Psia: feminino de psiu
Se você retirar da
palavra Poesia somente as letras OE você encontrará o nome do segundo
livro de Arnaldo Antunes: Psia.
Desde seu título o livro já demonstra o jogo morfológico que atravessará boa
parte das páginas dessa obra. Na orelha do livro, Arnaldo há um poema que diz:
“Psia é feminino/ de psiu;/ que serve para chamar a atenção/ de alguém, ou
para pedir silêncio”. Esse silêncio e atenção ganharão vigor pela página em
branco, por poemas sem títulos e pela não-numeração das páginas. O fato das
páginas não estarem numeradas permite a leitura não-linear, o leitor pode
escolher de forma aleatória por onde deve começar sua leitura. Psia é um mundo-livro construído por
palavras e silêncios. A palavra, como Arnaldo afirma em entrevistas, é sempre o
ponto de partida para seus livros. Comentando sobre Psia Alessandra Santos (2013 p. 98) diz:
Psia ecoa o título do seu
primeiro livro de poemas visuais OU E (1983), já que o último poema do livro
está conectado a um dos primeiros (onde uma passagem bíblica citando nomes é
posta lado a lado com os nomes de uma lista telefônica), mas também há um
rompimento da palavra inventada “psia”, em relação à qual o “ou” e o “e” se
encontram fisicamente impressos entre “p” e “sia”.
Psia pelo título e pela
construção de seus poemas faz alusão direta ao livro-irmão OU E, primeiro livro publicado
por Arnaldo Antunes. Esse livro não é concretista nem vanguardista, as
significações para Arnaldo são supérfluas, para ele a sua obra é
inclassificável. E é dessa forma que ele prefere ser reconhecido, como um poeta
sem classificações.
O poema que abre o livro
lembra os provérbios ditos por minha avó: “Quem
com ferro fere com ferro será ferido”. Porém
Arnaldo desestabiliza a expectativa do leitor ao trocar o vocábulo ferro sem alterar a conotação social do dito
popular. Eis o poema-frase que abre o livro:
Quem
com ouro fere?
O poema acima surgiu do
provérbio que citei, Arnaldo aproveita um ditado popular de tom afirmativo e o
reconstrói em tom interrogativo sem retirar a essência social do dito popular.
A pergunta é posta em uma página cercada pelo branco, em que só se lê o poema-provérbio,
esse espaço branco compreende o silêncio para que cada um se questione acerca
do questionamento. Ribeiro Modro (1996 P. 43), sobre o poema, comenta que:
Ao
realizarmos a comparação entre o poema e o provérbio podemos perceber que há
uma perda da aliteração, recurso literário que "consiste na repetição do
mesmo som ou sílaba em duas palavras ou mais, dentro do mesmo verso ou
estrofe", encontrada no provérbio: "...ferro fere...ferro será
ferido". A perda desta aliteração põe em evidência o vocábulo
"ouro", que destaca-se no texto, isto evidencia o contraste entre ferro/ouro no sentido de valo ração: os dois
são metais, porém, apesar de o ferro ser utilizado e encontrado em objetos
comuns no uso do dia-a-dia, é o ouro que é considerado como um metal nobre
devido sua raridade e não-oxidação, e põe em dúvida o fato de se quem fere com
"ouro", algo valioso, será ferido de forma idêntica.
O mesmo autor comenta à
frente que esse poema lembra ainda os poemas-minutos de Oswald em que consistia
abordar temas cotidianos. O próximo poema a ser analisado é divido em três
partes, nesse poema percebe-se o jogo Palavra-imagem, que é uma constante na
obra de Antunes e dos poetas concretos. Note:
Nesse
poema visual, a letra A em destaque na palavra lua, toma a
forma de uma lua cheia, o M em destaque na palavra nuvem, toma a forma de uma
nuvem, principalmente devido as suas bordas. Esse poema faz uma analogia a uma
noite de lua cheia cercada por nuvens. O poema seguinte complementa a idéia da
noite enluarada:
a lua suja
de nuvens
surja nua
de nuvens um
dia.
