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3 de abril de 2014
É bom mesmo ser a formiga?

É bom mesmo ser a formiga?


por Marco Severo

Se você não viveu sua mais tenra infância dentro de uma FEBEM, certamente já deve ter lido ou ouvido falar sobre a fábula da Cigarra e da Formiga, aquela história criada, pelo grego Esopo, para ensinar às criancinhas que se você optar por ser como uma Cigarra e passar o dia todo cantando em cima do pé de manga e não estudar nunca vai conseguir emprego de coisa alguma e vai viver escrevendo crônicas de graça na internet; enquanto todos os seus coleguinhas que estudam, se esforçam e se dedicam, que fazem tudo num ritmo de linha de montagem sem pausa nem pra ir ao banheiro; brincando de serem Formigas vão conseguir os melhores empregos, vão ter consciência financeira e poupar para os dias de dificuldade, e você, que preferiu ser Cigarra, vai morrer da pior morte possível quando o inverno da vida chegar. Ou algo assim.

Ocorre que dia desses, eu estava pensando que sou mesmo um cara de muita sorte. Nasci numa época em que grandes autores – hoje já mais próximos de ter uma conversa com a Caetana, como diria Ariano Suassuna – ou concluíram ou já estão perto de concluir sua obra, iniciada há quarenta, às vezes cinquenta anos. Quero dizer que tenho a felicidade de poder ler toda a obra dessas pessoas, completa, sem faltar um só livro, coisa que os leitores desses escritores do tempo em que eles começaram a publicar não terão, pelo simples fato de que, provavelmente, este pessoal não está mais entre nós. Pensemos em, por exemplo, José Saramago. Philip Roth, ou Alice Munro. Joyce Carol Oates, John Updike, Don DeLillo, Paul Auster. Todos, autores reconhecidamente essenciais, pelos mais idiossincráticos motivos. E eu posso simplesmente escolher um livro deles, de uma obra extensa, ciente de que ainda terei vários outros com os quais me deleitar, me recostar numa poltrona, rede ou cama, e adentrar na sua verdade. Nesse ínterim, claro, como todo leitor voraz, descubro outros autores e obras. E assim, vou “distribuindo” os livros desses autores ao longo da vida, “economizando” a leitura dos livros desses autores maravilhosos, mas com uma quantidade de livros determinada. Afinal, não se pode esperar mais uma vasta produção de quem já está beirando os 70, 80, ou já fez aquela curva do “a qualquer momento”.

Uma bela de uma Formiga, portanto.

Era um plano que tinha tudo pra dar certo, não fossem alguns fatores que não deixavam de me perturbar. Os dois principais são:

Fator 1: se eu ler a obra toda, poderei ganhar ainda mais na releitura, daqui a vários anos.

Eis aí um fator que não se pode ignorar. Livro bom é um negócio para o qual se deve fazer reverência. Sempre. Da mesma maneira que jogo num limbo (quase) eterno os livros que não me fisgam, respeito inteiramente um livro que é maior que eu. Se eu reconheço hoje, na casa dos 30, que há em determinada obra algo de grandioso, imagina o quanto poderei ganhar relendo um livro de Saramago, Roth ou Pirandello 10, 20 anos depois, quando eu supostamente terei mais repertório e poderei enxergar coisas para as quais eu antes era cego?


Fator 2: eu posso morrer cedo e deixar muitas obras desses autores por ler.

Eu nunca tinha pensado nisso, até que alguém me chamou a atenção para o óbvio: e se, por qualquer motivo, minha vida fosse abreviada subitamente? Do que adiantaria ter poupado todos aqueles livros para não me faltar o que ler desses autores “ao longo de toda a vida”? Nada, porque agora faltaria vida para ler toda a obra que ficou pra trás, no mundo dos vivos. Considerei este fator algo extremamente relevante para a decisão que eu mal sabia que estava prestes a tomar. Nunca me ocorreu chegar à idade de um Matusalém, ou me tornar um Highlander, mas também nunca me ocorreu ser a menina dos fósforos. Sempre pensei nesse jogo de vida e morte para mim, pessoalmente, como uma coisa mais ou menos justa. Quem sabe chegar até a expectativa de vida do brasileiro? E como esta parece vir aumentando mais a cada ano, era bem capaz de eu viver um bocado, me fosse concedido este desejo. Por outro lado, era bem possível que alguma fatalidade acontecesse. Pelo sim, pelo não, era melhor providenciar a leitura para logo. Isso não significa que eu vá fazer uma leitura apressada. Certo que não. O que eu devo fazer, na verdade, é não adiar a leitura por conta dessa história de “nunca me faltar o que ler” de um determinado autor do qual eu goste.

E isso de morrer cedo sempre martelou mesmo na minha cabeça; era eu morrer e a obra do escritor ficar. Imagino a minha ira ao tentar negociar com a Mulher da Foice:

“Que merda – exclamaria eu – ainda falta tantos livros pra eu terminar a obra de fulano e sicrano!”
Ao que eu provavelmente ouviria:
“Azar o seu. Tempo esgotado. Quem mandou não ler antes? Não foi por falta de aviso. Seus amigos lhe avisaram, seu próprio grilo falante lhe avisou, o que estava faltando?”.
 “Não posso voltar rapidinho, só pra concluir o serviço?”
“Serviço rápido é a vida, meu caro. Um verdadeiro fast-food. Onde já se viu ler tantas obras completas rapidinho? Você já viu o tamanho dos livros do Tolstoi?”
“Mas eu prometo que me entrego depois...”.
“Já disse que não. Além do mais, você pode acabar pedindo algum tipo de indulto... E vai que o tribunal superior resolve lhe dar algum benefício? Iam acabar me aposentando, dizendo que meus serviços não se fazem mais necessários...”.
“Que absurdo... mas a gente sabe que as altas instâncias muitas vezes acabam julgando e condenando por vingança, ou para defender seus próprios e escusos interesses. Estou mentindo, dona Morte? Mas e agora, como faço pra ler tudo o que ficou para trás?”.
Ela talvez coçasse a cabeça e terminaria dizendo:
“Bem que tentaram lhe avisar que pra onde você vai não tem biblioteca...”.

A conclusão a que chego é a seguinte: nada de ser Formiga. O negócio é mesmo a esbórnia, a orgia, pegar os volumes da obra dos escritores que julgamos grandes e cair em cima deles, sem pena. Enquanto leitor, não há nem motivo para cogitar não ser Cigarra. Se for o que te der na telha, meu caro, leia um atrás do outro, e releia daqui a uma década. Nada de poupar para o futuro, afinal de contas, ele pode acabar por chegar somente para os outros. E, independente de você, se a obra do autor em questão for mesmo grandiosa, ela fica. E você, meu caro, que foi apenas o homem comum que nasceu, cresceu, casou, teve filhos e envelheceu, passa sem deixar vestígios.




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