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16 de maio de 2014
A História do Cinema: Uma Odisseia.

A História do Cinema: Uma Odisseia.


 por Renan Matos

Dirigido e narrado pelo crítico de cinema irlandês Mark Cousins, a História do Cinema: Uma Odisseia é um documentário sobre a história do cinema, feito para televisão com 15 episódios e mais de 900 minutos.

Mark Cousins nos transporta do fim do século 19 aos dias de hoje, demonstrando a evolução de uma nova forma de arte: o cinema. Por meio de filmes, locações ao redor mundo, entrevistas com diretores e profissionais do meio, Cousins nos conduz para uma deliciosa odisseia, onde poderemos ver os principais criadores da sétima arte.

Venho, portanto, aos poucos, destacar o que em cada episódio é apresentado para os interessados em cinema. Tentarei de forma clara e sucinta demonstrar os melhores momentos do documentário e explicar os elementos e técnicas cinematográficas na qual passou por diversas mudanças.

EPISÓDIO 1 - INTRODUÇÃO

A arte que se parece muito com nossos sonhos é uma indústria global multibilionária a qual não visa à bilheteria nem o show biz. O que a motiva para crescer de forma incessante é a paixão e a inovação. Veremos como em vários cantos do mundo a inovação feita por diversos diretores em tempos distintos foi essencial para sua evolução. Um conto épico sobre inovação, que atravessa 12 décadas e 6 continentes.

Em uma breve introdução, o documentário expõe, com algumas cenas de filmes, como o cinema nos envolve de forma extrassensorial.

Em O Resgate do Soldado Ryan (1998), a cena inicial do filme foi filmada numa praia pacífica na Irlanda. Mas o diretor Steven Spielberg levou balas, sangue e bombas até lá. Uma mentira para contar uma verdade. A câmera abaixo e acima da água, tremulante, mostrando corpos sendo baleados e carregados pelas ondas, é a arte de fazer com que nós nos sintamos lá. Isto é cinema.




Em A Liberdade é Azul (1993), dirigido por Krzysztof Kieslowski, uma jovem está de olhos fechados em Paris para sentir o calor do sol no rosto. Ao mesmo tempo, sem que ela veja, um drama acontece, uma velhinha esforçadamente tenta guardar uma garrafa de vidro em um depósito. Uma luz branca enche a tela e liga a jovem à senhora, queremos entrar no filme e ajudá-la. Filmes como este são máquinas de empatia. Isto é cinema.


Cenas como a da praia da Normandia e a velhinha mostram que em termos de usar som, luz e verdade – no sentido em que a realidade está ocorrendo – o cinema pode ser ótimo. A história do cinema é a história disso. Uma história cheia de surpresas.

Vocês podem ter achado que o programa (o documentário) se referia a filmes clássicos como Casablanca (1942), em que mostram cenas cheias de anseios, história de amor e fama, closes de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. Não, aqui, somos apresentados a filmes clássicos não hollywoodianos, como filmes japoneses que não tinham pressa em demonstrar cenas românticas, os quais se aproveitavam de objetos imóveis para demonstrar a realidade da cena, onde a própria cena sem personagens famosos poderia trazer algum tipo de emoção ao telespectador. Hollywood não era clássica. O Japão é que era.

Com todo o papo de bilheteria, dinheiro pra cá e dinheiro pra lá, marketing, glamour, pré-estreias e tapetes vermelhos, a indústria quer que acreditemos que o dinheiro é o que motiva o cinema. Os executivos estão enganados – talvez parte do público esteja sendo enganado –, eles não conhecem os segredos do coração, nem o brilhantismo do meio cinematográfico. Então, o que motiva o cinema senão o dinheiro? A resposta para essa pergunta: ideias.

Julio Cabrera nos ensina que o cinema busca que o telespectador tenha uma experiência instauradora e plena, para ser possível produzir um impacto emocional em que, ao mesmo tempo, diga algo a respeito do mundo, do ser humano, da natureza e que tenha um valor cognitivo, persuasivo e argumentativo através de seu componente emocional para alguém.

Por fim, tentando ser mais direto, cinema não está interessado somente em passar uma informação objetiva nem em provocar uma pura explosão afetiva por ela mesma. Utilizando as palavras de Cabrera, no cinema “não é suficiente entendê-lo: também é preciso vivê-lo, senti-lo na pele, dramatizá-lo, sofrê-lo, padecê-lo, sentir-se ameaçado por ele, sentir que nossas bases habituais de sustentação são afetadas radicalmente”.

