O eu e o nós na poética de Carlos Aranha
por Bruno Gaudêncio
O trecho do poema
“Veja” contido na obra inaugural “Nós an Insight” (Linha d’água, 2011) de
Carlos Aranha é revelador em diversos aspectos. Conhecido em todo o estado da
Paraíba por sua militância artística, principalmente no jornalismo cultural,
Carlos Aranha demorou décadas para publicar o seu primeiro livro. Esta ausência
criou uma imensa expectativa por parte dos seus leitores diários e artistas que
vêm observando, desde a década de 1960, sua atuação na produção de
peças, discos e filmes, entre outras linguagens.
Carlos Aranha é um
destes nomes que ainda mobilizam o cenário cultural da Paraíba na atualidade
(em especial João Pessoa). Suas opiniões criam certas concordâncias e rejeições
e são avaliadas sempre como posicionamentos coerentes, atuais e
firmes. Aliás, como sua própria poesia e personalidade. Filho das vanguardas
estéticas brasileiras, como o Tropicalismo e o Cinema Novo, Aranha vivenciou
particularmente os movimentos culturais em seu estado, incorporando atitudes,
discursos e imagens, que levaram a compor o seu repertório poemático.
“Nós an Insight”
caracteriza-se pelo impulso poético do seu autor. Numa percepção “motora do
instante”, Carlos Aranha deflagra uma hermenêutica própria de sua geração,
marcada pela herança errante das vanguardas, em especial a tradição
tropicalista (da qual Caetano Velloso se mostra como um guru inspiratório). Mas
não é só isso. Quando se fala em inspiração ou diálogo emotivo e cultural,
percebe-se claramente um “intercâmbio atemporal” com a poesia de Augusto dos
Anjos.
A alusão dicotômica
“O Eu / O Nós” é a espinha dorsal da gramática estética que nos apresenta
Carlos Aranha. O “Eu de Augusto” absorve então os outros, numa poética
sofisticada e madura, da qual referências “pop’s e cult’s” vão sendo
apresentadas. Cada verso surpreende vindo como um signo rompido, alucinante,
numa obra aberta (no dizer de Umberto Eco). Exemplo máximo da relação “O Eu/ O
Nós” que podemos trazer de início é o poema “Nós”, que abre o livro:
NÓS
ao poeta maior: Augusto dos Anjos
A nossa luz há de brilhar ali.
Sem sombra, assombro.
Assumo o ser que somos nós.
Deus é ser de tom tamanho
que seu silêncio é som da nossa voz.
Nós reatamos nossos górdios nós
até rompermos o macho hímen criador.
Sutilezas, pós-Augusto, sempre sóis,
costelas adâmicas arrancadas com amor.
Our light:
Insught.
Besame mucho,
muitíssimo brilho.
Pós-hedônicos,
nos masturbamos à sombra do tamarindo
plantado num cemitério de Paris.
Voulez-vous manger avec-moi?
Algum poeta convidado para jantar?
Help me,
Ah, Socorro, como te amei...
Sapé, Campina Grande, Taperoá,
tudo, todos, tão sem distâncias.
O tamanho agora é um obelisco em holograma
e os anjos com Augusto,
numa cósmica lagoa,
falam dos poemas que você fez pra mim.
Pra mim? Pr'ocê?
Somos nós: um só ser
igual e iguais a Deus,
imagem retrospectiva,
semelhança introspectiva.
A nossa luz de brilhar ali.
Outro dado importante na poesia
de Carlos Aranha é o lado crítico, nunca contemplativo da realidade. A cidade
de João Pessoa, as amizades culturais, os filmes, as referências estéticas, –
nada passa sem um olhar avaliador, elucidativo, às vezes quase prosaico, como
no poema “Yesterday’s apocalyse”, no qual sobram críticas ao formalismo e à hiperinterpretação
por parte da crítica literária contemporânea.
Marca presente na
poesia de Carlos Aranha é a “implosão das identidades”, em que os lugares, as culturas e as pessoas, numa maquinaria múltipla de
referências, se dispersa, sem conexões aparentes. Tudo numa interligação
de artistas, filmes, peças, num culto à “diversidade do mundo”, presente especialmente no
poema “Pra que Tant’identidade”:
A diversidade canta em seus versos
Porque a poesia
Quando se conflita
É mais que o vão voo da vida.(p.25)
Nesta incursão
identitária, cabem poemas em inglês, memórias da repressão, cânticos de amor à
cidade de João Pessoa, diálogos com artistas amigos, como o escritor
José Nêumanne Pinto e a compositora Cátia de França, a afetividade sexual na
presença festiva dos corpos. A universalidade artística em diálogo constante
com a localidade cultural: “Meu
espírito paira/ entre Nova York e Cruz das Armas” (p.80).
Todavia, acredito
que, de todos os poemas, aquele que representa mais o universo poético de
Carlos Aranha, neste seu primeiro livro, é “About me”. Demarcado por uma
memória afetiva, o autor se despe num jogo de revelações pessoais, em que os
lugares, os endereços de sua subjetividade ficam mais nítidos e lúcidos diante
das incertezas do passado, do presente e do futuro.
About Me
Atlântica, 107.
Areia, 51.
Dom Adauto, 9.
Catete, 52.
Endereços
sucedâneos;
velhos de guerra
conterrâneos,
Eu, inteiro partido
de 64 anos,
filho de pai morto
aos 35.
Na infância, diziam
a mãe Antonieta:
"esse menino
não se cria".
Na adolescência,
uma torcida para
chegar
aos 25.
A ditadura sobre
nós;
eu, Marcus,
Vladimir, Eduardo
e outros tais,
chorando Edson Luiz
e vários mortos
– conseguiria ser
um "Anjo
45?"
Endereços contemporâneos;
novos de guerra -
subterrâneo;
Eu relendo Augusto
e por inteiro me
perguntando:
o que será de mim
aos 55?
Números são eternos
como palavras de
honra.
Da Paraíba vou ao
Rio,
reencontro o ano
não findo
e assim sonho
com o 95.
Se me
perguntam
quando estarei
velho,
me fantasio de Bob
e Zé:
a resposta vem com
o vento
que sai de Lagos,
atravessa o
Atlântico
e me encontra nu
como um rapaz,
com minhas letras,
caras e músicas,
de Tambaú a
Ipanema,
fazendo de números
e endereços
as novas contas
de estar vivendo.
Mesmo tendo um
traço prosaico, que muitas vezes se afasta da poesia, Carlos Aranha estreou
bem, num livro forte e ousado, cheio de instantes marcantes. “Nós an Insight” é
uma obra viva e reveladora, advinda de um poeta que não cabe dentro de si mesmo,
que transcende as suas referências estéticas, os lugares e as culturas, numa
corrida louca e interna entre o Eu e o Nós de cada dia.
Livro: ARANHA, Carlos. Nós an Insight. João Pessoa: Linha d’água,
2011.


