Os contos juvenistas, de Clayton de Souza
Tenho feito algumas leituras
sempre tentando variar o autor para não haver uma possível repetição de temas e
de estilos. Mas o que venho percebendo – principalmente neste último ano,
quando me aproximei de novos autores – é que há um tema em comum em muitas das
obras que li.
Parece-me que em Os contos juvenistas, de
Clayton de Souza, esse tema se repete. Apesar da minha fuga, para evitar
repetições, constatar que esse tema é constante na imagética de vários
escritores é algo bom.
Colocar o ser humano como
motriz de grandes romances, seu modo de pensar e de agir são fatores que sempre
chamaram a minha atenção, e é o que muitas vezes faz que leiamos o livro até o
fim. Assim foi com grandes romancistas, principalmente com Dostoiévski, quando
resolveu aprofundar-se na consciência do homem.
Tratar sobre nossas ações,
sobre os nossos preconceitos, não é algo tragável para leitores que estão
acostumados com romances açucarados ou livros de autoajuda. Talvez, até mesmo
quem gosta de livros como os do escritor russo ou de Graciliano Ramos, que de
acordo com Carpeaux seria o nosso Dostoiévski brasileiro, não esteja preparado
para sentir o peso da própria realidade.
Digo isso não com o intuito
de querer atingir determinado nicho de leitores. Pelo contrário, é uma
constatação, que em alguns momentos também me é difícil aceitar. Em Os contos Juvenistas, pude sentir o quão perto os assuntos
tratados estão a minha volta, e quanto eles podem nos incomodar. Isso ocorre
porque já passamos por experiências parecidas ou vivemos em nossa própria pele
aquilo que estamos lendo.
Ser um jovem em nosso país
não é algo agradável, talvez não o seja em todo o resto do mundo. O jovem,
querendo ele ou não, dificilmente terá algo “trilhado” em sua mente,
dificilmente saberá quais rumos deverá tomar para que sua vida seja, no mínimo,
agradável. Não apenas o jovem, dirão alguns, e concordarei. O homem possui a
falta da resposta de saber por quais razões estamos por aí.
Mas são muitos os problemas
na mente de um ser juvenil e essa problemática é a que Clayton de Souza deseja
nos mostrar. Desde a cusparada que uma criança leva na cara, por ser tímido
demais até o momento em que Deus não representa mais nada para um jovem que
acabou de completar dezoito anos e busca uma resposta, qualquer que seja para
entender o sentido da vida.
E essa busca pode ser
percebida em quase todos os personagens de Os
contos juvenistas. São “pessoas” comuns com problemas que podem levar
qualquer um ao fundo do poço, e que se perguntam por que aquilo tudo está
acontecendo. Essa foi a impressão que tive. Obviamente que o autor não deixa
explícito que todos estão tentando encontrar algo, mas o sofrimento de todos,
amorosos ou psíquicos, está presente, do início ao fim da obra.
Talvez isso se dê porque ser
“gente” nos dias atuais, manter uma opinião e ter uma consciência do que somos
não é nada agradável. Perceber que pessoas se matam “por pouco” ou entender que
as relações familiares ou amorosas podem ser o catalisador para o pior
acontecer é o que de fato pode nos fazer refletir sobre o que realmente somos.
Sobre quem somos.
Quem somos?
Essa é a pergunta que sempre
urge em minha mente quando percebo que as relações humanas são os principais
agentes motivadores de uma trama. São as pessoas o centro problemático de quase
tudo e quase tudo sempre está relacionado a eles, a nós.
Lendo Os contos juvenistas, tive a
sensação que não há escapatória. Escolhendo ser católico ou evangélico, ser de
direita ou de esquerda, amar ou não alguém com quem podemos passar o resto da
vida, tudo isso é uma teia criada por valores que não se metamorfoseiam com o
decorrer dos anos. Essa tradição “valorosa” que temos, e de várias outras
sociedades, são mais retrógradas do que modernas. Quando leio esse tipo de
história percebo que não evoluímos, ainda estamos indo para 1984. Não resolvemos fugir do
que ocorre conosco, resolvemos nos abster da reflexão e de ter consciência
sobre o que ocorre a nossa volta, parece-me que preferimos ao sofrimento.
O leitor talvez esteja
sentido falta de alguma explicação a mais sobre o livro, sobre os contos, mas
entendo que o conteúdo reflexivo que a obra traz é muito maior do que saber
sobre o estilo do autor ou sobre a estrutura de todo o livro. Posso afirmar uma
coisa: o leitor que não tem paciência, que não gosta de novos estímulos, com
certeza não gostará do livro de Clayton de Souza.
No primeiro conto,
intitulado, quase como uma mensagem subliminar, A semente; a terra aponta para o início de uma reflexão
de confiar ou não no que os outros dizem ou fazem. O fim, abrupto, não representa
realmente o fim, mas o início do que poderia ser uma mudança na vida do
personagem principal.
Durante todos os contos, o
autor além de pontuar a dúvida e a incerteza existente em todos os personagens
principais, utiliza-se de vários gêneros literários. Notícias, boletins de
ocorrências, diários, tudo é escrito da maneira que o gênero solicita, mas dentro
de uma narrativa de conto. Apesar de achar que tudo está bem encaixado, no
momento correto, acredito que alguns leitores não se sintam à vontade com esse
tipo de leitura.
Desde o primeiro momento,
tive a imagem que Os contos
juventistas não foi feito
para todos os leitores porque, como eu já disse, alguns leitores não gostarão
de ver seus ideais ou ideologias sendo tratados de maneiras “escrachadas”; e ao
mesmo tempo foi escrito para todos os leitores porque essa é a nossa realidade.
Nada ali é mentira, quem dera fosse. Tudo pode ser constatado, mais ou menos
dia. Tudo é quase real. E daí o incômodo.
E esse embrulho que se dá
perante os olhos, no âmago de nosso ser, é o que faz que a leitura seja boa,
pois incômoda. Ela dá um choque. Nem só de finais felizes pode viver o homem,
uma vez que não somos finais felizes sempre. Os
contos juvenistas são como
uma rua cheia de pedras agudas e que você resolve andar por cima, mas que ao
final da travessia, com dores e feridas abertas olha pra trás e sorri.