E é assim que o documentário vem expor por meio da demonstração de gênios do cinema como uma ideia se torna arte. Vejamos como um plano de bolhas se torna uma ideia no cinema.

Em Odd Man Out (1947), da diretora britânica Carol Reed, o homem está encrencado. Ele vê seus problemas refletidos em bolhas da bebida que derrubou.



Em 2 or 3 Things I Know About Her (1967), do diretor francês Jean Luc Godard, outro close de bolhas é feita. O Personagem também está com problemas e influenciado por Carol Reed, Godard, 20 anos depois, filmou o mesmo em seu filme.



Já em Taxi Driver (1976), do diretor Martin Scorsese, grande apreciador de Carol Reed e do cinema de Godard, filma Travis (Robert Deniro), um ex-fuzileiro da guerra do Vietnã, encarando seus problemas.


Vimos, portanto, como uma ideia é repercutida por vários anos e por vários diretores renomados. Essa forma de linguagem cinematográfica é o que faz também com que o cinema cresça com o passar dos anos. Ideias visuais, mais que dinheiro e marketing, motivam o cinema. Nem sempre essas ideias parecem inovações, mas, sentados no escuro, são imagens e ideias que nos empolgam.
Daí, você poderia perguntar: quem controla o cinema? Quem consegue entrar na sua cabeça? Ora, David Lynch (americano), Baz Luhrmann (australiano), Samira Makhmalbaf (iraniana), Lars Von Trier (dinamarquês) e Ingmar Bergman (sueco) conseguem.

São eles que fazem com que sejamos absorvidos por histórias, personagens, sons e imagens. E se isso não importasse, não seria cinema. O documentário A História do Cinema é um filme de viagem global atrás dos inovadores, das pessoas que dão vida a esta forma de arte sublime e inefável que é o cinema.

Para o fim dessa introdução, ainda temos uma surpresa. O filme traz uma curiosidade acerca do que há de acontecer nos anos 70, há de se esperar que momentos como este:




Em Operação França (1971), do diretor William Friedkin, uma câmera voando feito uma bala, pneus cantando enquanto um carro persegue um trem, seriam as características que seriam visíveis e perceptíveis ao telespectador. No entanto, a magia do cinema transcende.

Uma técnica cinematográfica conhecida como Phantom Ride, está exposta nesta cena. Pode se dizer que George Albert Smith, foi um dos pioneiros dessa técnica, usando em seu filme A Kiss in the Tunel (1899). Tal técnica será explorada mais a frente com outros exemplos e mais detalhes.


Muito do que supomos sobre o cinema está errado. É hora de redesenhar o mapa da história do cinema que temos em mente. É hora de conhecermos profundamente tudo aquilo que concerne o mundo cinematográfico, sem achismos, com argumentos técnicos que serão sempre bem vindos em uma discussão sobre cinema.
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21 de outubro de 2013
O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria

O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria


O Terceiro Homem
 é um filme dirigido por Carol Reed, com Orson Welles e Joseph Cotten nos principais papéis. Estreado em 1949, foi produzido por Alexander Korda.

Korda convidou o autor inglês Graham Greene para criar um argumento para um filme. O argumento foi criado, o escritor aceitou a colaboração de outros intervenientes na película, como a do diretor Carol Reed ou a do ator Orson Welles, e o filme foi um sucesso. O livro surge depois do filme. No prefácio da obra, o escritor inglês nascido em 1904 explica parte do processo criativo:

Suponho que a maior parte dos romancistas traz nas suas cabeças ou blocos de apontamentos as primeiras ideias para histórias que nunca chegam a ser escritas. Por vezes lembramo-nos delas passados muitos anos e pensamos com pesar que deveriam ter sido boas, num tempo agora morto. Há anos, nas costas de um sobrescrito, escrevi um parágrafo de abertura: “Despedira-me de Harry havia uma semana quando o seu caixão foi descido no solo gelado de fevereiro, e foi portanto com incredulidade que […]”

Quem estava incrédulo era Rollo Martins. Mas, para saber a razão dessa incredulidade, o leitor deste artigo deverá ler o livro, ou ver o filme! Se fizer ambos, descobrirá alguns pormenores que não coincidem. Mas personagens principais, história, espírito e mensagem são os mesmos.