O
seguimento concretista segue nesse poema, pois a palavra lua puxa a palavra nua e a palavra suja puxa a palavra surja, esse é o famoso jogo
palavra-puxa-palavra que os concretistas teorizavam. MODRO (1996, p. 46)
comenta sobre o poema:
A idéia enfocada
iconicamente no primeiro segmento é retomada aqui ao afirmar "a lua suja
de nuvens", como se as nuvens fossem uma espécie de poluição para a lua.
Na parte final, esta poluição de "nuvens" é retomada
como se fossem vestimentas, as quais a "lua" poderia dispensar para
surgir "nua" em todo seu esplendor. Note-se ainda que o verso final é
constituído por apenas um vocábulo, "dia", que por ser um substantivo
e ter seu respectivo artigo indefinido, "um", no final do verso
anterior, se constitui num nítido enjambement, isto é "o transbordamento
sintático de um verso em outro; a pausa final do verso atenua-se, a voz
sustém-se, e a última palavra de uma linha se conecta com a primeira da
seguinte, estabelecendo a ruptura da cadência determinada pela simetria dos
segmentos ou gerando a desuniformidade rítmica da estrofe"7. Além disso,
há, aqui, um tom de coloquialidade ao aproveitar uma expressão idiomática,.
"te vejo um dia destes", com o sentido de qualquer hora (dia ou
noite) para indicar a possibilidade aleatória do surgimento da lua desnuda de
nuvens.
No
último poema dessa série sobre lua e nuvem, há uma continuação de jogo de
palavras, dando ao poema ares de musicalidade:
da nuvem nua
a lua
se desnuda
de que nuvem
a nuvem
se desnua?
Mais
à frente encontraremos outro poema que seguirá essa brincadeira com as
palavras, mais um poema em que notaremos a influência da poesia concreta na
obra de Arnaldo Antunes:
O
sol
acende
Ou
só
ascende
Arnaldo
nesse poema, e em outros, aproveita bastante da página em branco, construindo
de maneira fora dos padrões clássicos poéticos. Nesse poema Arnaldo liga as
palavras de maneira fonética e morfológica com “o/ou”, “sol/só” e
“acende/ascende”, essas palavras de maneira fônica acabam fornecendo conexões
entre si, sem falar do belo morfológico com “acender” e ascender”, gerando na
primeira a idéia lúdica do sol iluminar enquanto que “acender” liga-nos a idéia
do sol subir.
O
jogo morfológico continua no poema A
rosa se rosa// a rosa rosa// arroz, nesse último poema Arnaldo aproxima-se
do Haicai, arte poética japonesa de consistência filosófica e simples, o verso
inicial A rosa se rosa provoca um questionamento sobre o
vocábulo rosa,
questionando-a como cor e flor rosa, no segundo verso o poeta retira o vocábulo se afirmando nesse verso os dois
seguimentos: cor e flor. O último verso Arroz reproduz uma aproximação fônica com as
palavras rosa, como também forma um anagrama fônico da palavra Rosa. Ribeiro
Modro (1996 p. 51) comenta sobre uma intertextualidade entre o poema A rosa de Hiroshima de Vinicius de moras com o poema A rosa de Arnaldo Antunes:
Uma
primeira analogia entre os dois poemas é o tema central: a rosa; ressaltando que Vinícius foi o
primeiro a estabelecer uma relação entre a rosa e o cogumelo atômico formado após a explosão de
uma bomba atômica. Além disso, se realizarmos uma comparação entre os dois
poemas podemos perceber que o verso inicial do poema de Antunes, "A rosa
se rosa" possui o mesmo início ("A rosa") e um final ("se
rosa") que remete fonicamente ao final do verso "A rosa com
cirrose" de Vinícius. A partir deste verso Antunes realiza um trabalho de
supressão e aproximação fônica, conforme visto acima, e chega ao verso final
"Arroz". Chegamos, assim a dois elementos que sintetizam o poema de
Vinícius: a rosa (cogumelo atômico) e o arroz (a principal fonte de alimentação
dos japoneses).
