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29 de setembro de 2014
O CASAMENTO

O CASAMENTO

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por Claudia Marczak

O planejamento era absolutamente necessário. Um bom planejamento garante um bom resultado. Embora a situação não fosse um negócio comercial, a máxima citada exaustivamente pela sua avó era uma verdade, até porque era um projeto audacioso. Pronto, novamente o pensamento formal, do qual tentava se desvencilhar e conseguiria. Estava fazendo tudo certinho para isso. Nada mais dentro de padrões. Tudo novo.

Primeiro seria o lugar. Pensou em praia ou campo, mas com certeza um lugar aberto. Os ares de liberdade seriam os únicos a serem respirados por ela a partir daquele momento.  Praia seria interessante pela presença e o som do mar que dariam um toque especial ao evento, mas a areia poderia incomodar alguns convidados. Campo seria até melhor, mas teria que ver com algum colega a possibilidade de um sítio ou chácara que, imprescindivelmente, deveria ter um gramado extenso e folhagens generosas. Teria que pensar melhor sobre isso. Teria um tempo, os demais detalhes exigiam mais no momento. O que servir? Frutas, ponche, vinho branco. O casamento seria pela manhã, quando tudo está mais fresco, mentes e clima. Alguns acepipes (olha aí mais uma vez sua avó e seu vocabulário de palavras e expressões arquetípicas) fáceis de pegar, diferentes e saborosos. Crepes crocantes com recheios variados e exóticos. Tudo da melhor qualidade. Frutos do mar seriam uma boa pedida para o almoço. Talvez a praia fosse realmente uma boa opção. Comidas frias e saladas, por conta do casamento ser de manhã. Algumas cadeiras, espreguiçadeiras e mesinhas ficariam espalhadas pelo lugar. A mesa com os acepipes (ai, vó, me deixa!) e a comida ficaria ao fundo, com uma toalha branca bordada e muitas flores decorando. Flores era outro detalhe muito importante. Pesquisaria o significado de cada uma delas para que só estivessem na mesa aquelas que representassem exatamente aquele momento tão especial. Algumas orquídeas raras, angélicas, flores do campo, não sabia ainda, a certeza era apenas de muitas cores se espalhando pela mesa e por toda a decoração. Logicamente a cerimônia seria realizada de forma ecumênica. Nada de estarem vinculados a alguma religião. Uma benção com palavras bonitas e citações de poemas. Já tinha até escolhido alguns, que aguardavam o momento exato de serem falados. Momento exato. Importante isso. Ela e o noivo vestiriam roupas iguais: túnicas brancas de algodão cru. Sim, nada poderia ser maior que o brilho que os dois emanariam, nem mesmo as roupas roubariam a atenção dos convidados. Nada de véus ou coisas que se colocassem no meio do caminho. Apenas uma guirlanda de flores ornaria seus cabelos. Poderia distribuir similares para as convidadas. Ou não. Pensaria melhor nisso. Entraria sozinha como sempre fora, um buquê simples nas mãos e um sorriso aberto nos lábios. Ele estaria lá, aguardando por ela, sorrindo também. Seriam abençoados por todos e aproveitariam a festa junto com os convidados. Voz e violão fariam o som, sentados ali mesmo junto a todos. Voz, violão e percussão, assim dariam um pouco mais de impacto. Todo mundo dançaria e riria feliz com o enlace. Iriam embora ao final da festa. Viajariam para algum lugar simpático e aconchegante. Estava definido. Apesar de faltarem alguns detalhes técnicos, seria assim.

- Já deu o horário. Você vai ficar aí?

Assustou-se com a voz da colega. Também a idiota não precisava invadir seus pensamentos dessa maneira tão sem cerimônia. Nem sabia se a convidaria. Era meio antipática a dita cuja, sempre preocupada com as disposições formais do escritório e com uma certa grosseria inconveniente a qual autodenominava de sinceridade. Disfarçou a surpresa e os devaneios matrimoniais que a entretinham:

- Estou terminando aqui. Pode ir que eu fecho tudo.

A outra não discutiu e se despediu antes que alguém a pedisse para ficar. Olhou para o relógio. Seis em ponto. A danada da colega não ficava um minutinho além do horário. Estava certa. Não se pode dar moleza para o patrão. Não era o momento de pensar nessas coisinhas pequenas de escritório. Tinha planos maiores. O que estava faltando mesmo... Ah, tantas coisas! O esquema estava pronto, mas tudo precisava ainda ser mais organizado, afinal quem não tem competência não se estabelece (vó, não vou mais discutir com você...). A música. Sim, a música. Além do pessoal para tocar precisaria elaborar uma lista com as suas preferências. Era bom misturar um pouquinho também para agradar todos os gostos. Começaria com músicas mais leves, uma bossa nova, um MPB anos 60 e 70, quando ainda se fazia coisa boa e todos sabiam as letras de cor. Depois um pop rock dos anos 80 e 90, porque lembrava sua adolescência. Sentiu-se velha.  Melhor nem pensar. Música boa é aquela que toca a alma e no seu casamento tocaria o que ela bem entendesse. Olhou para o relógio de novo. Seis e meia. Esses pensamentos comem as horas mesmo. Hora de ir para casa.