O enredo desenvolve-se na Áustria, após a Segunda Guerra Mundial, numa «lúgubre e destruída cidade de Viena dividida em zonas pelas Quatro Potências: a zona russa, a britânica, a americana e a francesa».

Rollo Martins é um cidadão britânico que chega à capital austríaca a convite do seu amigo de longa data Harry Lime. Mas logo lhe anunciam a morte do antigo companheiro de escola, atropelado por um automóvel. Ainda a tempo do funeral, Rollo Martins despede-se de Lime com emoção e lágrimas. Depois de ouvir a história do acidente, Martins resolve iniciar uma investigação por conta própria. Não está convencido da veracidade da história que lhe contam e que, entre outros pormenores, implicam a presença de dois homens no local do atropelamento. E tem razão para as suas desconfianças. Cedo descobre que havia um terceiro homem.

Narrado por Calloway, um polícia da Scotland Yard a quem Martins diz que os polícias «são vigaristas ou estúpidos», O Terceiro Homem é um romance policial que não choca leitores habituais, nem desilude quem se inicia no prazer da leitura.

O romance é construído sobre uma linha de que muito pouco se afasta. Martins tenta a todo o custo descobrir quem é o terceiro homem presente no atropelamento e provar que em lugar de acidente há crime. Uma das poucas ocasiões em que o autor conduz Rollo Martins para outros ambientes, mas mesmo assim com um sequestro e muito suspense, resulta num momento verdadeiramente hilariante, quase que num intervalo para descontração, com uma cena de humor que, como muitas outras em diversas situações, explora o mal-entendido, a parecença, a confusão. É preciso que se diga que «a ocupação habitual de Rollo Martins era escrever westerns baratos, que assinava com o nome de Buck Dexter». A partir do apelido com que assina os seus livros, Dexter, Rollo Martins começa por assegurar uma semana de alojamento e comida. O seu interlocutor, Crabbin, pensa que se trata de Benjamim Dexter. Mais tarde, Rollo Martins é obrigado a comparecer numa conferência em que às questões colocadas responde com uma aparente arrogância, que mais não é do que a face visível da sua ignorância.

A primeira pergunta escapou a Martins, mas felizmente Crabbin respondeu satisfatoriamente. Uma mulher de chapéu castanho com um pedaço de pele à volta da garganta perguntou com interesse apaixonado:
 Posso perguntar a Mr. Dexter se ele está ocupado com outra obra?

 Oh, sim, sim …

 Posso saber o título?

 O Terceiro Homem  disse Martins, ganhando nova confiança por ter vencido aquele obstáculo.

 Mr. Dexter, pode dizer-nos qual foi o autor que mais o influenciou?

Martins, sem pensar, disse:
 Grey.  referia-se, claro, ao autor de Cavaleiros da Saga Vermelha, e ficou satisfeito por verificar que a sua resposta tinha provocado a satisfação geral, exceto para um velho austríaco, que perguntou:

 Grey. Qual Grey? Não conheço.

Martins sentia-se agora seguro e disse:
 Zane Grey… Não conheço outro.

A colónia inglesa riu à socapa e Crabbin correu em auxílio dos austríacos.
 Isto é uma brincadeira de Mr.Dexter. Ele referia-se ao poeta Gray […]

−  E chama-se Zane Grey?

 Essa foi a brincadeira de Mr. Dexter. Zane Grey escreveu aquilo que chamamos westerns […]

 E James Joyce, onde colocaria James Joyce, Mr. Dexter?

 Que quer dizer com «colocaria»? Não quero colocar ninguém em lugar nenhum  respondeu Martins. […] agora tinha a impressão injusta de que o estavam a gozar. Zane Grey era um dos seus heróis, e raios o levassem se ia aturar mais disparates.

 Quer dizer que o colocaria entre os grandes?

 Se querem saber nunca ouvi falar dele. Que é que ele escreveu?

Não se apercebeu de que estava a causar uma enorme impressão. Só um grande escritor poderia mostrar-se tão arrogante e original.

Depois de assinar os livros de Benjamim Dexter, Rollo Martins prossegue a sua saga na tentativa de encontrar os culpados pelo estranho acidente que teria vitimado o seu amigo Harry Lime.

Rollo Martins estava numa Viena que, por aqueles tempos, era uma cidade com algumas carências e propícia a traficantes. As negociatas proliferavam. Se algumas não interferiam na saúde da população, já outras eram mantidas por gente criminosa completamente indiferente a valores tão sagrados como a vida. Como consequência da sua investigação, Martins descobriu que o tráfico de penicilina trouxe os grandes especuladores criminosos que «viram ali muito dinheiro».