Ao
folhearmos mais para trás, encontraremos um poema ricamente social. A idéia em
si do poema é transmitir a idéia de que o olhar de uma mãe sempre é diferente
do olhar de um pai, a mãe filma cada momento do filho, faça este teste leitor,
pergunte a sua mãe qualquer fato de sua vida e ela lhe responderá com ricos
detalhes. Eis o poema que falo:
o
olho
(fêmea)
olha
o
(
filho
)
filme.
A
parte corporal olho se materializa na letra O, as pálpebras se concretizam
nos parênteses, por isso há o momento de abrir e fechar de parênteses na
palavra filho. Alessandra
Santos (2013 p.99) sobre o poema teoriza:
No
poema o/olho/(fêmea)/olha,
há um colapso no processo de flexão, no sentido de que “o olho” masculino e sua
mudança de gênero (impossível), torna-se “possível” na leitura onde a
conjugação do verbo “olhar”, vira fêmea de “olho”: a “olha”. Dentro dessa
característica, o poeta explora a morfologia dos vocábulos, desafiando suas
limitações estruturais, modificando normas, criando assim novas possibilidades
lúdicas de leitura.
Essa
brincadeira morfológica e sintáxica repercute em toda a obra de Arnaldo
Antunes. Não se trata de exclusividade apenas desse livro. O poema abaixo
remete ao questionamento do ser:
quem?
mim-
guém
Esses
três versos são postos no centro da página, cercado pelo branco. Arnaldo nesse
poema trabalha com a fragmentação vocabular, esse recurso será uma de suas
marcas literárias. Nessa fragmentação Arnaldo propositalmente fragmenta a
palavra ninguém trocando por mimguém,
ao construir esse neologismo o poeta evoca o esvaziamento do ser, evocando um
ser primitivo, antropófago. O lirismo de Arnaldo é presente em Psia em dois poemas. Gostaria de destacar
apenas um:
porque eu te
olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlat O’Hara, a minha Excalibur, a
minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigite Bardot, o meu
Tadzio, a minha Anne, a minha Lou Salomé, a minha Lorraine, a minha Ceci, a
minha Odete Gracy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha
Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a
minha Rosemary, a minha Merlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha
Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a
minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria.
O
ponto alto desse poema são as intercalações que Antunes faz com a musa. Ele
compara o seu amor a figuras mitológicas da literatura e do cinema, nesse poema
há também a fusão de linguagens e de imagens. Alias o recurso imagético é
bastante utilizado na poética arnaldiana. Arnaldo Antunes em Psia compreende a poética contemporânea sem
esquecer as raízes da poesia que são o lirismo, o sentimentalismo, a visão
social e a contemplação do mundo. Psia é um livro que para alguns soará
estranho, devido as suas inovações poéticas, mas a sua base está nas grandes
estruturas poéticas. Nesse livro, o segundo de Arnaldo, notamos um poeta ainda
em busca de uma linguagem própria, mas muito da produção vindoura do poeta é
percebido nesse livro, portanto eis uma peça fundamental para entender mais a
sua produção, lendo Psia.
REFERÊNCIAS
ANTUNES,
Arnaldo. Psia. São Paulo:
Iluminuras, 2012.
MODRO, Nielson
Ribeiro. A obra poética de
Arnaldo Antunes. 1996. 166 ff. Dissertação (Mestrado em Letras) – curso de
Letras, Universidade Federal do Paraná: Curitiba, 1996.
SANTOS, Alessandra. Arnaldo
Canibal Antunes. São Paulo: nVersos, 2013.