O caminho de casa era o habitual. Nada de novidades por enquanto. Depois do casamento aí sim sua vida mudaria. Passou na padaria para comprar alguma coisa para o lanche. Caminhou na rua úmida da última chuva, com cuidado para não escorregar. Do trabalho para casa era bem rápido, uma condução e um tantinho a pé. Não tinha pressa para chegar. Subiu as escadas escuras. Terceiro andar sem elevador. Pensaria melhor na hora de alugar um apartamento. A porta se abriu exalando um silêncio ensurdecedor. Ligou a TV para ouvir alguma voz. Preparou o lanche com esmero, pão, ovo pochê e uma xícara de chá. Comeu despida de pensamentos. Um banho longo, uma leitura curta de uma autoajuda qualquer de sua coleção infindável. Trocou-se para dormir. Era bom mesmo dormir cedo, Deus ajuda quem cedo madruga (nem vou falar mais nada, vó). Olhou para o telefone. Não iria tocar naquela noite. Nem na próxima. Nem nas próximas. Cobriu-se por hábito. Estaria só. Como sempre.


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16 de abril de 2014
O encontro

O encontro




por Claudia Marczak


Tomou um café preto, de coador, com pouco açúcar e relembrou sua decisão: seria feliz. Como um mantra, repetia essa frase todas as manhãs na banqueta da padaria, enquanto tomava seu café com um pão na chapa. Repetia a frase em cada pedaço do dia, para ter certeza que cumpriria a promessa que fizera a si próprio: seria feliz.
           
Do casamento, morno e monótono de muitos anos abortado há pouco tempo, restaram os filhos e uma amizade até quase saudável com a ex-mulher. Mais leve, sem o peso de uma vida que não lhe cabia mais, tornara-se um pai mais verdadeiro e companheiro dos filhos adolescentes.
           
A casa era nova, o emprego também. Abandonara velhos vícios, adquirira novos e mais saudáveis. Livrara-se da cara limpa e passou a cultivar um cavanhaque que lhe agradava o olhar. Era isso, tinha gosto em olhar para si mesmo.
           
Já passara da fase das baladas e dos delírios retomados logo após a separação. Aquele dia seria diferente. Um divisor de água, se as palavras de seu pai coubessem naquele momento. Um encontro depois de meses de solidão voluntária. O primeiro encontro da sua vida nova. 
           
Conheceram-se na academia. Um grande passo para um sedentário convicto, a atividade física passou a ser um momento de novos conhecimentos. Trocaram olhares, telefone, conversaram. Caminharam no calçadão. Pegaram um cinema. Tinham tanto em comum. Tanta coisa que até assustava. O convite foi feito para um jantar. Aprendera algumas receitinhas charmosas para impressionar. Era a hora de colocar em prática tudo o que guardara em si por anos.
           
O anjo bom dos separados atuou naquele dia, quando conseguiu uma faxineira para dar uma ordem no pequeno apartamento. Agora sim estava com ares de casa. Cheiro bom de limpeza, roupas passadas e guardadas, louça lavada. Chegou mais cedo do trabalho, ingredientes comprados pra um risoto especial. Tudo seria especial.
           
Cozinhou com rigor científico e leveza de alma. Preparou a mesa, simples, mas honesta. Tomou um banho, aparou o cavanhaque. Penteou-se observando os cabelos que começavam a grisalhar.  A distância da felicidade é grande. Trocou de camisa várias vezes, até achar a que se encaixava no seu desejo. Olhou-se já pronto e gostou do que viu. A campainha tocou antes da espera.
           
– Atrasei?

– Nada. Chegou na hora.

– Trouxe um vinho. Achei que você gostaria mais do tinto seco.

– É o meu preferido. – disse pegando a garrafa entendida a ele, enrolada em um papel pardo e fino – Entra, eu estou terminando de ajeitar o jantar.

O vinho combinava perfeitamente com o prato escolhido. Estava tudo indo tão bem a ponto de dar medo.

– Se quiser, pode colocar uma música.

Logo alguns acordes encheram a casa.