A guerra e a paz (se se pode chamar paz) tinham feito surgir um grande número de negócios escuros, mas nenhum tão obscuro e vil como este. Os traficantes do mercado negro de géneros alimentares, pelo menos, forneciam alimentos e o mesmo se aplicava a todos os outros traficantes que forneciam artigos a preços extravagantes. Mas o mercado negro da penicilina era um caso muito diferente. A penicilina na Áustria era fornecida só aos hospitais militares; nem os médicos civis, nem mesmo os hospitais civis, conseguiam obtê-la por meios legais. A princípio, esta traficância era inofensiva. A penicilina era roubada por militares e vendida a preços muito altos a médicos austríacos […]. Poder-se-ia dizer que esta era uma forma de distribuição, embora injusta, porque só beneficiava os doentes ricos, mas já a distribuição original também não era justa.

Numa segunda fase, surgiram os grandes especuladores e os ladrões passaram a estar sob a sua alçada.

A terceira parte começou quando os organizadores decidiram que os lucros não eram suficientes. Não seria sempre impossível conseguir legitimamente a penicilina; eles queriam dinheiro mais rapidamente e em maior quantidade enquanto isso era possível. Começaram a misturar a penicilina com água colorida, e, quando a penicilina era em pó, misturavam-na com pó ou areia. […]
E a utilização de areia numa ferida que requer penicilina, bem, não é lá muito saudável. Já muitos homens perderam pernas e braços dessa maneira  e também as vidas. Mas talvez o mais horrível seja visitar o hospital para crianças. Compraram alguma desta penicilina para usar contra a meningite. Algumas crianças morreram e outras enlouqueceram.

Rollo Martins estava agora mais embrenhado do que nunca nas suas pesquisas para desvendar o mistério. Tinha agora quase a certeza de que o desaparecimento de Harry Lime, que «ocupava uma posição importante numa organização de assistência social», estaria ligado ao tráfico de penicilina. E não se enganou. Martins veio a descobrir a surpreendente identidade do terceiro homem.

Pelo meio, a namorada de Harry Lime, Anna Schmidt, é levada pela Patrulha Internacional, numa cena rocambolesca que mistura agentes das quatro potências.

Subiram as escadas e o russo tentou abrir a porta de Anna. Estava bem trancada, mas ele abriu-a com o ombro, sem dar à ocupante oportunidade para a abrir. Anna estava na cama […].
Há um pouco de comédia nestas situações quando não se está envolvido. […] O russo recusou-se a sair do quarto enquanto Anna se vestia; o inglês recusou-se a ficar lá; o americano não quis deixar uma rapariga desprotegida com um soldado russo, e o francês, bem, o francês, penso que o francês achou tudo divertido. Conseguem imaginar a cena? O russo a cumprir o seu dever, observando constantemente a rapariga sem um olhar de interesse sexual; o americano, cavalheirescamente virado de costas, mas consciente […] de cada movimento; o francês a fumar o seu cigarro e a observar com ar divertidamente desprendido a rapariga que se vestia frente ao espelho do guarda-fato; e o inglês estava especado à entrada sem saber o que fazer a seguir.

Rollo Martins acaba por se encontrar com o tão esperado terceiro homem. O encontro tem lugar num «arruinado parque de diversões». O terceiro homem «soube gratificar a mulher encarregada da Roda, de maneira que ficassem com um carro só para eles». Lá em cima, o leitor de O Terceiro Homem verá o Danúbio e as desgraças de quem reduz seres humanos a pequenos pontos sem rosto.

O Terceiro Homem termina com Rollo Martins a caminhar lado a lado com Anna Schmidt, com uma última nota de humor, que recorda a confusão que o nome Dexter originou, e, na última frase, com um desabafo.

Acho que ele não trocou com ela uma única palavra: era como o fim de uma história, exceto que antes de se afastarem da minha vista a mão dela pousava no braço dele, que é como geralmente começa uma história.

Ele era um pobre observador de personalidades, mas tinha cá um jeito para westerns […]! E Crabbin? Oh, Crabbin ainda está a discutir com a embaixada britânica sobre as despesas de Dexter. Eles dizem que não podem autorizar pagamentos simultâneos em Estocolmo e Viena. Pobre Crabbin. E, pensando bem, pobres de nós!



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