A História do Cinema: Uma Odisseia.
por Renan Matos
Dirigido e narrado pelo crítico de cinema irlandês Mark
Cousins, a História
do Cinema: Uma Odisseia é um documentário sobre a história do cinema, feito
para televisão com 15 episódios e mais de 900 minutos.
Mark Cousins nos transporta do fim do século 19 aos
dias de hoje, demonstrando a evolução de uma nova forma de arte: o cinema. Por meio
de filmes, locações ao redor mundo, entrevistas com diretores e profissionais
do meio, Cousins nos conduz para uma deliciosa odisseia, onde poderemos ver os
principais criadores da sétima arte.
Venho, portanto, aos poucos, destacar o que em cada
episódio é apresentado para os interessados em cinema. Tentarei de forma clara
e sucinta demonstrar os melhores momentos do documentário e explicar os
elementos e técnicas cinematográficas na qual passou por diversas mudanças.
EPISÓDIO 1 - INTRODUÇÃO
A arte que se parece muito com nossos sonhos é uma indústria global
multibilionária a qual não visa à bilheteria nem o show biz. O que a motiva
para crescer de forma incessante é a paixão e a inovação. Veremos como em
vários cantos do mundo a inovação feita por diversos diretores em tempos
distintos foi essencial para sua evolução. Um conto épico sobre inovação, que
atravessa 12 décadas e 6 continentes.
Em uma breve introdução, o documentário expõe, com algumas cenas de
filmes, como o cinema nos envolve de forma extrassensorial.
Em O Resgate do Soldado Ryan (1998),
a cena inicial do filme foi filmada numa praia pacífica na Irlanda. Mas o
diretor Steven Spielberg levou balas, sangue e bombas até lá. Uma mentira para
contar uma verdade. A câmera abaixo e acima da água, tremulante, mostrando
corpos sendo baleados e carregados pelas ondas, é a arte de fazer com que nós
nos sintamos lá. Isto é cinema.
Em A Liberdade é Azul (1993),
dirigido por Krzysztof Kieslowski, uma jovem está de olhos fechados em Paris
para sentir o calor do sol no rosto. Ao mesmo tempo, sem que ela veja, um drama
acontece, uma velhinha esforçadamente tenta guardar uma garrafa de vidro em um
depósito. Uma luz branca enche a tela e liga a jovem à senhora, queremos entrar
no filme e ajudá-la. Filmes como este são máquinas de empatia. Isto é cinema.
Cenas como a da praia da Normandia e a velhinha mostram que em termos de
usar som, luz e verdade – no sentido em que a
realidade está ocorrendo – o cinema pode ser ótimo. A história do cinema é a história disso. Uma
história cheia de surpresas.
Vocês podem ter achado que o programa (o documentário) se referia a
filmes clássicos como Casablanca (1942), em que mostram cenas cheias de
anseios, história de amor e fama, closes de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Não, aqui, somos apresentados a filmes clássicos não hollywoodianos, como
filmes japoneses que não tinham pressa em demonstrar cenas românticas, os quais
se aproveitavam de objetos imóveis para demonstrar a realidade da cena, onde a
própria cena sem personagens famosos poderia trazer algum tipo de emoção ao
telespectador. Hollywood não era clássica. O Japão é que era.
Com todo o papo de bilheteria, dinheiro pra cá e dinheiro pra lá, marketing,
glamour, pré-estreias e tapetes vermelhos, a indústria quer que acreditemos que
o dinheiro é o que motiva o cinema. Os executivos estão enganados – talvez parte do público esteja sendo enganado –, eles não conhecem os segredos
do coração, nem o brilhantismo do meio cinematográfico. Então, o que motiva o
cinema senão o dinheiro? A resposta para essa pergunta: ideias.
Julio Cabrera nos ensina que o cinema busca que o telespectador
tenha uma experiência instauradora e plena, para ser possível produzir um impacto emocional em que, ao mesmo tempo, diga algo a respeito do mundo, do ser
humano, da natureza e que tenha um valor cognitivo, persuasivo e argumentativo
através de seu componente emocional para alguém.
Por fim, tentando ser mais direto, cinema não está interessado
somente em passar uma informação objetiva nem em provocar uma pura explosão
afetiva por ela mesma. Utilizando as palavras de Cabrera, no cinema “não é
suficiente entendê-lo: também é preciso vivê-lo, senti-lo na pele,
dramatizá-lo, sofrê-lo, padecê-lo, sentir-se ameaçado por ele, sentir que
nossas bases habituais de sustentação são afetadas radicalmente”.
E é assim que o documentário vem expor por meio da demonstração de
gênios do cinema como uma ideia se torna arte. Vejamos como um plano de bolhas
se torna uma ideia no cinema.
Em Odd Man Out (1947), da
diretora britânica Carol Reed, o homem está encrencado. Ele vê seus problemas
refletidos em bolhas da bebida que derrubou.
Em 2 or 3 Things I Know About Her
(1967), do diretor francês Jean
Luc Godard, outro close de bolhas é feita. O Personagem também está com
problemas e influenciado por Carol Reed, Godard, 20 anos depois, filmou o mesmo
em seu filme.
Já em Taxi Driver (1976), do diretor Martin Scorsese, grande
apreciador de Carol Reed e do cinema de Godard, filma Travis (Robert Deniro),
um ex-fuzileiro da guerra do Vietnã, encarando seus problemas.
Vimos, portanto, como uma ideia é repercutida por vários anos e por
vários diretores renomados. Essa forma de linguagem cinematográfica é o que faz
também com que o cinema cresça com o passar dos anos. Ideias visuais, mais que
dinheiro e marketing, motivam o cinema. Nem sempre essas ideias parecem
inovações, mas, sentados no escuro, são imagens e ideias que nos empolgam.
Daí, você poderia perguntar: quem controla o cinema? Quem consegue
entrar na sua cabeça? Ora, David Lynch (americano), Baz Luhrmann (australiano),
Samira Makhmalbaf (iraniana), Lars Von Trier (dinamarquês) e Ingmar Bergman
(sueco) conseguem.
São eles que fazem com que sejamos absorvidos por histórias,
personagens, sons e imagens. E se isso não importasse, não seria cinema. O
documentário A História do Cinema é
um filme de viagem global atrás dos inovadores, das pessoas que dão vida a esta
forma de arte sublime e inefável que é o cinema.
Para o fim dessa introdução, ainda temos uma surpresa. O filme traz uma
curiosidade acerca do que há de acontecer nos anos 70, há de se esperar que
momentos como este:
Em Operação França (1971), do
diretor William Friedkin, uma câmera voando feito uma bala, pneus cantando
enquanto um carro persegue um trem, seriam as características que seriam
visíveis e perceptíveis ao telespectador. No entanto, a magia do cinema transcende.
Uma técnica cinematográfica conhecida como Phantom Ride, está exposta nesta cena. Pode se dizer que George
Albert Smith, foi um dos pioneiros dessa técnica, usando em seu filme A Kiss in the Tunel (1899). Tal técnica
será explorada mais a frente com outros exemplos e mais detalhes.
Muito do que supomos sobre o cinema está errado. É hora de redesenhar o
mapa da história do cinema que temos em mente. É hora de conhecermos
profundamente tudo aquilo que concerne o mundo cinematográfico, sem achismos, com
argumentos técnicos que serão sempre bem vindos em uma discussão sobre cinema.







