Cândido
Cândido
nasceu gordinho: quatro quilos e duzentos gramas. Do leite materno ao leite especial, que só
deixou de tomar quando bem quis. A lancheira, ainda nos primeiros anos da
escola, despertava a inveja dos amiguinhos de classe: achocolatado suíço,
barras de cereais, guloseimas e suquinho de morango. Ainda na pré-adolescência, tinha uma rotina
forçadamente cheia: curso de música, aulas de inglês e francês; além de
esportes, sendo estes aos finais de semana. Ganhou o primeiro carro antes mesmo
de sair do ensino médio, pois só ficara para recuperação em oito das doze
disciplinas do segundo para o terceiro ano, o que era um grande feito no
currículo escolar de Cândido- se considerado aos anos anteriores. A primeira
namorada não suportou a relação por muito tempo, pois as agressões físicas
estavam ficando cada vez mais fora de controle. Ela até denunciou aos órgãos
responsáveis pela integridade da mulher, mas é que me esqueci de falar sobre o
cargo que o pai de Cândido ocupava dentro do cenário sócio-político
fortalezense, desculpem-me.
Um
trabalho (ou melhor, a farsa deste) já acertado para o começo do ano no
gabinete de um deputado federal; um carro importado e cheirando a novo, que era
seu xodó, recém-chegado ao Brasil; uma vida promissora de luxo, farras e
facilidade.
Acontece
que, numa noite de sexta-feira, uma semana antes da viagem pela Europa, que há
três meses estava marcada, na qual iria meramente com o intuito de comprar
blusas de grife e observar as novas tendências dos veículos europeus, Cândido
foi ‘vítima’ de um assalto, no qual reagiu, sendo morto com sete facadas no
meio da Avenida 13 de Maio. Tudo isso porque Cândido não entendia que o mundo
não era só seu, e se foi sem saber se de Ouro ou Prata seriam as letras que
bordariam seu nome na lápide da sua catacumba.

