por Caio Russo
Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me
dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os
incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos
enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e
cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo.
A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas
mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as
costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me
por pincel — Não sabia que você fumava Luciana... Não? Comecei faz pouco tempo,
gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e têm meus pais também,
sabe como é... Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo
gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim
transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me
apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer.
Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a
pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro
inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos
lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha
há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo
naquele padreco: até que a morte os separe o que, deixa disso. Não está essa
minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu
cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do
que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali
acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela,
levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não, mãe, por favor, foi sem
querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói
muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio
que nesses lábios não tocarei. Não ei de ser tragado, a não ser em seu corpo.
Caio Russo é graduando em História na UNESP FCL-Assis. Engendra pesquisa em Arte Moderna, com ênfase em Teoria Crítica e Nova Música do século XX. Atualmente detém-se na poética do compositor húngaro Béla Bartók. Escreve desde a mais tenra infância.