Perfil Poesia Brasileira Carlos Drummond de Andrade: “oitenta por cento de ferro na alma”.
"Amar o perdido deixa confundido este coração"
Carlos Drummond de Andrade
Em confidência do itabirano , o poeta Carlos Drummond de Andrade
afirma logo nos primeiros versos: “alguns anos vivi em Itabira/ Principalmente
nasci em Itabira”. Na cidade mineira, no ano de 1902, sob signo de Escorpião no
exato dia de 31 de outubro, nasce o pequeno Carlos que foi ser “gauche na vida”. Assim foi durante os
84 anos em que viveu sobre a terra, vindo a falecer na fatídica data de 17 de
agosto do ano de 1987, na cidade do Rio de Janeiro.
Não seria necessário traçar uma
biografia da vida do poeta, ou se o fizéssemos seria com bem menos glamour e
beleza da que ele mesmo traçou através dos seus poemas, de modo que a infância,
a família, Minas, os amigos, os acontecimentos corriqueiros e profundos da
vida, serão grandes motivos da poesia drummondiana. Escreve ele flagrando sua Infância:
Meu
pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
É dentro desse cenário bucólico e
campestre que a primeira infância do poeta é vivida, o destaque na poesia para
o livro do Robson Crusoé, é do menino que queria descobri e explorar o mundo
muito além do seu quintal, essa viagem para além da geográfica vai acontecer
principalmente no mundo da leitura. Drummond possuía uma gama de referências
literárias, lia Petrarca, Camões, lia e respondia assiduamente os novos escritores
brasileiros que lhe submetiam obras para apreciação, na infância lia
principalmente a coleção de clássicos para juventudes, livros recheados de
título com aventuras fantásticas como as viagens de Gulliver, Ivanhoé, entres
outros muitos títulos.
Outro aspecto bem marcante na
vida e na poesia de Drummond é a relação com sua família, uma família
tradicional fazendeira de bons recursos. Seu pai, desejando ter um doutor na
família investe bastante na educação do Filho, fazendo-o estudar em Belo
Horizonte e depois o formando-o Farmacêutico.
Porém as veredas da vida levariam
Carlos para outro destino, junto com alguns amigos escritores funda um
periódico, A Revista, responsável na divulgação do modernismo em Minas Gerais e
do modernismos mineiro. Em 1930 vai lançar o seu primeiro livro alguma poesia, produzindo em sequência
muitos outros, além de poemas, crônicas, contos e livros infantis. Viveu a
maior parte de sua carreira profissional exercendo cargos no funcionalismo
público, trabalho com o ministro da educação Gustavo Capanema, tanto que certo
vez , o poeta Manuel Bandeira foi pedir-lhe um emprego no ministério, pedido
que não pode ser atendido.
A obra de Carlos Drummond de
Andrade é imensa, não só em tamanho, é imensa pelo alcance e profundidade que conseguiram
atingir. Drummond foi um poeta Modernista que sempre acreditou que para se
escrever poesia era preciso muito mais que inspiração momentânea, ele encarava
a arte do poema um labor de mais alta complexidade que necessitava de grande
estudo e dedicação, obtida principalmente através da leitura e da observação da
vida.
Rondam a poesia do Drummond temas
diversos, o poeta escreveu bem e de muitas formas, desde curtos poemas a
verdadeiras histórias em versos, estamos só citando sua obra poética sem falar
dos outros gêneros que escreveu. A metapoesia, a ironia, o desdém ao mundo, a
família, Itabira, Minas Gerais, o mundo, a desesperança no mundo, a esperança
no mundo, são alguns dos temas mais recorrentes na poesia drummondiana. A
bibliografia extensa possui obras metafísicas, políticas, memorialista, lírica, humorística, até um livro de
aforismos e um com excelentes poemas eróticos.
Estivemos em Itabira, MG e
pudemos conferir o Pico do Amor, onde foi construído pelo amigo do poeta e
arquiteto Oscar Niemayer um lindo memorial, local se avista a cidade quase
completamente. Acessamos alguns títulos da biblioteca particular de Drummond,
composto por nomes que ele ajudou a lançar na literatura brasileira, tais como
Adélia Prado e Cora Coralina. Visitamos a Fazendo da Família do Drummond e o
casarão no centro da cidade que possuí um jardim planejado pelo irmão do poeta,
José. Contudo, o melhor foi ler várias placas de ferros gravadas com poemas do
autor e espalhadas por toda cidade.
No nosso Perfil de hoje
selecionamos alguns poemas, algumas leituras que pessoas famosas fizeram de
poemas de Drummond para um projeto do Instituto Moreira Sales e uma das raras
entrevistas concedidas.
Aprecie!
Fernanda Torres recita Necrológio dos desiludidos do amor
Perfil
Poesia Brasileira Carlos Drummond de Andrade: “oitenta por cento de ferro na
alma”.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão
muito mais que lindas,
essas ficarão
Leda Nagle entrevista Drummond
Os homens: As viagens.
O homem bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver
Science
Fiction
O
marciano encontrou-me na rua
e teve medo de minha impossibilidade humana
Como pode existir, pensou consigo, um ser
que no existir põe tamanha anulação de existência?
Afastou-se o marciano, e persegui-o.
Precisava dele como testemunho.
Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se
no ar constelado de problemas.
E fiquei só em mim, de mim ausente.
e teve medo de minha impossibilidade humana
Como pode existir, pensou consigo, um ser
que no existir põe tamanha anulação de existência?
Afastou-se o marciano, e persegui-o.
Precisava dele como testemunho.
Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se
no ar constelado de problemas.
E fiquei só em mim, de mim ausente.
Caetano interpreta Elegia 1938
A
Palavra Minas
Minas não é palavra montanhosa
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos o
irrevelável segredo
chamado Minas.
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos o
irrevelável segredo
chamado Minas.
Drica Moraes recita O amor bate na aorta
Família
Três
meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.











