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13 de outubro de 2014
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Pianíssimo

 

por Caio Russo




Roda pião. Na mão do menino o giro soa. Aos céus o olhar ergue. Quente dia quente. Seus dedos escorregam enquanto escorre o caldo do cansaço. Salgado corre. No asfalto queima os pés descalços. Chamuscado pé chia. — Mais um trago moleque. Detrás do balcão tamborila seus dedos em dura madeira. Nota a nota toca sem saber que toca. Dança com o trago. Serpenteia entre os corpos. — Que lerdeza moleque. Em glissando a porta do bar desce. Escorrega para rua. Cai. Caminha no frio asfalto da noite. Fria noite fria. Na casa em flautato compassado toca a virtuosi panela de pressão. Feijão. Pão que com ferro sustenta os famintos. Negros dedos negros. Andejam suas teclas pretas na branca pia. Com os semitons na mão forma sobre papel de pão seu próprio piano humano. Inquietos salpicam seus dedos o branco sal no bife a crispar. Na preta chapa preta. Dorme em alvos lençóis o barroco anjo de madeira escura. Seus dedos vão noite adentro a tocar sem nunca conhecer o piano.



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1 de setembro de 2014
Cinzas

Cinzas


por Caio Russo

Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava Luciana... Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e têm meus pais também, sabe como é... Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o que, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não, mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não ei de ser tragado, a não ser em seu corpo.


Caio Russo é graduando em História na UNESP FCL-Assis. Engendra pesquisa em Arte Moderna, com ênfase em Teoria Crítica e Nova Música do século XX. Atualmente detém-se na poética do compositor húngaro Béla Bartók. Escreve desde a mais tenra infância. 


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