algum significado para ele, pois, ao invés de ter apenas
alguns segundos para poder ver toda a sua vida antes de morrer (sim, Caio
morre, o que você esperava? Sem isso não há comédia!), consegue subverter o
sistema que a morte utiliza e possibilita sete momentos inteiros com início,
meio e fim para si. Nesses flashbacks, que são “revividos”, vê-se como Caio
agiu a vida toda e de que maneira tratou as pessoas, principalmente as mulheres
que amou, ou fingiu amar. Talvez algum leitor queira, ainda durante a leitura,
chamar Caio de, digamos, cretino, pois parece que ele não se preocupava em nada
com o que poderia acontecer a partir de suas ações. Talvez o rapaz que o
atendeu enquanto comprava o caixão para o velho pai não tenha pensado isso,
talvez tenha preferido acreditar que Caio era só mais um que estava sob o
efeito entorpecente que a morte traz, ou talvez não tenha entendido metade do
que Caio discerniu sobre a morte e da maneira como se dá a venda de caixões
quando as pessoas morrem:
FUNCIONÁRIO
Gostaria de escolher um
modelo, senhor?
CAIO
Tanto faz. Me dê algo que não
pareça vagabundo, senão a Lucinha vai ficar envergonhada diante das amigas.
FUNCIONÁRIO
Temos esse modelo de
mortuária sextavada envernizada superluxo.
CAIO
(observando o caixão com
olhos distantes) Sim, e quanto custa?
FUNCIONÁRIO
São quatro e mil e
oitocentos, senhor.
CAIO
(despertando) Quatro o quê?
FUNCIONÁRIO
Quatro mil e oitocentos,
senhor. É uma madeira de qualidade premium.
CAIO
Pare de agir como se
estivesse vendendo colchões. Embora exista uma bizarra analogia. Sabe, até
alguns minutos atrás, eu achava que a televisão era a indústria mais perversa
que existia. Mas há coisas piores. Essa porcaria de compensado não deve custar
mais de trezentos e cinquenta. Acrescentando a mão de obra de ignorantes mortos
de fome e mais o salário da Ivonir, não passaria de quinhentos.
Com essa sinceridade
monstruosa é que Caio vai tratando sobre tudo.
Para completar, ficamos
sabendo que Caio é um professor universitário e, aparentemente, frustrado por
não ter conseguido emplacar o seu livro, que “coincidentemente” é uma peça de
teatro, assim como o livro de Rodrigo Rosp. E um dos momentos da vida
perpassado por ele é aquele em que diante de Mércio – um escritor que se
entregou ao mercado apenas para ter livros e mais livros vendidos – e de Tati,
moça a qual ele já deu em cima sete vezes, recua quando pressionado para que
explique sobre o assunto tratado em seu livro.
Mas a estrutura da comédia
não pode deixar Caio recuar demais. Ele é aquele que sempre avança contra todos
os pontos estabelecidos pela moral e bons costumes, até mesmo contra o sistema
empregado pela morte, por São Pedro, por Deus! Caio resolve então explicar aos
dois, Tati e Mércio, porque transformou Hamlet em praticamente uma comédia, fazendo
de Hamlet um travesti.
CAIO
(coçando a cabeça) Bem, eu
quis brincar com a dualidade do personagem, que, entre tantas incertezas,
talvez tivesse dúvida sobre o próprio sexo. (vendo que os dois o observam sem
reação alguma) Ei, ele tinha uma mãe castradora e uma figura paterna que era um
verdadeiro fantasma. Existe margem para uma série de interpretações, não acham?
Após a explicação, Mércio e
Tati o repreendem. Caio parece, em outras palavras, querer falar pelo autor,
tentando deixar claro que até mesmo Hamlet é um fingidor. Que fingimos, talvez,
sempre.
Falar de todo o fingimento
que pode ser relacionado conosco é inútil. Sabemos o quanto podemos ser e somos Fingidores. O quanto enganamos
e nos enganamos quando necessário. Fingir é uma das melhores armas do ser
humano. E todo esse fingir é representado na obra de Rodrigo Rosp, ou não.
Talvez seja apenas um fingimento para que continuemos a acreditar que somos
pessoas sinceras, honestas e que não devemos realizar caricaturas de nossa
sociedade.
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| Foto: Mari Lopes |
Rosp consegue ao longo da
obra nos aproximar cada vez mais do personagem Caio. Parece que o conhecemos
como os nossos melhores amigos. Lendo a história de vida, às parcelas, de Caio,
percebi que o livro Fingidores tem uma progressão. E acredito que
essa progressão é fundamental para que possamos tanto entender toda a história
como para compreender que a leitura atenta e paciente é importante para
analisarmos a escrita de um autor e sua obra.
A partir da progressão da
vida de Caio pude identificar que a comédia de Rosp cresce vertiginosamente e
nos leva até o último ato rindo e esperando que a morte ou a vida não chegue.
Ficamos sem acreditar como Caio teve a ousadia de ter desavenças com um santo.
Eu não podia imaginar essa comédia que me fizesse chegar ao final do livro e
após uma pergunta me fizesse virar a página e querer chorar de tristeza por não
haver mais nada para ler e rir.
CAIO
De novo?