– Não sei se você gosta. É um grupo novo, alternativo que conheci outro dia. Eles tocam uma nova versão pros clássicos. Eu adorei.

Músicas antigas, novas leituras. Que outro som caberia melhor? Abriu o vinho e serviu. A conversa começou tímida, mas logo pareciam que se conheciam há anos. Serviu o jantar, que foi elogiado com entusiasmo. Um pouco mais de vinho e mais conversa no sofá.

– Que bom que você gostou do jantar. Sou iniciante na cozinha.

– Nem pareceu. Estava maravilhoso.

Olharam-se.

– Tudo está maravilhoso.

As palavras certas foram ditas. Sabia que a hora estava chegando e sentia seu coração bater como o de um menino.

– Foi muito bom conhecer você. Muito bom mesmo, eu nem sei como falar...

– Não fala...

Aproximaram-se. Próximos demais a ponto de sentir o calor e a boca do moço encostarem na sua. Uniram-se. Um beijo, um abraço, um laço. Tinha certeza: seria feliz.



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28 de fevereiro de 2014
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A epidemia, conto de Claudia Marczak

por Claudia Marczak

O sol quase a pino, um calor quase infernal, quase meio-dia, num dia de muitos quases. Alguns quase perderam o ônibus, outros quase perderam a hora, uns tantos quase perderam um amor, poucos quase foram felizes. O vai e vem de pessoas fazia qualquer um desaparecer no meio da multidão, cada um com seu cada qual. Mudas e robóticas as pessoas seguiam o fluxo cotidiano: casa, trânsito, trabalho, trânsito, casa. Foi aí, no meio do tudo/nada que o homem caiu. Caiu assim à toa. Não esbarrou em ninguém, não tropeçou, não deu um grito, não reclamou de nada, apenas caiu assim, como um fruto despenca do pé. Com a mão em torno do pescoço e os olhos saltados das órbitas o homem tinha a cara do desespero. Em poucos segundos se formou uma pequena aglomeração em volta do homem caído:

- Chama a ambulância! – as vozes gritavam aflitas.

As pessoas mais solícitas tentavam todas as técnicas de emergência aprendidas na televisão. Estica o homem no asfalto, faz massagem cardíaca, dá tapinhas na cara, dá água ou qualquer coisa que o tirasse daquele estado angustiante. Nada de melhora. Ele permanecia com o olhar perdido, as mãos agoniadas como se tentassem tirar uma corda invisível que o sufocava.

A ambulância tardou apenas o tempo do trânsito caótico. Levaram o homem para hospital mais próximo. Correram com a maca e começaram a examiná-lo. Pressão um pouco alterada, mas nada preocupante. Coração um pouco acelerado, mas nada demais. Oxigenação do sangue em perfeita ordem. Temperatura elevada. Infecção, concluíram. Os exames comprovaram que nada havia. Tudo normal. E o homem agonizava, quase cianótico na maca do pronto atendimento. Dá-lhe antitérmico, analgésico, antialérgico, antibiótico e qualquer coisa que combatesse o que desconheciam. E o homem continuava com o olhar de quem pede socorro. Não falava, não gemia. Apenas tentava desfazer o nó invisível que lhe apertava o pescoço. Uma junta médica se formou. O que fazer com o que não se sabe?

- Interna e isola. – o médico chefe do plantão falou com a sabedoria da ignorância.

Assim foi feito. Levaram o homem pra um quarto isolado dos demais e passaram a monitorá-lo. De hora em hora exames refeitos, sinais vitais medidos e nenhuma melhora. O enfermeiro, entre um exame e outro, já angustiado com a agonia do homem, resolveu conversar com ele. Embora ele não conseguisse falar, talvez desse alguma pista do que estava acontecendo. Perguntas de praxe e o olhar suplicante por ajuda do homem.

- Eu queria poder ajudar o senhor...- desistiu o enfermeiro, reconhecendo sua impotência diante do desespero.

O homem, então, ergueu uma das mãos. Fez um gesto solto no ar, como quem escreve no vazio.

- O senhor quer uma caneta?

Sem palavras o homem se fez entender. Talvez quisesse deixar algum recado para alguém ou quem sabe explicar o que estava acontecendo. O enfermeiro correu e arrumou uma caneta e um bloquinho de receitas para o agonizante deixar seu recado.
Com dificuldades o homem sentou-se na cama e com as mãos trêmulas ele começou a escrever. Uma folha, duas, três. Os minutos passavam e ele escrevia compulsivamente. Um bloquinho inteiro, frente e verso. O enfermeiro conseguiu mais alguns bloquinhos e observava incrédulo o rapaz escrevendo como um louco. Achou melhor chamar o médico de plantão, que achou melhor chamar o chefe dos médicos, que achou melhor chamar a junta médica pra ver o que acontecia. O homem escrevia num transe. Não atendia aos chamados, apenas olhava para o vazio vez por outra e sorria. Ficou assim por horas, até sentir-se aliviado de si. Deu um suspiro aliviado ao escrever a última linha. Levantou-se e espreguiçou-se como quem desperta de um sono profundo.

- Estou bem – afirmou.

Os médicos não acreditavam no que viam. Nos bloquinhos escritos havia um romance, duas crônicas, quatro contos, vários poemas, alguns haicais e sonetos. Resolveram repetir todos os procedimentos já feitos. Tudo normal. O homem estava melhor do que antes. Não havia mais como mantê-lo no hospital. Enquanto decidiam o que fazer com o paciente curado por si só, um atendente interrompe o silêncio reflexivo dos doutores.

- Chegou mais um, igualzinho a esse aí.

Correram todos até a emergência. Um garoto, novo ainda, dezessete, dezoito anos talvez, com os mesmos sintomas. Exames normais, olhos saltados nas órbitas e as mãos em torno do pescoço tentando desfazer o nó. Correram com o garoto para o isolamento e o colocaram no mesmo quarto do homem, que já se sentindo muito bem, conversava animadamente sobre seus escritos com algumas enfermeiras. O moleque na cama agonizava.

- Dá um bloquinho pra ele – sugeriu um enfermeiro.

Foi feito rapidamente. É difícil olhar para os olhos do desespero. Receituário e caneta nas mãos do menino. Ele olhou aliviado ao ver a caneta em suas mãos. Desprezou o receituário e foi para as paredes. Uma enfermeira mais velha tentou impedi-lo, mas o chefe do plantão fez um sinal para deixá-lo. Traços, que se transformaram em desenhos, rostos, folhas, flores, letras, animais. Tudo brotava das paredes imaculadas do hospital. Algum tempo depois, um painel estava concluído. O rapaz suspirou aliviado e sorriu.

-Estou bem – afirmou.

Todos olharam para ele incrédulos. O garoto parecia ótimo. Olhava sua obra e comentava com as pessoas do quarto sobre a sua criação. Enquanto se decidia o que fazer com os dois curados, outro enfermeiro interrompeu os pensamentos técnicos da junta médica que se formara:

- Chegaram mais uns cinco ou seis, do mesmo jeito que esses dois. E tem mais, no refeitório o psiquiatra está cantando, acho que é essa coisa de ópera e tem umas duas ou três enfermeiras dançando.

A junta médica saiu ensandecida pelos corredores do hospital. Havia um ar caótico no local. As pessoas não paravam de chegar. Todas com os mesmos sintomas: as mãos no pescoço, os olhos saltando das órbitas, febre e desespero. Só se acalmavam depois de alguma coisa absolutamente inusitada. Havia os que cantavam, os que escreviam, os que compunham. Alguns médicos já se mostravam-se contaminados pelo estranho acontecimento. Na ortopedia, alguns faziam esculturas com o gesso. Na pediatria, desenhos coloridos invadiam as paredes e corredores. Na UTI podia se ouvir cantos e batuques. O alto falante do hospital requisitou a junta médica na sala do diretor do hospital. Algo grave estava definitivamente acontecendo.

- Senhores, estamos diante de uma epidemia nunca antes vista. Os últimos boletins afirmam que o que se passa aqui não é diferente do que acontece na cidade inteira e tudo avança em uma proporção devastadora.

O diretor ligou a televisão. Os plantões de todas as emissoras noticiavam o insólito. A cidade estava em caos. No metrô um grupo dissidente de uma grande orquestra se apresentava em plena plataforma.  Nas ruas o trânsito era interrompido por grupos de dançarinos que faziam performances entre os carros. Poemas eram ouvidos aos quatro ventos. Nas escolas as cores se espalhavam pelos muros, frutos das criações infantis.  A polícia foi chamada, mas em muitos casos os policiais se uniam ao movimento e aumentava a massa de delirantes. A junta média, atônita, assistia ao que era noticiado. Um dos médicos começou a desenhar na agenda. Outro batocava a caneta na mesa, tentando em vão controlar o impulso do ritmo, sob o olhar incrédulo dos demais.

- Em breve, senhores – prosseguiu o diretor – todos nós seremos contaminados. Não há nada que possamos fazer. A epidemia é definitiva, ninguém se salvará.

Os olhos tristes do diretor contrastavam com a luz e o brilho que a cidade emanava através de cores e sons. O mundo sucumbiria definitivamente à arte.
        

         


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